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Ciência

Um novo estudo desafia tudo o que se acreditava sobre maternidade e envelhecimento em cães

Um estudo com cães de idade excepcional revelou uma diferença inesperada entre dois grupos de fêmeas. Os resultados desafiam antigas teorias e levantam novas perguntas sobre saúde e longevidade.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante muito tempo, cientistas acreditaram que a reprodução representava um grande desgaste para o organismo das fêmeas. Afinal, gestação, parto e amamentação exigem enorme gasto de energia e poderiam acelerar o envelhecimento. No entanto, uma nova pesquisa acaba de apresentar resultados que vão na direção oposta. A descoberta não muda as recomendações para os tutores, mas pode ajudar a compreender melhor como alguns mecanismos biológicos influenciam a longevidade.

Pesquisadores analisaram cadelas que viveram muito além da expectativa para a raça

O estudo, publicado na revista científica The Journals of Gerontology: Series A, acompanhou 95 fêmeas da raça rottweiler que alcançaram pelo menos 13 anos de idade — um marco considerado cerca de 30% superior à expectativa média de vida da raça.

Todos os animais faziam parte do projeto Exceptional Aging in Rottweilers Study, iniciativa criada para investigar por que alguns cães conseguem envelhecer mantendo boas condições de saúde por muito mais tempo do que o esperado.

Para avaliar o estado físico das cadelas, os pesquisadores utilizaram um índice clínico de fragilidade composto por 34 indicadores diferentes. O método considera fatores como mobilidade, presença de doenças, alterações físicas relacionadas à idade e capacidade do organismo de responder a situações de estresse.

As cadelas que apresentaram os menores níveis de fragilidade foram classificadas como “robustas”. Em pesquisas anteriores com o mesmo grupo de animais, pertencer a essa categoria esteve associado a um risco de morte 83% menor quando comparado aos cães mais frágeis.

Entre as 95 participantes, 38 haviam tido pelo menos uma ninhada de filhotes vivos, enquanto 57 nunca passaram por uma gestação.

Ao comparar os dois grupos, surgiu um resultado que surpreendeu os próprios pesquisadores.

As cadelas que haviam sido mães apresentaram uma probabilidade 3,3 vezes maior de permanecerem no grupo considerado mais saudável durante a velhice.

Quando os cientistas ajustaram os dados levando em conta fatores como idade, condição corporal, tempo de exposição aos hormônios ovarianos e ano de nascimento, essa diferença ficou ainda mais evidente.

Nesse cenário, as mães apresentaram uma chance aproximadamente seis vezes maior de envelhecer com baixa fragilidade em comparação às fêmeas que nunca tiveram filhotes.

Maternidade E Envelhecimento Em Cães1
© Md Rafatul Islam – Unsplash

O estudo encontrou uma associação importante, mas ainda não prova uma relação de causa e efeito

Outro dado chamou atenção.

As cadelas que tiveram mais de uma ninhada demonstraram uma probabilidade superior a sete vezes de permanecer robustas durante o envelhecimento quando comparadas às fêmeas nulíparas.

Por outro lado, o número de filhotes produzidos ao longo da vida não apresentou relação significativa com o estado de saúde na velhice. Isso indica que a intensidade reprodutiva, por si só, talvez não seja o fator determinante.

Os pesquisadores também consideraram uma hipótese bastante provável: talvez apenas as cadelas originalmente mais saudáveis fossem escolhidas para reprodução.

Se isso fosse verdade, a melhor condição física observada na velhice não seria consequência da maternidade, mas apenas reflexo de uma saúde superior desde o início da vida.

Para verificar essa possibilidade, a equipe revisou o histórico clínico dos animais e entrevistou seus proprietários para entender por que algumas fêmeas nunca tiveram filhotes.

Mesmo após excluir dos cálculos as cadelas que não reproduziram por apresentarem problemas de saúde prévios, a associação continuou aparecendo.

Ainda assim, os autores destacam uma limitação importante.

Como se trata de um estudo observacional, não houve distribuição aleatória dos animais entre grupos. Por isso, os resultados demonstram apenas uma associação estatística, sem comprovar que a gestação ou a maternidade sejam responsáveis diretas pela maior robustez observada.

A ciência tenta entender por que isso acontece

Os mecanismos biológicos por trás desse fenômeno ainda permanecem desconhecidos.

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que a gestação possa provocar mudanças duradouras na atividade de determinados genes, no funcionamento do sistema imunológico e na resposta inflamatória do organismo.

Essas alterações, conhecidas como mudanças epigenéticas, poderiam funcionar como uma espécie de “memória biológica”, permanecendo ativas mesmo muitos anos após o nascimento dos filhotes.

Apesar da descoberta, os cientistas reforçam que o estudo não significa que seja recomendável colocar uma cadela para reproduzir com o objetivo de aumentar sua expectativa de vida.

Gestação e parto também envolvem riscos importantes para a saúde dos animais, e a pesquisa foi realizada com um grupo relativamente pequeno de rottweilers extremamente longevos, o que impede generalizações para todas as raças.

Ainda assim, os resultados abrem uma nova linha de investigação sobre o envelhecimento animal. Eles sugerem que, em determinadas circunstâncias, a reprodução talvez não represente apenas um custo energético para o organismo, mas também possa desencadear processos biológicos capazes de influenciar positivamente a saúde durante a velhice. Dessa forma, o estudo responde ao título ao mostrar que as cadelas que foram mães apresentaram uma associação significativa com um envelhecimento mais saudável, embora a relação de causa e efeito ainda precise ser confirmada.

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