A reunião entre Trump e Putin em Anchorage foi cercada de expectativa e simbolismo. Pela primeira vez em dez anos, o presidente russo pisou em solo americano para discutir um possível acordo de paz. O palco escolhido — uma base aérea no Alasca — reforçou a mensagem de poder de Washington, mas o encontro terminou sem anúncios concretos. Apenas promessas vagas, declarações cuidadosamente calculadas e um convite para a próxima rodada em Moscou.
O encontro em solo militar

Trump recebeu Putin na Base Conjunta Elmendorf-Richardson com um gesto carregado de simbolismo: um sobrevoo de bombardeiros furtivos B-2, os mesmos usados meses antes em ataques contra instalações nucleares iranianas. A demonstração militar serviu como lembrete da força dos EUA e como recado indireto à Rússia.
Durante a primeira parte da cúpula, o formato foi restrito: três representantes de cada lado. Do lado americano, além de Trump, participaram Marco Rubio e o empresário Steve Witkoff. Do lado russo, estiveram presentes o chanceler Sergei Lavrov e o conselheiro Yuri Ushakov.
A conversa se estendeu por mais de três horas. Trump a classificou como uma reunião de “alto risco” e, embora tenha falado em produtividade, evitou dar detalhes sobre um possível cessar-fogo.
As palavras calculadas de Trump
Trump tentou adotar a postura de mediador. Declarou que as falas de Putin foram “muito profundas” e prometeu atualizar seus aliados da OTAN e o presidente ucraniano Volodímir Zelenski. No entanto, rapidamente desviou o foco para outro ponto: um encontro com “tremendos representantes empresariais russos”.
O republicano afirmou que houve avanços, mas admitiu que não se chegou a um acordo. Sua frase final — “Nos vemos muito em breve, Vladímir” — foi respondida em inglês por Putin: “Very soon in Moscow”. Uma troca que soou mais como preparação para a próxima reunião do que como resultado concreto.
A retórica de Putin

Enquanto isso, Putin manteve sua narrativa habitual sobre a guerra. Chamou os ucranianos de “nação irmã” e descreveu o conflito como “uma tragédia”, ao mesmo tempo em que reforçava justificativas já desgastadas para a invasão de fevereiro de 2022.
Em uma aparente tentativa de sinalizar flexibilidade, disse que “a segurança da Ucrânia deve ser garantida” e que Moscou estaria pronto para trabalhar nesse ponto — sem explicar como.
Do outro lado do Atlântico, sirenes de alerta aéreo soavam em cidades ucranianas durante o encontro no Alasca, lembrando a distância entre palavras diplomáticas e a realidade no campo de batalha.
O que ficou nas entrelinhas
Mais do que o cessar-fogo, o encontro parece ter incluído discussões econômicas. Ao citar empresários russos, Trump deixou implícito que interesses comerciais fizeram parte da pauta. Para Putin, abrir espaço para negociações bilaterais com os EUA pode ser uma forma de enfraquecer a frente unida da Europa e da OTAN em apoio a Kiev.
O presidente russo também acusou líderes europeus e governos anteriores de Washington de “torpedear” qualquer tentativa de acordo, numa estratégia para se colocar como vítima do cenário diplomático.
O balanço da cúpula
O “aperto de mãos do Alasca” foi mais performático do que efetivo. Não houve anúncio de cessar-fogo nem planos claros de paz. Ainda assim, o simples fato de Trump e Putin se reunirem já altera a dinâmica da guerra: reabre canais diretos entre Washington e Moscou e lança dúvidas sobre o papel da Ucrânia nas negociações.
Para Kiev e para as capitais europeias, a cena foi desconfortável: dois líderes antigos conhecidos discutindo o destino da guerra sem a presença de Zelenski. O próximo encontro, agora prometido para Moscou, pode definir se o diálogo avança ou se fica apenas como espetáculo geopolítico.
[ Fonte: Euronews ]