Cada vez mais pessoas recorrem à inteligência artificial para descobrir o que aconteceu no dia, substituindo buscadores e portais de notícias por respostas prontas. A praticidade é inegável, mas um novo estudo indica que essa mudança pode trazer uma consequência inesperada. Quando o assunto envolve acontecimentos próximos da realidade do usuário, os chatbots nem sempre recorrem às fontes que melhor conhecem aquela região, criando um desequilíbrio que pode afetar tanto leitores quanto veículos locais.
Quando a notícia acontece perto de você, a IA pode não consultar quem realmente a cobriu
Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude, Copilot e Perplexity vêm se tornando uma das principais portas de entrada para a informação. Em poucos segundos, elas resumem acontecimentos, organizam diferentes fontes e entregam uma resposta pronta ao usuário.
O problema aparece quando a pergunta envolve uma cidade específica, uma instituição regional ou um fato que recebeu cobertura principalmente da imprensa local.
Foi justamente esse cenário que chamou a atenção de pesquisadores da Universidade do País Basco. O grupo analisou como os principais chatbots responderam a perguntas relacionadas a acontecimentos ocorridos entre 2023 e 2025 na região do País Basco, comparando não apenas a qualidade das respostas, mas também as fontes utilizadas por cada sistema.
Os resultados revelaram um padrão consistente: a maioria das inteligências artificiais privilegiou veículos nacionais, mesmo quando existiam reportagens produzidas por jornais regionais com cobertura muito mais detalhada.
Os pesquisadores classificaram esse comportamento como um tipo de “centralismo algorítmico”, fenômeno em que sistemas de IA acabam concentrando suas respostas em grandes veículos de comunicação, reduzindo o espaço ocupado pelo jornalismo de proximidade.
Durante o estudo, foram identificadas 129 fontes diferentes utilizadas pelos modelos. Destas, 87 pertenciam à imprensa nacional, representando cerca de 67% do total. Apenas 20 referências, aproximadamente 15%, vieram de veículos locais ou regionais do País Basco. O restante era composto por instituições públicas, redes sociais e outros tipos de páginas.
Entre os modelos analisados, ChatGPT e Perplexity apresentaram respostas mais completas, com melhor contextualização e maior facilidade para rastrear a origem das informações. Claude e Gemini demonstraram menor cobertura regional e ofereceram menos transparência sobre as fontes consultadas. Os pesquisadores destacam, porém, que a análise avaliou versões específicas dos sistemas, dentro de condições controladas, e não estabelece um ranking definitivo entre as plataformas.
A predominância dos grandes veículos pode ampliar desigualdades já existentes
Segundo o estudo, esse comportamento não significa necessariamente que as empresas responsáveis pelas IAs ignorem deliberadamente os jornais locais.
Os modelos dependem de diversos fatores para construir suas respostas, incluindo os dados utilizados durante o treinamento, mecanismos de busca conectados em tempo real e acordos de licenciamento firmados com empresas de mídia.
Como grandes grupos jornalísticos produzem muito mais conteúdo, recebem maior número de links e possuem estratégias mais eficientes de posicionamento nos mecanismos de busca, acabam aparecendo com muito mais frequência nos sistemas consultados pelas inteligências artificiais.
Na prática, isso faz com que veículos regionais, que normalmente operam com equipes menores e menos recursos, tenham ainda menos visibilidade dentro desse novo modelo de consumo de informação.
Os pesquisadores alertam que esse ciclo pode fortalecer uma concentração já existente na internet, tornando cada vez mais difícil encontrar conteúdos produzidos por jornais que acompanham o dia a dia de bairros, pequenas cidades e comunidades específicas.
A pesquisa também identificou outra consequência importante: o impacto sobre idiomas com menor presença digital.
Consultas realizadas em euskera, idioma tradicional do País Basco, apresentaram mais dificuldades de compreensão, respostas incompletas e maior incidência de erros. Como existem menos conteúdos disponíveis nessa língua para treinamento e validação dos modelos, a qualidade das respostas tende a ser inferior quando comparada aos idiomas mais utilizados na internet.
Além disso, acontecimentos publicados apenas em euskera podem simplesmente deixar de aparecer nas respostas da IA, limitando o acesso a perspectivas que nunca chegaram aos grandes veículos nacionais.
O jornalismo ainda utiliza a inteligência artificial com bastante cautela
A mesma pesquisa incluiu uma pesquisa com 501 jornalistas em atividade para entender como a profissão vem incorporando essas ferramentas no cotidiano.
Os resultados mostram que a adoção ainda acontece de forma moderada. Quase 46% dos profissionais afirmaram nunca utilizar inteligência artificial durante o trabalho, enquanto apenas 14,1% receberam algum tipo de treinamento específico para utilizar essas tecnologias.
Entre aqueles que já utilizam IA, as aplicações concentram-se principalmente em tarefas auxiliares, como tradução, transcrição de entrevistas, revisão de textos e correções gramaticais. Já atividades consideradas mais sensíveis, como apuração, seleção de informações e redação das notícias, continuam sob supervisão humana.
Os autores defendem que jornalistas recebam capacitação para auditar essas ferramentas e que as empresas de inteligência artificial ofereçam maior transparência sobre suas fontes, além de investir em mais diversidade territorial e linguística.
A pesquisa deixa um alerta importante: respostas rápidas podem parecer completas, mas nem sempre representam toda a realidade. Se as inteligências artificiais privilegiarem apenas os maiores veículos, parte significativa do jornalismo local poderá desaparecer das consultas dos usuários. E quando isso acontece, não é apenas um pequeno jornal que perde espaço — a própria comunidade passa a ter mais dificuldade para descobrir o que realmente está acontecendo ao seu redor.