A longa reconstrução do futebol marroquino
Para entender por que o alerta é sério, é preciso voltar no tempo. Após a Copa de 1998, quando venceu a Escócia por 3 a 0 mas caiu ainda na fase de grupos, o Marrocos entrou em um longo período de frustrações. Foram duas décadas sem protagonismo relevante, acumulando eliminações dolorosas e campanhas decepcionantes.
Essa sequência de fracassos gerou indignação interna e, mais importante, ação concreta. A virada começou com a chegada de Fouzi Lekjaa à presidência da Real Federação Marroquina de Futebol. O plano era ambicioso: criar uma política integrada da base ao profissional, no masculino e no feminino, e aproveitar talentos da diáspora marroquina espalhada pela Europa.
Investimento pesado e visão de longo prazo

O projeto ganhou força quando o rei Mohammed VI entrou em cena. Foram investidos cerca de 13 milhões de euros na criação de uma academia nacional de futebol, com estrutura de ponta, educação formal e um departamento de medicina esportiva comparável ao dos grandes centros europeus. O objetivo não era só formar jogadores, mas atletas preparados para competir no mais alto nível.
Quase uma década depois, os resultados começaram a aparecer — e em grande escala. O Marrocos conquistou o Mundial Sub-20 neste ano, batendo a Argentina por 2 a 0 no Chile. A campanha incluiu vitórias contra potências como Espanha, França e até o Brasil. Não foi acaso, foi projeto funcionando.
Resultados que confirmam a evolução
O título Sub-20 não é um ponto fora da curva. Há três anos, no Catar, o Marrocos chocou o mundo ao chegar ao quarto lugar na Copa do Mundo adulta, eliminando Espanha e Portugal no mata-mata e segurando um empate contra a Croácia na fase de grupos. Foi a campanha mais impressionante de uma seleção africana na história do torneio.
Em 2024, nos Jogos Olímpicos de Paris, o time masculino chegou às semifinais e saiu com o bronze após uma goleada histórica por 6 a 0 sobre o Egito. No futebol feminino, a seleção alcançou as oitavas de final da Copa do Mundo de 2023. No futsal, o país venceu a Copa das Confederações e vem colecionando boas campanhas em Mundiais.
Marrocos joga o futebol do futuro
Outro sinal de força está fora das quatro linhas. O Marrocos será uma das sedes da Copa do Mundo de 2030, ao lado de Espanha, Portugal, Argentina, Uruguai e Paraguai. Parte da infraestrutura já está pronta — o Ibn Battuta Stadium, por exemplo, foi entregue com seis anos de antecedência.
Tudo isso revela um país que entende o futebol como política de Estado. Planejamento, investimento e paciência substituíram improviso e dependência de talentos isolados.
Não é só Hakimi — a nova geração chegou
Muita gente ainda resume o Marrocos a Hakimi, estrela do Paris Saint-Germain. Esse é outro erro comum. A nova geração já está batendo à porta. O centroavante Yassir Zebiri foi artilheiro do Mundial Sub-20. Othmane Maamma terminou o torneio eleito o melhor jogador. E há uma fila de jovens prontos para ocupar espaço no futebol europeu nos próximos anos.
Esses nomes são fruto de um sistema que sabe formar, lapidar e lançar talentos. Não dependem de lampejos individuais: jogam como equipe, com intensidade, disciplina tática e transição rápida — justamente os estilos que costumam causar problemas ao Brasil.
Alerta ligado para a estreia da Seleção
O Brasil segue favorito, claro. Mas tratar o Marrocos como adversário secundário é subestimar uma das seleções que mais evoluíram no futebol mundial na última década. A história recente mostra que eles sabem competir contra gigantes — e ganhar.
Portanto, antes de acender a churrasqueira e contar os três pontos, vale entender o tamanho do desafio. A Copa do Mundo costuma punir quem entra relaxado. E, em 2026, o Marrocos não quer só participar. Quer provar que a revolução iniciada anos atrás chegou de vez ao cenário principal.
[Fonte: Correio Braziliense]