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Ciência

Um túnel entre Argentina e Chile pode esconder um dos projetos científicos mais curiosos da América do Sul

Enquanto uma gigantesca obra de engenharia avança sob os Andes, cientistas planejam aproveitar seu ponto mais profundo para investigar alguns dos maiores mistérios do Universo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Existe um lugar onde a melhor maneira de observar fenômenos vindos do espaço é se afastar dele. Bem abaixo da Cordilheira dos Andes, uma obra que pretende aproximar Argentina e Chile pode ganhar uma função científica inesperada. Em meio a toneladas de rocha, pesquisadores querem criar um ambiente praticamente isolado da radiação que atinge constantemente a superfície. O objetivo envolve partículas que atravessam o planeta e uma matéria que ninguém consegue enxergar diretamente.

Por que os cientistas querem descer tanto

O projeto se chama Laboratório Subterrâneo ANDES, sigla de Agua Negra Deep Experiment Site. A ideia é instalar o complexo no ponto de maior profundidade do futuro túnel binacional de Agua Negra, uma conexão planejada entre a província argentina de San Juan e a região chilena de Coquimbo.

Nesse trecho, os pesquisadores esperam contar com mais de 1.750 metros de rocha acima do laboratório.

Essa camada gigantesca funciona como um escudo natural. Para entender por quê, é preciso olhar para o espaço.

A Terra é constantemente atingida por raios cósmicos, partículas extremamente energéticas produzidas por fenômenos como atividade solar e eventos astrofísicos violentos. Quando essas partículas atingem a atmosfera, geram cascatas de partículas secundárias que chegam à superfície.

Para experimentos que procuram sinais extremamente raros, isso representa um enorme problema. O detector pode registrar a passagem de partículas que não têm nenhuma relação com o fenômeno procurado.

Quanto mais fundo se desce, porém, maior é a quantidade de rocha disponível para bloquear essa interferência.

É justamente essa característica que torna ANDES tão interessante. O laboratório não precisaria construir uma proteção artificial gigantesca: a própria Cordilheira dos Andes forneceria parte do isolamento necessário.

Se for concluído, o projeto também teria um significado especial para a ciência regional. Existem apenas cerca de uma dúzia de grandes laboratórios subterrâneos profundos desse tipo em operação no mundo, e os principais estão no hemisfério norte.

ANDES seria uma exceção importante.

O alvo está entre os maiores mistérios da física

O principal objetivo é investigar matéria escura e neutrinos.

A matéria escura é especialmente intrigante porque, embora não possa ser observada diretamente por meio da luz, seus efeitos gravitacionais indicam que ela está presente em enorme quantidade no Universo. As estimativas atuais sugerem que ela representa aproximadamente 85% da matéria existente.

Mas ainda não sabemos exatamente do que ela é feita.

Um laboratório protegido da radiação cósmica poderia procurar sinais extremamente discretos de possíveis partículas associadas à matéria escura. A expectativa não é simplesmente encontrar uma resposta pronta, mas testar hipóteses que podem ajudar a revelar a natureza desse componente invisível do cosmos.

Os neutrinos são outro alvo importante.

Essas partículas subatômicas atravessam a Terra continuamente e interagem muito pouco com a matéria. Justamente por isso, são extremamente difíceis de detectar. Ao mesmo tempo, carregam informações valiosas sobre fenômenos como o funcionamento do Sol e explosões estelares.

O projeto prevê três grandes cavernas, totalizando cerca de 4.000 metros quadrados de área e aproximadamente 60 mil metros cúbicos de volume útil.

E a ciência não terminaria na física de partículas.

O ambiente de baixíssima radiação também poderia ser aproveitado em estudos de geofísica, sismologia, biologia subterrânea e outras áreas que se beneficiam de condições extremamente controladas.

A ideia, portanto, é construir muito mais do que uma sala com detectores escondida sob uma montanha.

Uma obra que avança em um ritmo bem diferente da ciência

O ANDES não surgiu recentemente. O projeto vem sendo desenvolvido há mais de uma década pelo Consórcio Latino-Americano de Experimentos Subterrâneos, com participação de pesquisadores da Argentina, Chile, Brasil e México e apoio parcial do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Mas existe uma diferença importante entre imaginar um laboratório subterrâneo e efetivamente escavar a estrutura necessária para instalá-lo.

O túnel de Agua Negra é, antes de tudo, uma obra de infraestrutura viária destinada a conectar os dois países e integrar o Corredor Bioceânico Central. O laboratório aproveitaria seu trecho mais profundo como localização científica ideal.

O cronograma, entretanto, sofreu atrasos, mudanças e reformulações ao longo dos anos. Por isso, é preciso ter cuidado com previsões antigas sobre quando o túnel ou o laboratório estarão efetivamente prontos.

A ambição científica continua sendo considerável.

O físico argentino Xavier Bertou, um dos coordenadores do projeto, já descreveu ANDES como um laboratório internacional aberto, com uma proposta que lembra, em espírito, o CERN europeu — embora em uma escala muito menor e com foco específico nas necessidades científicas da América do Sul.

Se a instalação finalmente sair do papel, o resultado será curioso: uma infraestrutura construída originalmente para aproximar dois países poderá também abrir uma janela para algumas das perguntas mais difíceis da física moderna.

E, nesse caso, a resposta pode estar justamente 1.750 metros abaixo da superfície.

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