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Ciência

Uma IA consegue analisar uma foto do rosto e identificar sinais associados ao câncer

Cientistas desenvolveram uma inteligência artificial capaz de identificar sinais associados à sobrevivência de pacientes com câncer. A tecnologia utiliza apenas uma fotografia e apresentou resultados surpreendentes.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Uma fotografia comum, semelhante àquelas usadas em documentos de identidade, pode conter informações sobre a saúde que nem mesmo conseguimos perceber. Agora, pesquisadores descobriram que a inteligência artificial consegue identificar padrões faciais associados ao envelhecimento e ao risco de mortalidade em pessoas com câncer. A descoberta abre uma possibilidade para a medicina, mas também levanta uma pergunta delicada: até onde uma máquina pode antecipar o futuro de um paciente?

Uma fotografia pode revelar mais do que a idade de uma pessoa

Pesquisadores do Mass General Brigham, nos Estados Unidos, desenvolveram uma inteligência artificial capaz de analisar fotografias faciais e estimar o risco de mortalidade de pacientes diagnosticados com câncer.

O estudo, publicado na revista científica The Lancet Digital Health, apresenta uma abordagem que utiliza características do rosto para identificar informações relacionadas à saúde.

A tecnologia recebeu o nome de FAHR-Face e foi desenvolvida a partir de um treinamento com mais de 40 milhões de imagens faciais.

Os cientistas criaram duas ferramentas complementares.

A primeira, chamada FAHR-FaceAge, estima a idade facial de uma pessoa, utilizada pelos pesquisadores como um possível indicador de envelhecimento biológico.

A segunda, FAHR-FaceSurvival, analisa diretamente características do rosto para estimar o risco de mortalidade de pacientes oncológicos.

A proposta não é diagnosticar câncer por meio de uma selfie, mas oferecer informações adicionais sobre o estado geral de saúde de pessoas que já receberam o diagnóstico.

Essa diferença é fundamental porque o prognóstico de um câncer depende de inúmeros fatores, incluindo o tipo de tumor, seu estágio, a resposta ao tratamento e as condições clínicas do paciente.

O resultado surpreendeu os pesquisadores

Os cientistas observaram uma associação entre a idade estimada pela inteligência artificial e a sobrevivência de pacientes submetidos à radioterapia.

Entre aproximadamente 38 mil pessoas analisadas, aquelas cuja aparência facial indicava uma idade pelo menos cinco anos superior à idade cronológica apresentaram risco de morte 21% maior durante o período de acompanhamento.

Por outro lado, pacientes cuja aparência foi estimada como pelo menos cinco anos mais jovem apresentaram risco 17% menor.

Isso não significa que aparentar ser mais velho cause uma evolução desfavorável da doença.

O resultado indica apenas uma associação estatística entre determinados padrões faciais e o risco de mortalidade.

Em outra etapa, o sistema FAHR-FaceSurvival foi treinado com dados de mais de 34 mil pacientes com câncer.

Ao separar os participantes em grupos de risco, os pesquisadores observaram que aqueles classificados na faixa mais elevada apresentavam uma taxa de mortalidade superior ao triplo da registrada no grupo de menor risco.

Os resultados permaneceram relevantes mesmo depois de ajustes para características como idade, sexo e tipo de câncer.

A inteligência artificial encontrou sinais em regiões específicas do rosto

Uma IA consegue analisar uma foto do rosto e identificar sinais associados ao câncer
© Pexels

Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa foi descobrir quais regiões faciais influenciavam as previsões.

O FAHR-FaceAge concentrou sua análise principalmente na testa, nas têmporas e nos sulcos nasolabiais, aquelas linhas que se estendem das laterais do nariz até os cantos da boca.

Já o FAHR-FaceSurvival deu maior importância à região abaixo dos olhos e à ponte nasal.

Os cientistas também investigaram se fatores externos poderiam alterar significativamente os resultados.

Mudanças na iluminação, no ângulo da fotografia, na expressão facial e até no uso de maquiagem tiveram impacto relativamente pequeno nas estimativas de idade.

Isso sugere que o modelo consegue reconhecer determinados padrões mesmo quando as condições das imagens não são idênticas.

Entretanto, ainda não está claro quais mecanismos biológicos explicam completamente as associações identificadas.

Características faciais podem refletir diferentes processos relacionados ao envelhecimento, ao estilo de vida e ao estado geral de saúde, mas isso não significa que a ferramenta consiga identificar diretamente a evolução de um tumor.

A tecnologia poderia ajudar médicos a escolher tratamentos

Uma das aplicações imaginadas pelos pesquisadores envolve pacientes idosos ou fisicamente fragilizados.

Antes de recomendar tratamentos intensivos, como cirurgias, radioterapia ou determinadas terapias sistêmicas, os médicos precisam avaliar se o organismo possui condições de suportar os procedimentos.

Atualmente, essas decisões consideram exames, histórico clínico, características do tumor e avaliações do estado funcional do paciente.

A inteligência artificial poderia acrescentar uma nova informação a esse processo.

Raymond Mak, oncologista do Mass General Brigham e um dos responsáveis pela pesquisa, explica que a intenção é tornar a avaliação da saúde mais quantitativa e consistente, sem substituir o julgamento médico.

Uma fotografia seria uma ferramenta relativamente simples e de baixo custo, especialmente quando comparada a procedimentos mais complexos.

Mas existe uma diferença importante entre encontrar uma associação estatística e demonstrar que ela melhora decisões clínicas.

Para ser incorporada à prática médica, a tecnologia precisará comprovar que oferece benefícios adicionais aos métodos atualmente utilizados.

Uma descoberta promissora que ainda exige cautela

Apesar dos resultados, os pesquisadores reconhecem limitações importantes.

Os modelos foram desenvolvidos principalmente com informações de populações de países de alta renda, e determinados grupos demográficos tiveram representação insuficiente.

Isso pode produzir diferenças de desempenho entre pessoas de origens e características distintas.

Outro desafio será comparar diretamente as previsões da inteligência artificial com os instrumentos clínicos já utilizados pelos oncologistas.

Também serão necessários estudos prospectivos para determinar se o uso da ferramenta realmente melhora o planejamento dos tratamentos e os resultados dos pacientes.

Há ainda questões relacionadas à privacidade, ao uso de dados biométricos e à possibilidade de interpretações equivocadas de previsões individuais.

A tecnologia não consegue determinar com certeza quanto tempo uma pessoa viverá, tampouco substituir exames ou avaliações especializadas.

Por enquanto, a descoberta demonstra que fotografias comuns podem conter informações de saúde que sistemas de inteligência artificial conseguem identificar estatisticamente.

Se futuras pesquisas confirmarem sua utilidade clínica, uma imagem facial poderá se transformar em mais uma ferramenta de apoio à medicina personalizada.

O desafio será garantir que essa informação ajude os médicos a cuidar melhor dos pacientes, sem transformar probabilidades em sentenças sobre o futuro.

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