Há fenômenos que desafiam a ciência por décadas antes de receberem uma explicação convincente. Um deles acompanha milhões de pessoas em diferentes partes do mundo, provocando desconforto, insônia e dificuldades de concentração. Durante muito tempo, especialistas buscaram uma fonte externa para esse som misterioso, mas uma nova pesquisa mudou completamente a forma de interpretar esse intrigante fenômeno auditivo.
Um mistério que atravessou fronteiras e intrigou gerações
Por mais de meio século, milhares de pessoas relataram ouvir um zumbido grave e constante que parecia não ter origem identificável. O fenômeno ficou conhecido internacionalmente como “The Hum” e começou a chamar a atenção na década de 1970, quando moradores da cidade de Bristol, no Reino Unido, passaram a denunciar um ruído contínuo que apenas parte da população conseguia perceber.
Na época, as primeiras investigações concentraram-se em possíveis fontes industriais. Fábricas, sistemas de ventilação e outros equipamentos foram analisados, mas nenhuma inspeção conseguiu confirmar que aqueles sons eram responsáveis pelas reclamações. Mesmo assim, os relatos continuaram aumentando.
Com o passar dos anos, o fenômeno deixou de ser exclusivo de Bristol. Casos semelhantes começaram a surgir em outras cidades britânicas, como Southampton, Plymouth, Swansea e Londres. Mais tarde, pessoas dos Estados Unidos também passaram a descrever experiências praticamente idênticas. O mesmo aconteceu em países como Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Noruega e África do Sul.
Hoje, estimativas indicam que aproximadamente 4% da população mundial pode experimentar esse tipo de percepção sonora. Enquanto algumas pessoas descrevem apenas um ruído discreto, outras convivem diariamente com um zumbido intenso capaz de prejudicar o sono, reduzir a concentração, provocar fadiga e comprometer significativamente a qualidade de vida.
A dificuldade em identificar uma origem concreta alimentou inúmeras hipóteses ao longo das décadas. Algumas apontavam para sons ambientais de baixíssima frequência, produzidos por trânsito, linhas de transmissão elétrica, instalações industriais ou até fenômenos naturais, como o vento e o movimento das ondas.

Um novo estudo mudou a forma de entender o fenômeno
A ausência de respostas definitivas também abriu espaço para teorias muito mais especulativas. Algumas sugeriam explicações atmosféricas incomuns, enquanto outras chegaram a relacionar o fenômeno a supostas atividades extraterrestres, aumentando ainda mais o interesse popular pelo chamado “zumbido misterioso”.
O tema ganhou tanta repercussão que ultrapassou o ambiente científico. Em 2024, a BBC lançou a série dramática The Listeners, inspirada em pessoas que convivem com esse estranho som e nas consequências emocionais e sociais que ele pode provocar.
A explicação mais consistente surgiu recentemente em um estudo publicado na revista científica PLOS ONE. A pesquisa foi liderada pelo professor Markus Drexl, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, com o objetivo de descobrir se essas pessoas realmente captavam sons externos extremamente fracos ou se a origem estava no próprio organismo.
Os pesquisadores avaliaram 28 voluntários alemães por meio de testes auditivos específicos, analisando tanto a sensibilidade a sons de baixa frequência quanto o funcionamento do sistema auditivo.
Os resultados revelaram um padrão bastante claro. Na maior parte dos participantes, o som não tinha origem no ambiente. Em vez disso, tratava-se de um tipo de tinnitus — também conhecido como zumbido no ouvido — de baixa frequência, gerado pelo próprio sistema auditivo e interpretado pelo cérebro como se viesse do exterior.
Ainda assim, os cientistas não descartam completamente outras possibilidades. Segundo os autores, podem existir casos isolados em que determinadas pessoas apresentem uma sensibilidade auditiva incomum, sendo capazes de perceber sons ambientais extremamente discretos.
A descoberta esclarece o mistério, mas o desafio continua
O tinnitus é uma condição relativamente comum caracterizada pela percepção de sons persistentes, como zumbidos, apitos ou chiados, sem que exista uma fonte sonora externa. Entre suas possíveis causas estão a exposição prolongada a ruídos intensos, o envelhecimento natural do sistema auditivo e diferentes condições médicas.
Diversos músicos conhecidos já relataram conviver com esse problema após anos de apresentações em volumes elevados. Entre eles estão Dave Grohl, Brian Johnson, Pete Townshend e Ozzy Osbourne, que descreveram como o zumbido passou a fazer parte da rotina.
Embora a nova pesquisa represente um avanço importante para compreender a origem da maioria dos casos relacionados ao chamado “The Hum”, ela ainda não oferece uma solução definitiva para quem convive diariamente com esse fenômeno.
O principal mérito do estudo está em fornecer uma base científica sólida para futuras pesquisas e abrir caminho para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes. Enquanto uma cura definitiva ainda não existe, compreender melhor o funcionamento desse curioso fenômeno já representa um passo importante para milhões de pessoas que convivem com esse som invisível.