Os glaciares dos Alpes sempre funcionaram como gigantescos reservatórios naturais de água, protegidos durante meses por uma espessa camada de neve acumulada no inverno. Mas, neste ano, essa defesa desapareceu muito antes do previsto. O que parecia uma exceção passou a ser tratado pelos cientistas como mais um forte indício de que as mudanças climáticas estão alterando rapidamente o equilíbrio das regiões de alta montanha.
O calor extremo antecipou um fenômeno que costuma acontecer apenas em agosto

As sucessivas ondas de calor que atingiram a Europa nos últimos meses provocaram uma situação considerada extraordinária pelos pesquisadores: os glaciares da Suíça perderam toda a neve acumulada durante o inverno cerca de dois meses antes do normal.
Isso significa que o chamado reservatório sazonal, responsável por proteger o gelo antigo da radiação solar durante boa parte do verão, já desapareceu completamente no início da estação mais quente do ano.
Segundo a Rede Suíça de Monitoramento de Glaciares, a cobertura de neve que normalmente permanece sobre as geleiras até meados de agosto foi consumida de forma antecipada, deixando o gelo exposto justamente quando ainda restam as semanas de temperaturas mais elevadas.
Para a Academia Suíça de Ciências, esse descompasso representa um dos sinais mais preocupantes observados recentemente nos Alpes. Sem a camada branca de neve refletindo parte da luz solar, o gelo passa a absorver muito mais calor, acelerando o derretimento e reduzindo rapidamente o volume das geleiras.
Os pesquisadores alertam que esse processo compromete não apenas a preservação dos glaciares, mas também a disponibilidade futura de água para diversas regiões que dependem do degelo gradual durante o verão.
O glaciologista Matthias Huss, diretor da Rede Suíça de Monitoramento de Glaciares, afirmou que a situação está muito distante do considerado saudável para esses ecossistemas.
Segundo ele, os glaciares vivem um cenário equivalente a cerca de três meses de antecipação em relação ao comportamento esperado. A neve acumulada durante todo o inverno desapareceu em um ritmo extremamente acelerado, deixando exposto um gelo que deveria permanecer protegido por muito mais tempo.
O que é o “Glacier Loss Day” e por que ele preocupa tanto
Os cientistas utilizam um indicador conhecido como “Glacier Loss Day” para acompanhar a saúde das geleiras. A data marca o momento em que toda a neve acumulada no inverno deixa de existir, encerrando a fase de proteção natural do gelo.
Até esse dia, a neve funciona como um verdadeiro escudo. Sua superfície clara reflete grande parte da radiação solar e reduz significativamente o aquecimento das massas de gelo localizadas abaixo dela.
Quando essa camada desaparece, o cenário muda completamente. O gelo antigo, naturalmente mais escuro, absorve muito mais energia do Sol, iniciando um processo de derretimento acelerado que dificilmente será compensado antes da chegada do próximo inverno.
Historicamente, esse marco costumava ocorrer apenas na segunda metade de agosto. Neste ano, porém, ele chegou muito antes do esperado, refletindo uma combinação de fatores climáticos cada vez mais frequentes.
Entre eles está a redução das precipitações de neve durante o inverno. Em comparação com a média da última década, algumas regiões registraram déficits entre 13% e 25%, diminuindo significativamente o volume da camada protetora formada nos meses frios.
Ao mesmo tempo, ondas de calor excepcionalmente intensas atingiram boa parte da Europa. Em diversos locais, as temperaturas ultrapassaram os 40 °C, enquanto a chamada isoterma de zero grau — altitude em que a temperatura permanece em 0 °C — alcançou níveis recordes nos Alpes suíços, acelerando ainda mais o desaparecimento da neve.
O gelo dos Alpes encolhe em ritmo recorde e o futuro preocupa
Os impactos desse processo já são visíveis em diversas geleiras consideradas símbolos da paisagem alpina.
De acordo com a Academia Suíça de Ciências, os glaciares suíços perderam aproximadamente um quarto de todo o seu volume em apenas dez anos. Nesse mesmo período, mais de mil pequenas geleiras desapareceram completamente.
Caso o aquecimento global mantenha o ritmo atual, os especialistas projetam que, até o final deste século, restarão apenas pequenas áreas de gelo permanente nas montanhas mais altas da Suíça.
As expedições científicas realizadas em glaciares emblemáticos, como o do Ródano, o Aletsch — o maior dos Alpes — e o Claridenfirn, registraram perdas impressionantes de espessura.
Em alguns pontos, o gelo diminuiu até um metro na vertical em apenas dez dias, uma velocidade considerada inédita pelos pesquisadores.
Para a comunidade científica, esses números mostram que o desaparecimento precoce da neve não representa apenas um evento isolado provocado por um verão excepcionalmente quente. Trata-se de um indicador claro de que os glaciares europeus estão entrando em uma fase de perda acelerada, com consequências que podem afetar desde os ecossistemas de montanha até o abastecimento de água de milhões de pessoas nas próximas décadas.
[Fonte: Perfil]