O Ártico está mudando mais rapidamente do que grande parte do planeta, mas ainda existem períodos do ano sobre os quais a ciência conhece muito pouco. As condições extremas dificultam expedições durante o inverno, justamente quando processos importantes acontecem sob o gelo. Agora, uma missão internacional aposta em uma estratégia ousada para acompanhar essas transformações de perto e reunir dados que poderão influenciar os estudos climáticos das próximas décadas.
Um laboratório criado para ficar preso no gelo
No dia 19 de julho, uma embarcação bastante diferente deixou o porto de Lorient, na França, rumo ao Oceano Ártico. Sua aparência lembra um enorme iglu metálico, mas sua missão vai muito além do visual curioso.
Ao contrário da maioria dos navios que tentam evitar o gelo marinho, essa estação flutuante foi projetada justamente para ser capturada pela banquisa e viajar lentamente com ela durante muitos meses. A estratégia permitirá acompanhar a evolução do ambiente polar em tempo real, seguindo o movimento natural das placas de gelo.
Batizada de Tara Polar Station, a plataforma foi construída especialmente para a expedição Tara Polaris I. Após seguir pela costa russa com o apoio de um quebra-gelo, a expectativa é que fique completamente imobilizada no início de setembro. A partir daí, sua rota dependerá exclusivamente da deriva do gelo até alcançar a região do Estreito de Fram, entre a Groenlândia e o arquipélago de Svalbard, no fim de 2027.
A estação mede cerca de 26 metros de comprimento por 16 metros de largura e possui um casco oval fabricado com alumínio de alta resistência. Esse formato não foi escolhido apenas por questões estéticas. Quando as enormes placas de gelo comprimem a estrutura, ela tende a ser elevada, reduzindo o risco de ser esmagada pela pressão.
Projetada para enfrentar temperaturas de até -52 °C, a base consegue permanecer aproximadamente 500 dias sem reabastecimento. Durante o inverno polar, acomodará uma equipe de 12 pessoas, composta por cientistas, tripulantes e um correspondente responsável por registrar a missão. Nos meses de verão, a capacidade aumenta para até 18 ocupantes.
Sua autonomia energética será garantida pela combinação de biocombustível HVO, painéis solares, aerogeradores e baterias, reduzindo a dependência de combustíveis convencionais durante a longa permanência no gelo.
Uma missão científica que acompanhará o Ártico durante o ano inteiro
O interior da estação reúne cinco laboratórios científicos equipados para investigar praticamente todos os aspectos do ambiente polar. Ao todo, pesquisadores ligados a 34 laboratórios de 12 países participarão da missão.
A estrutura conta com drones, sensores atmosféricos, equipamentos para coleta de água, instrumentos oceanográficos e até um veículo submarino operado remotamente. Um dos destaques é o chamado moon pool, um acesso central que permite chegar diretamente ao oceano sem que os pesquisadores precisem sair da estação, reduzindo significativamente os riscos durante o inverno extremo.
Ao longo da expedição, serão coletadas mais de 10 mil amostras de água, gelo e ar. Os estudos irão analisar desde a dinâmica da formação da banquisa e as trocas de energia entre oceano e atmosfera até microrganismos como vírus, bactérias e algas, organismos fundamentais para toda a cadeia alimentar do Ártico.
O grande diferencial do projeto está justamente na permanência durante o inverno polar. Grande parte das pesquisas anteriores ocorreu apenas no verão, quando há luz solar constante e as condições de navegação são menos severas. Isso deixou uma enorme lacuna científica sobre o comportamento do ecossistema durante os meses de escuridão total.
Nesse período, ocorrem mudanças importantes na formação do gelo, na disponibilidade de nutrientes e na atividade dos microrganismos, informações essenciais para compreender os impactos das mudanças climáticas.
O desafio de viver meses isolado em um dos ambientes mais extremos do planeta
Os integrantes da equipe enfrentarão aproximadamente cinco meses sem nascer do Sol, além de frio intenso, isolamento e a possibilidade de encontros com ursos-polares.
Por causa dessas condições, a seleção dos participantes incluiu avaliações médicas, testes psicológicos e treinamentos específicos para convivência em espaços reduzidos. Em caso de emergência, uma evacuação poderá levar vários dias devido ao isolamento da região.
A tripulação também recebeu treinamento para lidar com a presença de ursos-polares e contará com um cão treinado para detectar a aproximação desses animais. Mesmo assim, a prioridade será evitar qualquer contato direto e adotar protocolos rigorosos sempre que alguém precisar trabalhar sobre o gelo.
A Tara Polaris I será apenas a primeira de uma série de dez expedições planejadas até 2046. Ao repetir esse monitoramento durante duas décadas, os pesquisadores esperam distinguir melhor as variações naturais das mudanças permanentes provocadas pelo aquecimento global.
Mais do que um laboratório flutuante, a estação representa uma oportunidade rara de acompanhar, durante todas as estações do ano, uma das regiões que mais rapidamente se transforma no planeta. Os dados coletados poderão aprimorar modelos climáticos e ampliar o entendimento sobre o futuro do Oceano Ártico e seus impactos para o restante do mundo.