A União Europeia quer mudar uma regra que vigora há décadas. Como parte do pacote legislativo Omnibus X, o bloco pretende flexibilizar a proibição da pulverização aérea de pesticidas e permitir que drones sejam usados para aplicar esses produtos de maneira mais precisa.
Na teoria, a proposta parece vantajosa. Em vez de tratores espalharem grandes quantidades de pesticidas por uma plantação inteira, drones poderiam identificar áreas afetadas e aplicar herbicidas, fungicidas ou inseticidas somente onde fossem necessários.
A medida poderia ajudar a diminuir o consumo desses produtos. No entanto, pesquisadores alertam que permitir drones não significa automaticamente reduzir o uso de pesticidas.
Drones podem tornar a pulverização mais precisa

Drones agrícolas conseguem sobrevoar uma plantação, analisar diferentes áreas e identificar pontos atingidos por pragas ou doenças. Depois, podem realizar aplicações direcionadas nesses locais.
Thomas Daum, economista agrícola e ecólogo humano da Escola de Estudos Globais da Universidade de Gotemburgo, considera importante diferenciar essa tecnologia da pulverização aérea tradicional.
Segundo ele, os drones oferecem vantagens principalmente em solos úmidos e terrenos de difícil acesso. Além disso, permitem uma resposta mais rápida diante de problemas nas plantações.
Existe, porém, um possível efeito contrário. Como os drones facilitam o tratamento das lavouras, agricultores também poderiam acabar pulverizando pesticidas com maior frequência.
Omnibus X promete reduzir burocracia e custos
Para muitos cientistas, a principal preocupação não está nos drones, mas nas outras mudanças propostas pelo Omnibus X.
O pacote pretende reformular parte do sistema europeu de aprovação de pesticidas. Quando o Conselho Europeu aprovou a proposta, em maio de 2026, pesquisadores de 27 instituições europeias manifestaram fortes críticas.
Carsten Brühl, biólogo do Instituto de Ciências Ambientais da Universidade Técnica de Kaiserslautern-Landau (RPTU), classificou a proposta como um “pacote de desregulamentação”.
Atualmente, a União Europeia aprova princípios ativos de pesticidas por períodos de dez anos. Depois disso, fabricantes precisam solicitar uma renovação e apresentar novos dados sobre a segurança das substâncias.
Desde 2011, esse processo fez com que 59 substâncias ativas deixassem de receber autorização para comercialização devido a possíveis riscos para a saúde humana ou para o meio ambiente.
A UE argumenta que o Omnibus X pretende diminuir custos administrativos, simplificar procedimentos e garantir condições mais equilibradas para as empresas.
Cientistas temem pesticidas aprovados por tempo indeterminado
Uma das principais críticas é que determinadas substâncias poderiam receber aprovação por tempo indeterminado, eliminando algumas reavaliações periódicas.
Além disso, o período de transição depois do fim de uma autorização poderia aumentar dos atuais 18 meses para três anos.
Brühl considera essa possibilidade preocupante. Na prática, substâncias suspeitas de representar riscos poderiam permanecer disponíveis por mais tempo.
O problema é que os conhecimentos científicos sobre pesticidas continuam incompletos. Quando uma substância recebe aprovação, nem sempre é possível prever seus efeitos depois de muitos anos, sob diferentes condições ambientais ou quando combinada com outros produtos.
Por isso, pesquisadores defendem que as reavaliações periódicas continuem sendo obrigatórias.
Agricultura pode reduzir pesticidas sem depender de drones

Existe ainda outra estratégia: o manejo integrado de pragas. O conceito, incorporado à legislação alemã em 2012, estabelece que pesticidas sintéticos devem ser utilizados somente como último recurso.
A abordagem combina diferentes métodos para proteger as plantações sem depender exclusivamente de produtos químicos.
Entre as possibilidades estão a rotação de culturas, plantações mistas, remoção mecânica de ervas daninhas e criação de faixas de flores ou cercas vivas capazes de atrair predadores naturais das pragas.
O desafio é econômico. Pulverizar pesticidas costuma ser uma solução rápida e relativamente barata.
Por outro lado, monoculturas e ecossistemas agrícolas profundamente alterados pelo uso desses produtos podem se tornar mais vulneráveis às mudanças ambientais.
Para Brühl, essa fragilidade também representa uma ameaça à segurança alimentar. Com as mudanças climáticas alterando temperaturas, chuvas e padrões de pragas, sistemas agrícolas menos diversos podem ter maior dificuldade para enfrentar condições cada vez mais imprevisíveis.
Os drones podem tornar a aplicação de pesticidas mais inteligente. Mas, para os pesquisadores, a tecnologia sozinha não resolverá o problema se as regras de controle sobre essas substâncias forem enfraquecidas.
[ Fonte: DW ]