Pular para o conteúdo
Ciência

Jovens envelhecem mais rápido, mas vivem mais: o paradoxo que a genética ajuda a explicar

Pesquisas encontram mais sinais de envelhecimento biológico nas novas gerações, apesar do aumento da longevidade. A explicação passa por hábitos modernos, medicina e uma diferença fundamental.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Viver mais deveria significar envelhecer melhor, certo? A ciência está descobrindo que essa relação pode ser muito mais complicada. Estudos recentes encontraram sinais de envelhecimento biológico mais acentuados entre gerações jovens do que aqueles observados anteriormente. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida continua muito superior à de décadas atrás. Parece uma contradição, mas a genética e os avanços da medicina ajudam a explicar por que as duas coisas podem acontecer simultaneamente.

O calendário diz uma idade, mas nosso organismo pode contar outra história

Jovens envelhecem mais rápido, mas vivem mais: o paradoxo que a genética ajuda a explicar
© Pexels

Para compreender o fenômeno, primeiro é necessário separar dois conceitos que parecem semelhantes: idade cronológica e idade biológica.

A primeira é simples. Representa quantos anos se passaram desde o nascimento. Já a segunda procura refletir o estado do organismo e como diferentes processos associados ao envelhecimento estão avançando.

Essa distinção ganhou importância depois que pesquisas identificaram mais sinais de envelhecimento entre integrantes de gerações recentes. Segundo Amparo Tolosa, diretora científica da Genotipia e especialista em genética, isso não significa que todo jovem esteja biologicamente mais velho do que indica sua certidão de nascimento.

O que os dados sugerem é algo mais sutil: as gerações jovens apresentam mais sinais associados ao envelhecimento do que aqueles encontrados em gerações anteriores quando comparadas em contextos semelhantes.

E ainda não existe um único culpado.

A pesquisa citada é observacional, portanto não permite estabelecer diretamente uma causa. Os cientistas, contudo, encontram uma lista bastante familiar de suspeitos: obesidade, alterações metabólicas, sedentarismo, alimentação pouco saudável, falta de sono, estresse crônico e exposição a contaminantes.

Em outras palavras, algumas comodidades da vida moderna podem estar cobrando uma conta silenciosa dentro do organismo.

Temos coisas que nossos avós nunca tiveram, para o bem e para o mal

Jovens envelhecem mais rápido, mas vivem mais: o paradoxo que a genética ajuda a explicar
© Pexels

A comparação entre gerações revela um paradoxo fascinante.

Jovens de hoje estão expostos desde muito cedo a condições que não atingiam seus pais e avós com a mesma intensidade. Passamos mais horas sentados, consumimos mais produtos ultraprocessados e convivemos com problemas relacionados à obesidade, privação de sono, poluição e estresse constante.

Mas existe o outro lado da equação.

Nunca tivemos acesso a tantos recursos capazes de impedir que doenças terminem prematuramente uma vida. Vacinas, antibióticos, saneamento, diagnósticos precoces e tratamentos modernos contra problemas cardiovasculares, infecções e diferentes tipos de câncer aumentaram enormemente nossas possibilidades de sobrevivência.

É por isso que alguém pode, em determinados aspectos, apresentar sinais biológicos menos favoráveis e ainda assim ter uma expectativa de vida superior à de seus antepassados.

A medicina consegue evitar ou adiar mortes que décadas atrás seriam muito mais difíceis de impedir.

Isso explica uma parte do aparente mistério: viver mais tempo e envelhecer biologicamente mais rápido não são necessariamente fenômenos incompatíveis.

A questão realmente importante passa a ser outra. Não basta perguntar quantos anos estamos acrescentando à vida, mas em que condições chegaremos a eles.

Viver até mais tarde não significa necessariamente viver bem por mais tempo

A expectativa de vida mede aproximadamente quantos anos uma população pode esperar viver. Ela não revela, sozinha, como serão essas décadas adicionais.

É aí que surge outro conceito: a expectativa de vida saudável.

Segundo Tolosa, os avanços médicos reduziram muitas mortes prematuras e permitem controlar doenças que antes eram fatais. Porém, não conseguem eliminar automaticamente alterações metabólicas e enfermidades associadas ao sedentarismo, ao estresse crônico e a outros elementos do estilo de vida contemporâneo.

O resultado é que a expectativa de vida saudável não cresce necessariamente na mesma velocidade que a longevidade total.

Podemos acrescentar anos à existência sem acrescentar a mesma quantidade de anos com plena autonomia e boa saúde.

Essa diferença ajuda a mudar o foco das pesquisas sobre envelhecimento. O grande objetivo deixa de ser simplesmente fazer uma pessoa alcançar uma idade extraordinariamente elevada. A ambição é prolongar o período em que ela permanece saudável, independente e funcional.

E nesse ponto existe uma notícia particularmente interessante: parte da velocidade com que envelhecemos pode ser influenciada por nossas escolhas.

A estratégia mais poderosa continua sendo surpreendentemente simples

Não existe, até agora, uma pílula comprovada capaz de interromper o envelhecimento de pessoas saudáveis. Tampouco há um único hábito que consiga neutralizar sozinho todos os fatores envolvidos.

A estratégia mais consistente é bem menos espetacular.

Atividade física regular, incluindo exercícios aeróbicos e de força, alimentação equilibrada, sono adequado, manutenção de um peso saudável e abandono do tabagismo aparecem entre as medidas recomendadas. Controlar glicose e pressão arterial também faz parte desse conjunto.

Mas a lista não termina no corpo.

Preservar relações sociais, cuidar da saúde mental e manter atividade cognitiva também são elementos importantes. Exames preventivos e acompanhamento médico adequado ajudam a identificar problemas antes que avancem silenciosamente.

Tolosa destaca especialmente três pilares quando é necessário simplificar as recomendações: exercício, sono e alimentação adequada. As orientações podem ser personalizadas de acordo com cada indivíduo, mas a especialista alerta para a desconfiança diante de promessas milagrosas de rejuvenescimento.

No fim, o paradoxo das novas gerações revela uma transformação curiosa.

A medicina se tornou extraordinariamente eficiente em impedir que morramos cedo. Nosso estilo de vida, porém, nem sempre evoluiu na mesma direção.

Talvez a próxima grande conquista da longevidade não seja descobrir simplesmente como viver até os 100 anos. Será descobrir como fazer com que o corpo também chegue bem até lá.

[Fonte: Telecinco]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados