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Ciência

Quase metade dos casos de demência pode ser evitada, mas muita gente ainda não sabe disso

Dois estudos mostram que até 45% dos casos de demência estão ligados a fatores modificáveis, como hipertensão, sedentarismo e perda de força muscular. Os pesquisadores alertam que campanhas tradicionais de conscientização têm pouco impacto e defendem estratégias mais personalizadas para prevenir a doença.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Muita gente acredita que desenvolver demência é uma consequência inevitável do envelhecimento, especialmente quando há casos da doença na família. Mas essa ideia vem perdendo força à medida que novas pesquisas são publicadas. Hoje, cientistas estimam que quase metade dos casos de demência pode estar relacionada a fatores que podem ser modificados ao longo da vida.

Apesar desse avanço no conhecimento científico, a informação ainda chega de forma limitada à população. Dois estudos recentes mostram que campanhas tradicionais de conscientização têm pouco efeito e sugerem que preservar a força muscular também pode desempenhar um papel importante na redução do risco de demência.

Até 45% dos casos estão ligados a fatores modificáveis

Uma revisão sistemática publicada na The Lancet Healthy Longevity avaliou programas de prevenção da demência em oito países: Austrália, Bélgica, Chile, China, Dinamarca, Holanda, Porto Rico e Estados Unidos.

Os pesquisadores concluíram que até 45% dos casos de demência estão associados a fatores que podem ser modificados, como hipertensão, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo, isolamento social e perda auditiva não tratada.

Segundo Mario Siervo, um dos autores do estudo, simplesmente informar a população sobre esses fatores não costuma ser suficiente para provocar mudanças duradouras nos hábitos.

Mesmo quando as pessoas conhecem os riscos, barreiras como falta de tempo, dificuldades financeiras e baixa motivação frequentemente impedem mudanças no estilo de vida.

Campanhas tradicionais têm impacto limitado

Os pesquisadores analisaram milhares de publicações científicas e identificaram apenas 12 estudos que avaliaram intervenções comunitárias voltadas à prevenção da demência.

As campanhas de televisão, rádio, redes sociais e materiais impressos conseguiram alcançar um grande número de pessoas, mas produziram apenas pequenas melhorias no conhecimento sobre os fatores de risco.

Já iniciativas mais interativas apresentaram resultados significativamente melhores.

Programas que combinavam cursos educativos, atividades comunitárias e avaliações personalizadas do risco conseguiram aumentar a conscientização e estimular mudanças concretas de comportamento.

O melhor desempenho foi observado em uma intervenção que uniu uma avaliação individual do risco com um programa estruturado de educação em saúde. Após três anos, os participantes haviam reduzido em cerca de 26% seus fatores de risco modificáveis para demência.

Segundo os autores, compreender o próprio risco torna as pessoas muito mais propensas a adotar hábitos saudáveis.

A força muscular também influencia o risco de demência

Inspirado nas rotinas dos atletas profissionais, o treino de força ajuda a melhorar o desempenho físico, previne lesões e aumenta a qualidade de vida em qualquer idade.
© Victor Freitas – Unsplash

Os mesmos pesquisadores participaram de um segundo estudo que amplia a compreensão sobre a prevenção da doença.

A equipe acompanhou quase 500 mil adultos durante aproximadamente 13,6 anos para investigar a relação entre demência e obesidade sarcopênica — condição caracterizada pela combinação de excesso de gordura corporal com baixa massa ou força muscular.

Durante o período de acompanhamento, foram diagnosticados 8.647 casos de demência.

Os resultados mostraram que pessoas com obesidade sarcopênica apresentavam um risco 34% maior de desenvolver a doença em comparação com aquelas que não tinham obesidade nem perda muscular.

Mesmo indivíduos que apresentavam apenas sarcopenia — perda progressiva de massa e força muscular — também demonstraram maior risco.

As associações foram ainda mais fortes entre homens e pessoas com menos de 65 anos.

A prevenção começa muito antes dos sintomas

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© Shengpengpeng Cai- Unsplash

Os dois estudos chegam à mesma conclusão por caminhos diferentes.

De um lado, mostram que campanhas públicas precisam ir além de mensagens genéricas e oferecer orientações personalizadas que ajudem as pessoas a compreender seus próprios fatores de risco.

De outro, reforçam que cuidar da saúde cerebral envolve também preservar a saúde física, especialmente a força muscular.

Para os pesquisadores, exercícios de fortalecimento, atividade física regular, controle da pressão arterial, tratamento adequado do diabetes, abandono do cigarro e manutenção de uma vida social ativa fazem parte de um conjunto de estratégias capazes de reduzir significativamente o risco de demência ao longo da vida.

Como destaca Blossom Stephan, a prevenção continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para enfrentar o aumento esperado dos casos de demência nas próximas décadas. Mas, para isso, será necessário comunicar melhor os riscos e oferecer às pessoas apoio prático para transformar informação em mudanças reais de comportamento.

 

[ Fonte: Wired ]

 

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