A geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, é considerada uma das maiores preocupações dos cientistas que estudam as mudanças climáticas. Conhecida como a “Geleira do Juízo Final”, ela perde gelo em ritmo acelerado e seu colapso poderia elevar significativamente o nível do mar, além de desestabilizar outras grandes massas de gelo do continente antártico.
Diante desse cenário, pesquisadores e engenheiros discutem uma proposta ousada de geoengenharia: instalar uma enorme cortina submarina no fundo do oceano para impedir que águas relativamente quentes alcancem a base da geleira. A ideia não pretende interromper completamente o derretimento, mas desacelerar o processo e ganhar tempo para que medidas de adaptação costeira e redução das emissões de gases de efeito estufa produzam resultados.
A água do oceano é uma das maiores ameaças à geleira Thwaites

Embora o aumento da temperatura do ar contribua para o aquecimento global, no caso da Thwaites um dos principais fatores responsáveis pela perda de gelo é a água oceânica relativamente quente que circula sob a plataforma glacial.
Essas correntes erodem o gelo por baixo, enfraquecendo sua estrutura e acelerando o deslocamento da geleira em direção ao mar.
Estudos indicam que, até 2067, a Thwaites poderá perder entre 180 e 200 gigatoneladas de gelo por ano caso a tendência atual continue. Como ela funciona como uma espécie de “barreira” para outras geleiras da Antártida Ocidental, seu enfraquecimento pode desencadear um efeito dominó capaz de acelerar ainda mais a elevação do nível dos oceanos.
Como funcionaria a cortina submarina
A proposta, conhecida como seabed curtain (“cortina do leito marinho”), prevê a instalação de uma série de painéis flexíveis e sobrepostos ancorados ao fundo do oceano, aproximadamente 650 metros abaixo da superfície.
Em vez de formar uma parede rígida, a estrutura atuaria como um grande defletor submarino, desviando parte das correntes mais quentes antes que elas alcançassem a base da geleira.
Segundo o projeto, a cortina teria cerca de 80 quilômetros de extensão e centenas de metros de altura, embora suas dimensões finais ainda dependam de estudos de engenharia e simulações oceânicas.
Como o ambiente antártico apresenta fortes correntes marítimas, tempestades frequentes, gelo marinho e condições extremamente hostis, a estrutura seria composta por diversos módulos independentes, facilitando a instalação e reduzindo os riscos caso alguma seção sofresse danos.
O desafio de manter a estrutura no lugar

Além da complexidade da instalação, outro obstáculo é o próprio movimento da geleira.
De acordo com informações publicadas pelo The New York Times, o núcleo da geleira Thwaites avança cerca de nove metros por dia em direção ao oceano. Isso significa que, após instalada, a cortina poderia ser arrastada pelo movimento do gelo ao longo de mais de seis quilômetros em apenas dois anos.
Por isso, o projeto exigiria um sofisticado sistema de ancoragem capaz de suportar enormes forças mecânicas em um dos ambientes mais extremos do planeta.
Os custos também estão entre os aspectos mais controversos. Diversos veículos internacionais classificam a proposta como um projeto bilionário, já que envolveria anos de pesquisas, testes em escala reduzida, transporte de equipamentos, instalação, manutenção contínua e planos de contingência para possíveis falhas.
Especialistas alertam para riscos e limitações
Apesar do interesse despertado pela proposta, muitos cientistas defendem cautela.
Uma das preocupações é que a estrutura possa alterar correntes oceânicas locais, modificar o transporte de sedimentos ou provocar impactos inesperados sobre os ecossistemas marinhos da Antártida.
Também existe a possibilidade de a cortina não funcionar conforme o esperado ou sofrer danos durante eventos extremos, reduzindo sua eficácia.
Mesmo no cenário mais otimista, os próprios pesquisadores reconhecem que a iniciativa não resolveria a causa do problema.
A cortina submarina apenas retardaria parte do derretimento da geleira Thwaites. O aquecimento global continuaria impulsionando a perda de gelo enquanto as temperaturas do planeta e dos oceanos permanecessem em alta.
Por isso, a proposta é vista como uma medida emergencial de adaptação, capaz de oferecer algum tempo adicional para comunidades costeiras e governos se prepararem para a elevação do nível do mar. No entanto, especialistas ressaltam que a redução das emissões de gases de efeito estufa continua sendo a única solução capaz de enfrentar a origem do problema climático.
[ Fonte: El Destape ]