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Ciência

Uma constelação de satélites promete acompanhar cada objeto perigoso ao redor da Terra

Milhões de objetos cruzam o espaço em velocidades impressionantes e alguns são praticamente invisíveis. Agora, uma nova iniciativa pretende acompanhar cada um deles em tempo real.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O espaço ao redor da Terra nunca esteve tão movimentado. A cada novo lançamento de satélites e missões espaciais, aumenta também a quantidade de objetos que permanecem em órbita, muitos deles sem qualquer utilidade. Embora pareçam inofensivos, esses fragmentos podem representar um enorme perigo para naves e astronautas. Diante desse cenário, uma iniciativa ambiciosa promete transformar a forma como esses riscos são monitorados nos próximos anos.

O lixo espacial cresce rapidamente e já representa um dos maiores desafios da era dos satélites

Quando se fala em exploração espacial, normalmente a atenção está voltada para foguetes, missões científicas e novas tecnologias. Mas existe um problema que cresce silenciosamente acima de nossas cabeças: o lixo espacial.

Especialistas estimam que existam atualmente mais de um milhão de fragmentos com tamanho superior a um centímetro orbitando a Terra. Pode parecer pouco, mas objetos desse porte já são capazes de provocar danos severos quando colidem com satélites ou espaçonaves.

O motivo é a velocidade. Muitos desses fragmentos viajam a aproximadamente 7,9 quilômetros por segundo, acumulando energia suficiente para perfurar estruturas metálicas, destruir equipamentos e comprometer missões inteiras em uma fração de segundo.

O risco deixou de ser apenas uma hipótese teórica. Nos últimos anos, a estação espacial chinesa Tiangong registrou diversos incidentes relacionados a impactos de detritos orbitais.

Em uma das ocorrências mais conhecidas, a cápsula de retorno da missão tripulada Shenzhou sofreu danos após ser atingida por um pequeno fragmento, obrigando mudanças no cronograma da missão. Em outro episódio, astronautas precisaram realizar caminhadas espaciais para reparar painéis solares danificados por colisões semelhantes.

À medida que cresce o número de satélites em operação — impulsionado principalmente pelas grandes constelações de internet — aumenta também a possibilidade de novos impactos, tornando o monitoramento do ambiente espacial uma prioridade para diversas agências e empresas do setor.

Lixo Espacial+
© Shutterstock

Uma constelação de satélites pretende acompanhar tudo o que já está em órbita

Foi nesse contexto que a China iniciou o desenvolvimento da primeira constelação comercial do país dedicada exclusivamente ao monitoramento de lixo espacial.

Segundo informações divulgadas pela agência estatal Xinhua, o projeto prevê uma rede formada por 120 satélites, distribuídos em diferentes etapas até o final da década.

O primeiro equipamento já foi colocado em órbita a bordo de um foguete comercial Lijian-1. Desenvolvido pela empresa privada ATmoto Technology, sediada em Pequim, o satélite inaugura uma infraestrutura criada para acompanhar continuamente objetos presentes em órbitas baixas, médias e altas.

A fase inicial do projeto, chamada LX630, contará com 14 satélites produzidos em parceria com o Liangxi Aerospace Technology Group. O objetivo é criar um sistema capaz de detectar, identificar e catalogar detritos espaciais com muito mais precisão do que as soluções comerciais disponíveis atualmente.

O primeiro satélite já incorpora tecnologias avançadas, incluindo um computador de bordo equipado com inteligência artificial.

Graças a esse sistema, ele consegue executar missões de vigilância de forma mais autônoma, responder rapidamente a situações emergenciais e acompanhar objetos específicos sem depender constantemente de comandos enviados a partir da Terra.

Outra característica importante é sua capacidade de realizar transferências orbitais, permitindo aproximar-se de determinadas regiões para realizar observações mais detalhadas sempre que necessário.

Inteligência artificial será a principal aliada para evitar futuras colisões

O projeto não termina com os primeiros satélites.

Na segunda fase, a constelação receberá outros 36 equipamentos equipados com sensores eletromagnéticos e sistemas de imagens de alta resolução, ampliando significativamente a capacidade de observação.

Já a terceira etapa representa a parte mais ambiciosa da iniciativa. Outros 70 satélites serão adicionados à rede, incorporando algoritmos de inteligência artificial capazes de reconhecer automaticamente objetos, analisar seus padrões de movimento e tomar determinadas decisões operacionais de forma autônoma.

O nome escolhido para a constelação também possui um significado histórico. Ela foi batizada de Gan De, em homenagem ao antigo astrônomo chinês que viveu durante o período dos Reinos Combatentes e ficou conhecido por produzir alguns dos primeiros catálogos estelares da história.

A referência simboliza o objetivo da missão: assim como Gan De catalogou estrelas observando o céu há mais de dois mil anos, a nova rede pretende catalogar continuamente tudo aquilo que circula ao redor da Terra.

Enquanto pesquisadores também investem em blindagens mais resistentes para proteger espaçonaves, a estratégia chinesa aposta em outro caminho: detectar os riscos antes que aconteçam.

Se a iniciativa alcançar seus objetivos, será possível acompanhar milhares de objetos simultaneamente e prever colisões com muito mais antecedência, aumentando a segurança de satélites, estações espaciais e futuras missões tripuladas.

Em um cenário onde o número de lançamentos continua crescendo ano após ano, identificar cada fragmento pode ser tão importante quanto construir novos foguetes. Afinal, no espaço, até um pequeno pedaço de metal pode representar uma ameaça gigantesca.

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