Pular para o conteúdo
Ciência

Por que os humanos dominaram o fogo? Nova teoria diz que não foi para cozinhar

Pesquisadores de Israel propõem uma hipótese surpreendente sobre o uso inicial do fogo por nossos ancestrais: proteger e conservar carne, e não assá-la. Essa visão desafia ideias tradicionais e sugere que a origem desse avanço crucial pode estar ligada à necessidade de armazenar alimentos — e não ao preparo imediato.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

O domínio do fogo é considerado um divisor de águas na história da humanidade. Mas por que, exatamente, nossos ancestrais começaram a fazer e controlar o fogo? Uma nova teoria desenvolvida por cientistas da Universidade de Tel Aviv levanta uma possibilidade intrigante: o fogo teria sido usado primeiro para preservar carne e afastar predadores — e só depois para cozinhar. A proposta reacende um antigo debate científico sobre os verdadeiros motivos por trás dessa descoberta fundamental.

 

Uma hipótese que desafia o senso comum

Durante muito tempo, assumiu-se que o fogo foi inicialmente usado para cozinhar alimentos, facilitando sua digestão e melhorando o aproveitamento dos nutrientes. Essa função, aliás, é amplamente aceita para o período após 400 mil anos atrás, quando o uso doméstico do fogo já era comum.

Mas antes disso, a história é menos clara. De acordo com Ran Barkai, coautor do novo estudo publicado na revista Frontiers, há um intenso debate entre arqueólogos e antropólogos sobre o motivo pelo qual os humanos passaram a usar o fogo. A teoria proposta por sua equipe oferece uma nova perspectiva: o fogo teria surgido da necessidade de conservar grandes quantidades de carne e gordura obtidas na caça de animais de grande porte.

 

Fogo como “cofre” de calorias

O estudo analisou nove sítios arqueológicos com evidências de uso de fogo entre 1,8 milhão e 800 mil anos atrás. Em todos esses locais, os pesquisadores identificaram abundância de restos de grandes animais como elefantes, hipopótamos e rinocerontes. Esses animais representavam uma fonte calórica massiva — por exemplo, a carne de um único elefante podia alimentar um grupo de 20 a 30 pessoas por até um mês.

Como explica o coautor Miki Ben-Dor, preservar essa enorme reserva de alimentos era essencial: “Esses grandes animais eram desejados por predadores, mas também vulneráveis à decomposição bacteriana”. Nesse contexto, fazer fogo e mantê-lo aceso — uma tarefa que exigia esforço e técnica — só faria sentido se houvesse uma motivação energética clara, como proteger e conservar esse precioso “banco de calorias”.

 

Fumaça como conservante pré-histórico

A análise da equipe sugere que nossos ancestrais usavam o fogo para defumar e secar a carne, estendendo sua durabilidade e evitando perdas. Essa função preservadora seria o verdadeiro ponto de partida para o uso do fogo, e não o cozimento, que só viria mais tarde como um “benefício colateral” de custo energético quase nulo.

Com base em observações de sociedades de caçadores-coletores atuais e no raciocínio energético da conservação de alimentos, os cientistas apontam que o uso do fogo para defumar carnes pode ter sido a principal razão para o seu domínio inicial. Uma vez aprendido, esse recurso teria sido adaptado também para cozinhar.

 

Dieta como motor da evolução

A teoria se encaixa em uma linha mais ampla de pesquisa desenvolvida pelos mesmos autores: a ideia de que as mudanças alimentares — como a caça de grandes animais — foram o principal motor de transformações importantes na pré-história. Quando os grandes animais começaram a desaparecer, os humanos teriam se adaptado caçando presas menores e buscando novas estratégias alimentares.

Embora já se saiba que civilizações antigas — como os nativos americanos e o famoso Ötzi, o Homem do Gelo — usavam métodos de conservação de carne há milhares de anos, esta nova teoria remonta esse comportamento a centenas de milhares de anos antes, situando-o como um ponto de virada crucial na história da humanidade.

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados