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Ciência

Sonda japonesa perde seu último motor funcional — e engenheiros têm um plano engenhoso para salvá-la

A Hayabusa2 está em uma missão estendida para alcançar outro pequeno asteroide em 2031. Depois da falha de seu último motor operacional, engenheiros japoneses querem combinar peças funcionais de propulsores diferentes para mantê-la viajando pelo espaço.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A sonda japonesa Hayabusa2 já superou muitos desafios desde que deixou a Terra em 2014. Agora, porém, enfrenta um dos mais sérios: seu último motor de íons funcional apresentou uma falha, colocando em risco o encontro planejado com o asteroide 1998 KY26 em 2031.

A solução proposta pelos engenheiros da Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA) parece saída de uma oficina espacial improvisada. A equipe pretende combinar componentes ainda funcionais de dois motores diferentes para criar um sistema híbrido capaz de manter a nave em movimento.

A estratégia pode parecer arriscada, mas existe um precedente importante. A mesma técnica ajudou a salvar a primeira missão Hayabusa e permitiu que ela retornasse à Terra com amostras do asteroide Itokawa em 2010.

Uma viagem que já dura mais de uma década

A Hayabusa2 foi lançada em dezembro de 2014 com uma missão ambiciosa: coletar amostras do asteroide Ryugu.

A sonda chegou ao objeto em junho de 2018 e realizou uma das operações mais impressionantes de sua missão. Ela disparou um projétil contra a superfície do asteroide para criar artificialmente uma cratera e conseguir material localizado abaixo da camada superficial.

Depois de completar a coleta, a Hayabusa2 retornou às proximidades da Terra. Em 6 de dezembro de 2020, uma cápsula contendo as preciosas amostras de Ryugu pousou no interior da Austrália.

Mas a própria nave não encerrou sua viagem.

Pouco antes da entrega das amostras, a JAXA anunciou uma extensão da missão e escolheu um novo destino: o asteroide 1998 KY26.

Trata-se de um pequeno objeto próximo da Terra que gira extremamente rápido. Acredita-se ainda que ele contenha uma quantidade significativa de água. A Hayabusa2 deveria encontrá-lo em 2031, depois de passar muitos anos viajando pelo Sistema Solar.

O problema está nos quatro motores da Hayabusa2

Para se deslocar pelo espaço, a Hayabusa2 utiliza quatro motores de íons de xenônio por descarga de micro-ondas, identificados pelas letras A, B, C e D.

Cada um possui dois componentes fundamentais: uma fonte de íons e um neutralizador. Os dois precisam trabalhar juntos para produzir a propulsão necessária.

Com o passar dos anos, porém, três dos motores — A, C e D — apresentaram degradação ou falhas.

O motor B havia sido relativamente preservado durante a primeira parte da missão justamente para que pudesse ser utilizado na longa viagem até o segundo asteroide.

Mas, em meados de agosto, ele também apresentou problemas.

Uma análise posterior revelou que a fonte de íons do motor B havia falhado. Seu neutralizador, no entanto, continuava funcionando.

E é justamente essa diferença que abriu uma possibilidade para os engenheiros japoneses.

A ideia é construir um “motor híbrido” no espaço

Os motores C e D apresentam praticamente o problema oposto ao motor B.

Seus neutralizadores deixaram de funcionar corretamente, mas as fontes de íons continuam operacionais.

A JAXA pretende então reorganizar os circuitos da Hayabusa2 para conectar o neutralizador ainda funcional do motor B à fonte de íons saudável do motor D.

Na prática, os engenheiros tentariam criar um único propulsor funcional utilizando componentes de dois motores diferentes que, individualmente, já não conseguem operar normalmente.

A agência espacial japonesa planeja tentar reiniciar o sistema já no final de outubro.

Mesmo que a operação seja bem-sucedida, porém, ainda não existe garantia de que a Hayabusa2 conseguirá chegar ao asteroide 1998 KY26. Isso dependerá também do estado geral de deterioração da espaçonave depois de tantos anos no espaço.

A primeira Hayabusa já sobreviveu com a mesma solução

Se existe uma razão para acreditar que o plano pode funcionar, ela vem da própria história do programa espacial japonês.

Durante a missão da primeira Hayabusa ao asteroide Itokawa, diferentes fontes de íons e neutralizadores também apresentaram falhas.

Os engenheiros conseguiram então combinar componentes funcionais de propulsores diferentes para formar um motor híbrido.

A solução permitiu que a sonda continuasse sua viagem e retornasse à Terra em 2010 trazendo pequenas partículas coletadas no asteroide.

Agora, mais de 15 anos depois, a JAXA pretende recorrer novamente ao mesmo truque.

A Hayabusa2 já está operando muito além de sua missão original. Se os engenheiros conseguirem fazer com que peças de dois motores defeituosos funcionem como um só, a veterana sonda japonesa poderá ganhar mais alguns anos de vida — e ainda terá uma chance de chegar ao seu segundo asteroide em 2031.

 

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