A sonda japonesa Hayabusa2 já superou muitos desafios desde que deixou a Terra em 2014. Agora, porém, enfrenta um dos mais sérios: seu último motor de íons funcional apresentou uma falha, colocando em risco o encontro planejado com o asteroide 1998 KY26 em 2031.
A solução proposta pelos engenheiros da Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA) parece saída de uma oficina espacial improvisada. A equipe pretende combinar componentes ainda funcionais de dois motores diferentes para criar um sistema híbrido capaz de manter a nave em movimento.
A estratégia pode parecer arriscada, mas existe um precedente importante. A mesma técnica ajudou a salvar a primeira missão Hayabusa e permitiu que ela retornasse à Terra com amostras do asteroide Itokawa em 2010.
Uma viagem que já dura mais de uma década
A Hayabusa2 foi lançada em dezembro de 2014 com uma missão ambiciosa: coletar amostras do asteroide Ryugu.
A sonda chegou ao objeto em junho de 2018 e realizou uma das operações mais impressionantes de sua missão. Ela disparou um projétil contra a superfície do asteroide para criar artificialmente uma cratera e conseguir material localizado abaixo da camada superficial.
Depois de completar a coleta, a Hayabusa2 retornou às proximidades da Terra. Em 6 de dezembro de 2020, uma cápsula contendo as preciosas amostras de Ryugu pousou no interior da Austrália.
Mas a própria nave não encerrou sua viagem.
Pouco antes da entrega das amostras, a JAXA anunciou uma extensão da missão e escolheu um novo destino: o asteroide 1998 KY26.
Trata-se de um pequeno objeto próximo da Terra que gira extremamente rápido. Acredita-se ainda que ele contenha uma quantidade significativa de água. A Hayabusa2 deveria encontrá-lo em 2031, depois de passar muitos anos viajando pelo Sistema Solar.
O problema está nos quatro motores da Hayabusa2
Para se deslocar pelo espaço, a Hayabusa2 utiliza quatro motores de íons de xenônio por descarga de micro-ondas, identificados pelas letras A, B, C e D.
Cada um possui dois componentes fundamentais: uma fonte de íons e um neutralizador. Os dois precisam trabalhar juntos para produzir a propulsão necessária.
Com o passar dos anos, porém, três dos motores — A, C e D — apresentaram degradação ou falhas.
O motor B havia sido relativamente preservado durante a primeira parte da missão justamente para que pudesse ser utilizado na longa viagem até o segundo asteroide.
Mas, em meados de agosto, ele também apresentou problemas.
Uma análise posterior revelou que a fonte de íons do motor B havia falhado. Seu neutralizador, no entanto, continuava funcionando.
E é justamente essa diferença que abriu uma possibilidade para os engenheiros japoneses.
A ideia é construir um “motor híbrido” no espaço
Os motores C e D apresentam praticamente o problema oposto ao motor B.
Seus neutralizadores deixaram de funcionar corretamente, mas as fontes de íons continuam operacionais.
A JAXA pretende então reorganizar os circuitos da Hayabusa2 para conectar o neutralizador ainda funcional do motor B à fonte de íons saudável do motor D.
Na prática, os engenheiros tentariam criar um único propulsor funcional utilizando componentes de dois motores diferentes que, individualmente, já não conseguem operar normalmente.
A agência espacial japonesa planeja tentar reiniciar o sistema já no final de outubro.
Mesmo que a operação seja bem-sucedida, porém, ainda não existe garantia de que a Hayabusa2 conseguirá chegar ao asteroide 1998 KY26. Isso dependerá também do estado geral de deterioração da espaçonave depois de tantos anos no espaço.
A primeira Hayabusa já sobreviveu com a mesma solução
Se existe uma razão para acreditar que o plano pode funcionar, ela vem da própria história do programa espacial japonês.
Durante a missão da primeira Hayabusa ao asteroide Itokawa, diferentes fontes de íons e neutralizadores também apresentaram falhas.
Os engenheiros conseguiram então combinar componentes funcionais de propulsores diferentes para formar um motor híbrido.
A solução permitiu que a sonda continuasse sua viagem e retornasse à Terra em 2010 trazendo pequenas partículas coletadas no asteroide.
Agora, mais de 15 anos depois, a JAXA pretende recorrer novamente ao mesmo truque.
A Hayabusa2 já está operando muito além de sua missão original. Se os engenheiros conseguirem fazer com que peças de dois motores defeituosos funcionem como um só, a veterana sonda japonesa poderá ganhar mais alguns anos de vida — e ainda terá uma chance de chegar ao seu segundo asteroide em 2031.