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Ciência

Um planeta desafiou todas as previsões após a morte de sua estrela, e o James Webb revelou por quê

Um planeta que desafia todas as previsões foi analisado pelo telescópio James Webb, revelando pistas surpreendentes sobre o destino dos gigantes gasosos quando uma estrela chega ao fim da vida.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O fim de uma estrela costuma ser visto como o encerramento da história de seu sistema planetário. Durante décadas, os astrônomos acreditaram que poucos mundos poderiam sobreviver a esse processo extremo. No entanto, uma nova observação realizada pelo telescópio espacial James Webb mostra que alguns planetas podem continuar existindo em condições consideradas impossíveis. A descoberta não apenas desafia modelos teóricos, como também oferece uma rara oportunidade de entender o que pode acontecer com Júpiter, Saturno e outros gigantes do Sistema Solar bilhões de anos no futuro.

Um planeta que não deveria existir onde está

A cerca de 80 anos-luz da Terra, os astrônomos encontraram um dos sistemas planetários mais intrigantes já observados. O protagonista é WD 1856 b, um gigante gasoso com dimensões semelhantes às de Júpiter que orbita uma anã branca — o núcleo remanescente de uma estrela que já esgotou seu combustível.

O que torna esse planeta tão especial é sua posição extremamente próxima da estrela. Ele completa uma volta inteira em apenas 34 horas e está localizado a menos de 3 milhões de quilômetros da anã branca, aproximadamente 50 vezes mais perto de sua estrela do que a Terra está do Sol.

Essa configuração desafia as teorias tradicionais da evolução planetária. Durante a fase de gigante vermelha, a estrela original teria se expandido enormemente, tornando improvável que um planeta pudesse permanecer exatamente nessa órbita sem ser destruído.

Foi justamente para entender esse mistério que uma equipe internacional utilizou o James Webb. A missão, porém, estava longe de ser simples.

As anãs brancas emitem muito menos luz do que estrelas comuns, dificultando a coleta de dados. Além disso, WD 1856 b leva apenas oito minutos para cruzar a frente da estrela durante cada trânsito. Nesse curto intervalo, o instrumento NIRSpec conseguiu analisar a luz filtrada pela atmosfera do planeta.

O resultado foi histórico: pela primeira vez, cientistas detectaram a atmosfera de um planeta que orbita uma estrela já morta. As observações revelaram a presença de metano, nuvens e diversos hidrocarbonetos, indicando uma composição atmosférica muito mais complexa do que os pesquisadores esperavam.

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© NASA Hubble Space Telescope

Um excesso de calor que pode revelar uma longa viagem pelo espaço

A surpresa não terminou na composição química.

Ao calcular a temperatura de WD 1856 b, os pesquisadores perceberam que o planeta estava cerca de 133 °C mais quente do que deveria. Como a anã branca emite pouca energia, esse calor adicional dificilmente poderia ser explicado apenas pela radiação da estrela.

A hipótese mais aceita é que o planeta ainda conserva parte do calor gerado durante uma migração orbital ocorrida há aproximadamente um bilhão de anos.

Segundo os modelos desenvolvidos pelos cientistas, WD 1856 b provavelmente nasceu muito mais distante da estrela. Em algum momento, forças gravitacionais provocadas por outros corpos do sistema teriam alterado sua órbita lentamente, empurrando-o para a posição extremamente próxima em que se encontra atualmente.

Essa mudança teria comprimido o planeta e aquecido seu interior, deixando uma assinatura térmica que ainda pode ser medida hoje.

Existe uma segunda possibilidade: durante a fase de gigante vermelha, a estrela poderia ter engolido o planeta, que milagrosamente teria sobrevivido e reaparecido em uma órbita menor.

Entretanto, a grande quantidade de metano encontrada na atmosfera favorece o cenário da migração gravitacional. Caso tivesse atravessado o interior da estrela, o planeta provavelmente teria acumulado grandes quantidades de hidrogênio, alterando significativamente sua composição química.

Mesmo assim, alguns especialistas ainda consideram cedo para descartar completamente a hipótese do engolfamento, já que estudos anteriores sugeriam temperaturas bem menores para esse mesmo planeta.

O que essa descoberta revela sobre o futuro de Júpiter e Saturno

Além do feito científico, WD 1856 b oferece uma espécie de janela para observar o futuro distante do nosso próprio Sistema Solar.

Daqui a cerca de cinco bilhões de anos, o Sol entrará na fase de gigante vermelha. Mercúrio e Vênus certamente serão destruídos, enquanto o destino da Terra permanece incerto. Depois dessa etapa, nossa estrela também se transformará em uma anã branca.

Os modelos indicam que Júpiter, Saturno, Urano e Netuno deverão sobreviver a essa transformação. No entanto, suas órbitas poderão sofrer mudanças importantes ao longo de bilhões de anos, seja tornando-se mais distantes, seja passando por migrações provocadas pelas interações gravitacionais entre eles.

É justamente por isso que WD 1856 b desperta tanto interesse entre os astrônomos. Ele representa um raro exemplo real de um planeta gigante convivendo com uma estrela que já morreu, permitindo testar teorias que antes existiam apenas em simulações.

O James Webb continuará acompanhando esse sistema. Os pesquisadores já possuem novos trânsitos registrados e esperam analisar com ainda mais precisão a composição da atmosfera do planeta. Esses dados poderão esclarecer definitivamente como ele chegou até ali e ajudar a compreender qual poderá ser o destino dos gigantes gasosos quando o Sol encerrar sua existência.

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