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Tecnologia

Roubo de US$ 6,3 bilhões da Binance deve tornar seguradoras mais exigentes com empresas cripto

Após o ataque, seguradoras devem reforçar avaliações de segurança, revisar contratos e ampliar situações em que podem recusar indenizações, segundo a Reuters.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Seguradoras que atendem empresas de criptomoedas devem investigar com mais rigor se seus clientes estão vulneráveis a roubos digitais como o que atingiu a Binance na semana passada. A operação, atribuída sob suspeita a hackers norte-coreanos, desviou US$ 6,3 bilhões da corretora.

Segundo especialistas e profissionais do setor ouvidos pela Reuters, o episódio deve provocar uma revisão das exigências de segurança e das condições dos contratos. O impacto pode alcançar empresas que não tiveram qualquer envolvimento com o ataque.

Jacqueline Quintal, responsável pelo segmento de instituições financeiras e ativos digitais na corretora de seguros Marsh, disse à agência que ninguém gostaria de renovar ou emitir uma apólice para uma empresa cripto e, logo depois, assistir a outro roubo gigantesco.

Na avaliação dela, a capacidade disponível para oferecer seguros, os preços e as coberturas provavelmente não mudarão. As perguntas sobre segurança, porém, devem ficar mais rigorosas. É fácil imaginar como isso pode resultar em mais obstáculos à contratação ou em mais pedidos de indenização rejeitados.

Um prejuízo grande demais para as apólices disponíveis

Especialistas disseram à Reuters que já não existem apólices capazes de cobrir perdas da dimensão do roubo sofrido pela Binance. Mesmo assim, o setor de criptomoedas, avaliado em mais de US$ 2,5 trilhões, deverá enfrentar um exame mais minucioso nas renovações dos contratos, geralmente anuais.

A Bloomberg havia informado que a Binance oferece proteção contra responsabilidade pessoal a alguns executivos, mas, diferentemente de outras empresas cripto, não possuía seguro cibernético.

Alan Lyons, um dos responsáveis pela área de seguros do escritório de advocacia Herrick, explicou à Reuters que uma perda dessa magnitude leva as seguradoras a reavaliar toda a carteira de clientes cripto. A análise inclui a exposição acumulada a riscos, a redação dos contratos e os limites específicos de indenização.

Ou seja, o efeito de um grande ataque pode ultrapassar a empresa atingida. Ele também muda a forma como as seguradoras avaliam clientes com estruturas e vulnerabilidades semelhantes.

Menos pedidos de indenização, mas contas maiores

Segundo o Cybersecurity Dive, a tendência entre grandes empresas tem sido uma redução na frequência dos pedidos de indenização por incidentes cibernéticos, acompanhada de pagamentos cada vez maiores. Os ataques que conseguem atravessar as defesas tendem a provocar danos ou interrupções significativas.

Um novo relatório da Associação Nacional de Comissários de Seguros dos Estados Unidos, a NAIC, aponta que o valor médio dos pedidos de indenização de empresas com receita anual de pelo menos US$ 1 bilhão chegou a US$ 4,4 milhões em 2025. Isso representa uma alta de 586% em relação a 2021.

O Financial Times também relatou preocupações de que o mercado esteja cobrando valores baixos demais diante dos riscos reais. Os preços dos seguros cibernéticos caíram desde 2022, apesar do aumento dos ataques.

Laurent Rousseau, da Marsh, disse ao jornal que, em alguns momentos, existe uma grande distância entre o desempenho financeiro do setor e a precificação dos riscos que ele assume.

Ataques ligados a governos podem ficar fora da cobertura

De acordo com a Reuters, as seguradoras provavelmente exigirão que empresas cripto corrijam vulnerabilidades relacionadas ao caso da Binance. A fiscalização também pode alcançar suas práticas de segurança mais amplas.

Os contratos poderão trazer uma redação mais restritiva e novas exclusões: situações em que a seguradora não terá obrigação de pagar. Lyons considera provável que essas condições fiquem mais explícitas.

Marcos Alvarez, diretor-gerente de classificações de instituições financeiras globais da Morningstar DBRS, afirmou à Reuters que ainda não está definido se as seguradoras pagariam indenizações em um incidente como o da Binance.

Desde 2023, por exemplo, o mercado de seguros Lloyd’s geralmente exige que apólices cibernéticas excluam ataques patrocinados por Estados.

“Se um ataque for atribuído a um Estado, as seguradoras poderão contestar ou negar pedidos de indenização”, afirmou Alvarez. Segundo ele, a eficácia dessas exclusões diante de uma grande perda motivada por interesses geopolíticos ainda não foi colocada à prova.

A cadeia de fornecedores continua sendo um ponto fraco

Para a NAIC, a combinação de menos ocorrências e prejuízos muito maiores pode indicar que a seleção de clientes e os controles de segurança estão reduzindo a quantidade de incidentes que chegam a gerar pedidos de indenização. Os casos que ainda acontecem, entretanto, ficam mais caros de resolver.

O relatório também aponta que ataques impulsionados por inteligência artificial podem piorar a relação entre indenizações pagas e valores arrecadados, especialmente entre empresas que dependem das mesmas tecnologias.

Ainda assim, um problema central continua sendo a cadeia de fornecedores: a vasta rede de componentes de software e hardware, muitas vezes mal catalogados, que sustenta a operação de uma organização.

O ataque à Binance teria envolvido uma falsa entrevista de emprego e um anúncio com malware. Já o roubo de US$ 1,4 bilhão da Bybit, no ano passado, passou pelo comprometimento do computador de um desenvolvedor terceirizado ligado à cadeia de fornecedores da corretora.

O risco da IA também está na escala

A inteligência artificial preocupa as seguradoras por outro motivo: a possibilidade de um único problema provocar milhares de perdas simultâneas.

Kevin Kalinich, da corretora Aon, explicou ao Financial Times que o setor consegue absorver uma indenização de US$ 400 milhões ou US$ 500 milhões a uma empresa que sofreu prejuízo com uma IA — por exemplo, devido a preços errados de passagens ou a um diagnóstico médico incorreto.

O cenário muda quando uma falha de um fornecedor de IA afeta mil ou 10 mil clientes. Nesse caso, as perdas se acumulam e permanecem conectadas à mesma origem.

É essa concentração que torna o risco sistêmico tão difícil de administrar. E, depois do roubo bilionário da Binance, as seguradoras têm mais um motivo para examinar quanto de exposição compartilham entre seus clientes.

 

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