O petróleo voltou a ocupar o centro da relação entre Estados Unidos e Venezuela, mas desta vez em uma escala difícil de ignorar. Donald Trump anunciou uma operação que classificou como a maior já realizada no setor e que promete ampliar de forma extraordinária o acesso americano ao recurso. Do outro lado, Caracas espera investimentos bilionários para recuperar uma indústria que já foi muito mais poderosa do que é atualmente.
O anúncio de Trump coloca 65 bilhões de barris em jogo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que seu governo chegou a um acordo petrolífero com a Venezuela que prevê o controle majoritário americano sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo.
Trump classificou a negociação como o “maior acordo petrolífero da história mundial” e afirmou que a quantidade envolvida seria suficiente para mais que duplicar as reservas petrolíferas americanas.
A dimensão fica mais clara quando os números são colocados lado a lado. A Venezuela possui aproximadamente 303 bilhões de barris em reservas comprovadas, uma das maiores concentrações conhecidas do planeta. Portanto, os 65 bilhões envolvidos na nova operação representam mais de 20% desse gigantesco patrimônio energético.
Segundo informações divulgadas pelas duas partes, a operação será realizada em associação com empresas privadas, sem custos diretos para os contribuintes dos Estados Unidos.
Trump atribuiu as negociações ao secretário de Estado, Marco Rubio, e ao secretário de Guerra, Pete Hegseth, que trabalharam com a presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez.
Mas a quantidade de petróleo é apenas uma parte da história. O acordo também revela como Washington pretende transformar reservas subterrâneas em uma operação comercial gigantesca.
Dezessete campos e mais de US$ 100 bilhões em investimentos

Delcy Rodríguez confirmou a negociação e forneceu detalhes adicionais sobre sua dimensão.
O plano prevê o desenvolvimento de 17 campos petrolíferos estratégicos na Venezuela, que concentram o potencial comprovado de aproximadamente 65 bilhões de barris incluídos na operação.
Para colocar esses recursos em produção, serão necessários investimentos superiores a US$ 100 bilhões, provenientes principalmente do setor privado.
Caracas calcula que a exploração desses campos poderá gerar mais de US$ 209 bilhões em tributos para o Estado venezuelano.
O dinheiro é particularmente importante porque a indústria petrolífera do país está longe de viver seus melhores dias.
A Venezuela produz atualmente cerca de 1,25 milhão de barris por dia, muito abaixo dos mais de 3 milhões de barris diários registrados há pouco mais de duas décadas. Anos de falta de investimentos, deterioração de equipamentos, sanções e instabilidade política deixaram marcas profundas em refinarias, oleodutos, campos e outras estruturas.
Por isso, o verdadeiro desafio começa depois do anúncio.
Ter algumas das maiores reservas do planeta não significa conseguir retirar todo esse petróleo do solo rapidamente. Recuperar a capacidade produtiva venezuelana exigirá tecnologia, capital e anos de trabalho.
O acordo também mira diretamente o preço da gasolina
Para Trump, os benefícios não ficariam restritos à segurança energética americana.
O presidente argumenta que ampliar o acesso ao petróleo venezuelano aumentará significativamente a oferta disponível aos Estados Unidos e poderá contribuir para uma redução substancial dos preços da gasolina no longo prazo.
A promessa ganha peso em um momento de pressão sobre os combustíveis americanos, especialmente diante das turbulências provocadas por conflitos internacionais e incertezas sobre a oferta global.
O petróleo venezuelano também possui características importantes para o mercado americano. Grande parte das reservas é formada por petróleo pesado, justamente um tipo de cru que diversas refinarias dos Estados Unidos estão preparadas para processar.
Empresas como a Chevron já possuem experiência de operação no país e aparecem entre os nomes associados à nova fase do setor. Outras grandes companhias podem participar caso as condições econômicas e jurídicas sejam consideradas suficientemente atraentes.
O efeito sobre os preços, entretanto, dificilmente será imediato.
Mesmo que bilhões de dólares comecem a chegar rapidamente, aumentar a produção exige recuperar poços, construir ou reparar infraestrutura, contratar trabalhadores e resolver gargalos acumulados durante anos.
O petróleo aproxima dois países depois de uma ruptura histórica
O acordo também simboliza uma transformação impressionante nas relações entre Washington e Caracas.
Quando Nicolás Maduro foi capturado por forças americanas em janeiro de 2026, Trump já havia antecipado que pretendia levar grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos de volta à Venezuela.
Desde então, a administração interina liderada por Delcy Rodríguez iniciou uma aproximação com Washington, enquanto o petróleo se tornou uma das principais pontes entre os dois governos.
Agora, essa estratégia começa a assumir uma forma concreta.
Ainda faltam detalhes importantes sobre como será exercido exatamente o chamado “controle majoritário” americano, quais companhias participarão de cada campo, como serão distribuídos os lucros e qual será o cronograma para recuperar a produção.
Essas respostas serão decisivas para determinar se o anúncio realmente produzirá a transformação prometida.
Por enquanto, uma coisa está clara: 65 bilhões de barris, 17 campos estratégicos e mais de US$ 100 bilhões em investimentos colocaram a Venezuela novamente no centro do mapa energético mundial. E, desta vez, Washington pretende ocupar uma posição privilegiada nessa história.
[Fonte: Ambito]