Em meio às montanhas dos Andes, a milhares de metros de altitude, existe uma região que durante muito tempo pareceu apenas mais uma área remota do mapa. Mas seu subsolo guarda uma combinação particularmente rara de recursos minerais. Um deles é essencial para as baterias que movimentam carros elétricos e sistemas de armazenamento de energia. O outro tem importância estratégica completamente diferente — e potencialmente muito maior.
Uma formação geológica fora do comum
A história começa na meseta de Macusani, na província de Carabaya, região de Puno, no sudeste do Peru. A aproximadamente 4.500 metros de altitude, o local está sobre um antigo sistema vulcânico que desempenhou um papel fundamental na concentração dos minerais encontrados atualmente na região.
Os mesmos processos geológicos que ajudaram a concentrar o lítio também contribuíram para a presença de urânio em camadas sedimentares associadas. Essa combinação é especialmente interessante porque muitos dos grandes depósitos de lítio conhecidos no mundo apresentam uma configuração diferente.
Em países como Chile e Bolívia, por exemplo, o metal é encontrado principalmente em salmouras de grandes salares. Em Macusani, porém, o lítio está associado a formações de rocha dura, criando características próprias para sua exploração.
E é justamente aí que aparece um dos pontos mais impressionantes do local: o tamanho do recurso identificado.

O projeto que pode mudar o papel do Peru
O principal empreendimento da região é o projeto Falchani, controlado atualmente pela empresa canadense American Lithium. As estimativas citadas no material apontam para aproximadamente 4,7 milhões de toneladas de carbonato de lítio equivalente, colocando o depósito entre os maiores projetos de lítio em rocha dura do planeta.
O material o classifica como o sexto maior depósito desse tipo, em uma categoria que reúne grandes produtores e reservas de países como Austrália, Chile, Argentina, China e Estados Unidos.
Há ainda uma diferença importante na concentração. Enquanto os grandes depósitos de lítio em salmoura de Chile e Bolívia apresentam concentrações médias próximas de 500 partes por milhão, Falchani teria entre 3.500 e 4.000 partes por milhão, segundo estimativas da empresa.
Isso pode facilitar algumas etapas do processamento, embora a mineração de rocha dura normalmente exija um investimento inicial maior do que a extração baseada na evaporação de salmouras.
Mas o lítio é apenas metade da história.
O outro recurso escondido no mesmo subsolo
As primeiras estimativas também identificaram cerca de 124 milhões de libras de recursos de urânio na região de Macusani. A dimensão transforma o local em um dos grandes recursos de urânio ainda não desenvolvidos da América Latina.
O detalhe curioso é que, quando a dimensão do depósito veio a público, em 2018, o Peru ainda não possuía uma estrutura regulatória própria para desenvolver projetos de urânio. O governo precisou começar a trabalhar em uma legislação específica para o mineral, um processo que só começou a ser formalmente solucionado em 2026.
Agora, a questão deixa de ser apenas geológica. Ela envolve também regulamentação, investimentos e estratégia energética.
O projeto Falchani já passou mais de uma década em diferentes etapas de exploração e avaliação. A American Lithium projeta investimentos de aproximadamente US$ 847 milhões, com construção prevista a partir de 2027 e produção de carbonato de lítio para baterias a partir de 2028 ou posteriormente.
Uma avaliação econômica preliminar estima cerca de 63 mil toneladas anuais de concentrado de lítio durante uma vida útil de aproximadamente 33 anos.
Se os planos avançarem, o Peru poderá deixar de ser apenas um espectador no mercado global de minerais críticos e ganhar uma posição relevante justamente quando baterias, armazenamento de energia e tecnologias associadas à transição energética estão aumentando a demanda por esses recursos.
No fim, o que torna Macusani tão peculiar não é apenas a quantidade de lítio encontrada nas montanhas. É a rara combinação de dois recursos estratégicos no mesmo cenário geológico — uma característica capaz de transformar uma região isolada dos Andes em um ponto de atenção internacional.