Por anos, o monitoramento de uma das populações de golfinhos mais estudadas do Brasil mostrou apenas pequenas oscilações naturais. Mas um levantamento recente revelou uma mudança sem precedentes, levando especialistas a investigar uma combinação de fatores que pode estar alterando profundamente o equilíbrio desse ecossistema. Enquanto as pesquisas avançam, novas evidências reforçam que a resposta dificilmente estará em uma única explicação.
Uma queda inédita interrompeu um padrão observado por mais de 20 anos

Entre 2004 e 2024, os registros de avistamentos apresentaram apenas variações consideradas naturais pelos pesquisadores. Esse comportamento relativamente estável, porém, foi quebrado em 2025, quando o monitoramento registrou o menor número de golfinhos observado desde o início da série histórica.
Para José Martins da Silva Junior, oceanógrafo e um dos fundadores do projeto de monitoramento, a redução provavelmente não está ligada a um único motivo. Segundo o pesquisador, as hipóteses mais consistentes apontam para uma combinação de fatores ambientais e humanos.
Entre eles estão os impactos das mudanças climáticas, o aumento da presença de predadores naturais — principalmente do tubarão-tigre — e a intensificação da atividade turística nas áreas tradicionalmente utilizadas pelos golfinhos.
Na avaliação dos cientistas, esses fatores não competem entre si. Pelo contrário: eles podem atuar simultaneamente, ampliando os efeitos sobre a população da espécie e tornando o cenário ainda mais complexo.
Crescimento do turismo também entrou no radar dos pesquisadores
Outro aspecto que chama a atenção dos especialistas é o aumento da pressão turística sobre Fernando de Noronha.
Em 2025, o Parque Nacional Marinho recebeu mais de 140 mil visitantes, o maior número registrado desde 2015. Em oito dos doze meses do ano, o fluxo ultrapassou o limite mensal de 11 mil turistas estabelecido em um acordo entre os governos federal e estadual.
Segundo Lilian Hangae, representante do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), esse crescimento exerce pressão sobre serviços essenciais da ilha, como o abastecimento de água e o sistema de esgotamento sanitário.
Na avaliação da especialista, a sobrecarga da infraestrutura pode aumentar o risco de contaminação ambiental, criando impactos indiretos sobre o ecossistema marinho.
Até a publicação da reportagem original, a administração de Fernando de Noronha não havia respondido aos pedidos de posicionamento sobre o aumento do número de visitantes e seus possíveis efeitos ambientais.
[Fonte: Folha]