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Ciência

Ter filhos deixou de ser uma decisão simples e uma pesquisa revela o que está pesando nessa escolha

Trabalho, dinheiro, moradia e projetos pessoais estão transformando os planos de muitas famílias. Uma nova pesquisa tenta descobrir o que realmente pesa nessa decisão.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Durante muito tempo, ter filhos foi tratado quase como uma etapa natural da vida adulta. Hoje, essa lógica está mudando. Para muitas pessoas, a decisão passou a depender de uma combinação complexa de estabilidade financeira, carreira, moradia, relacionamento e expectativas sobre o futuro. Uma ampla pesquisa quer entender justamente o que acontece entre o desejo de formar uma família e as condições necessárias para transformar esse plano em realidade.

Ter filhos agora divide espaço com muitos outros projetos

Ter filhos deixou de ser uma decisão simples e uma pesquisa revela o que está pesando nessa escolha
© Pexels

A decisão de ser mãe ou pai dificilmente depende de um único motivo. É justamente essa complexidade que uma pesquisa desenvolvida pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) em parceria com a VOICES! pretende investigar.

O levantamento, chamado Desejos reprodutivos na encruzilhada: motivações e barreiras para decidir em contextos de baixa natalidade, procura compreender por que algumas pessoas acabam tendo menos filhos do que imaginavam, enquanto outras preferem adiar ou abandonar completamente esse projeto.

O questionário é direcionado a pessoas entre 18 e 70 anos e aborda diferentes dimensões da vida cotidiana.

Entre elas estão composição familiar, quantidade de filhos, desejo de maternidade ou paternidade, expectativas para os próximos anos, emprego, renda, moradia e experiências relacionadas à fertilidade.

Um dos pontos mais interessantes é justamente aquilo que as pessoas acreditam precisar conquistar antes da chegada de uma criança.

Terminar os estudos, construir uma carreira, conseguir um emprego estável, alcançar segurança financeira, comprar uma casa, viajar, cuidar da saúde ou encontrar uma relação afetiva considerada sólida aparecem entre as possibilidades analisadas.

Isso mostra como a parentalidade passou a disputar espaço com outras etapas importantes do projeto de vida.

Dinheiro e moradia podem transformar completamente os planos

Ter filhos deixou de ser uma decisão simples e uma pesquisa revela o que está pesando nessa escolha
© Pexels

A situação econômica ocupa uma posição central na pesquisa. Não apenas a renda disponível, mas também a previsibilidade financeira parece fazer diferença quando alguém pensa em aumentar a família.

Desemprego, instabilidade profissional e custos relacionados à criação dos filhos aparecem como potenciais obstáculos.

A moradia também entra nessa equação.

O levantamento considera desde a falta de espaço suficiente até o preço de compra ou aluguel de um imóvel. A ideia é entender quanto a possibilidade de oferecer determinada estrutura material influencia a decisão.

Mas existe outra questão igualmente importante: o impacto da chegada de uma criança sobre a carreira.

Os participantes são questionados sobre a dificuldade de conciliar emprego remunerado e criação dos filhos, além da possibilidade de maternidade ou paternidade interferirem no desenvolvimento profissional.

A divisão das responsabilidades dentro de casa também ganha destaque.

Quem cozinha? Quem leva a criança à escola? Quem acompanha consultas médicas? Quem ajuda nas tarefas escolares, dá banho, coloca para dormir ou organiza atividades fora da escola?

A pesquisa procura entender se a expectativa de uma distribuição desigual dessas responsabilidades pode fazer alguém reconsiderar seus planos.

Isso ajuda a explicar por que olhar apenas para o número de nascimentos oferece uma fotografia incompleta. Entre desejar um filho e decidir tê-lo existe uma longa lista de condições práticas.

Nem sempre querer filhos significa conseguir ter a família planejada

O levantamento também investiga situações em que uma pessoa desejava determinado número de filhos, mas terminou construindo uma família menor.

Além das limitações financeiras e habitacionais, aparecem fatores como ausência de um parceiro considerado adequado, divergências dentro do relacionamento e pouca participação do companheiro ou companheira nas tarefas domésticas e de cuidado.

A disponibilidade de serviços para cuidar das crianças também entra nessa conta.

Outro elemento importante é a fertilidade. Os participantes respondem se já tentaram engravidar durante pelo menos 12 meses sem sucesso, se recorreram a tratamentos ou se gostariam de ter tido acesso a algum procedimento, mas não conseguiram.

A saúde física e emocional também pode alterar os planos.

Doenças crônicas, complicações relacionadas à gestação ou ao parto, problemas gerais de saúde e questões ligadas ao bem-estar emocional aparecem como possíveis barreiras.

A idade é outro fator analisado. Adiar o primeiro filho pode reduzir posteriormente o tempo disponível para alcançar o tamanho de família inicialmente desejado.

Por isso, a pesquisa também pergunta sobre os planos para os próximos três anos, diferenciando quem pretende ter um filho, quem não deseja e quem ainda está em dúvida.

Há também quem simplesmente não queira seguir esse caminho

Nem todas as respostas estão relacionadas a obstáculos econômicos ou biológicos. Para algumas pessoas, não ter filhos é uma escolha.

O questionário investiga motivos como priorizar outros objetivos, considerar que criar uma criança exige muito tempo e energia ou não desejar passar por gravidez e parto.

Também entram na lista preocupações sobre o mundo no qual uma criança cresceria.

Guerras, pandemias, criminalidade, mudanças climáticas e degradação ambiental são apresentadas como fatores capazes de influenciar decisões sobre maternidade e paternidade.

Ao mesmo tempo, o conceito tradicional de família está se tornando mais amplo.

O estudo investiga opiniões sobre ter filhos sem um relacionamento estável, convivência sem casamento, divórcio entre casais com crianças e diferentes configurações familiares, incluindo famílias formadas por pessoas do mesmo sexo.

Mais do que contabilizar quem deseja ou não ter filhos, portanto, a pesquisa procura entender como a própria ideia de família está mudando.

A queda da natalidade esconde uma transformação muito maior

A discussão sobre natalidade frequentemente se concentra em números: quantas crianças nasceram, quanto a taxa caiu e quais serão as consequências para a população.

Mas esses indicadores mostram apenas o resultado final.

Por trás deles existem decisões individuais influenciadas por trabalho, renda, moradia, relacionamentos, saúde, fertilidade, divisão dos cuidados e expectativas sobre o futuro.

É justamente essa distância entre desejar uma família e considerar possível construí-la que estudos desse tipo tentam compreender.

A pesquisa também aborda tarefas domésticas e cuidados com adultos mais velhos, ampliando a análise para responsabilidades que podem competir pelo tempo disponível dentro das famílias.

As respostas são confidenciais e o questionário leva aproximadamente 15 minutos para ser concluído.

Em um cenário de queda dos nascimentos observado em diferentes partes do mundo, compreender essas motivações pode ser tão importante quanto acompanhar as estatísticas.

Afinal, talvez a pergunta mais relevante já não seja simplesmente por que as pessoas estão tendo menos filhos. A questão pode ser outra: o que precisa acontecer para que quem deseja ter filhos considere possível realizar esse projeto?

[Fonte: El Litoral]

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