Pular para o conteúdo
Ciência

Uma molécula gigante com enxofre foi encontrada no espaço — e ela pode ser o elo perdido entre a química cósmica e a origem da vida

Pesquisadores identificaram a maior molécula orgânica contendo enxofre já observada no espaço interestelar. O achado ajuda a preencher uma lacuna entre compostos simples formados entre estrelas e os blocos mais complexos encontrados em cometas e meteoritos, reforçando a ideia de que ingredientes essenciais da vida podem estar espalhados pela galáxia.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, astrônomos detectaram centenas de moléculas no espaço. Mas havia um detalhe intrigante: o enxofre — elemento fundamental para proteínas, enzimas e aminoácidos — parecia “sumir” quando se tratava de moléculas maiores. Agora, essa ausência ganhou uma explicação plausível.

Um estudo liderado pelo Instituto Max Planck de Física Extraterrestre identificou a maior molécula portadora de enxofre já registrada no meio interestelar. O trabalho foi publicado na Nature Astronomy e descreve a detecção da 2,5-ciclohexadieno-1-tiona, um composto com 13 átomos que também inclui carbono e hidrogênio.

Segundo o autor principal, Mitsunori Araki, o resultado ajuda a explicar um velho paradoxo. O enxofre é o décimo elemento mais abundante do universo, mas raramente aparecia em moléculas grandes no espaço. A nova descoberta sugere que ele não estava ausente — apenas escondido, possivelmente aprisionado em gelos cósmicos e em estruturas químicas difíceis de detectar.

Um “espaço vazio” que, na verdade, estava cheio

Cientistas registram pela primeira vez movimento do calor em escala atômica
© https://x.com/xandaolp

Antes deste trabalho, a maior molécula com enxofre conhecida no espaço tinha apenas nove átomos. A maioria não passava de três, quatro ou cinco. Encontrar uma estrutura com 13 átomos muda o jogo porque ajuda a conectar dois mundos: a química relativamente simples das nuvens interestelares e os compostos muito mais complexos já identificados em meteoritos que caíram na Terra.

Em outras palavras, o estudo adiciona uma peça importante ao quebra-cabeça de como a matéria-prima da vida pode ter sido montada no espaço antes de chegar aos planetas.

Para chegar ao resultado, os cientistas primeiro sintetizaram a molécula em laboratório usando uma descarga elétrica aplicada ao tiofenol. Em seguida, obtiveram uma “impressão digital” de rádio extremamente precisa do composto e compararam esse sinal com dados coletados por radiotelescópios que observam regiões ricas em poeira e gás na Via Láctea.

Viveiros estelares e ingredientes para futuros planetas

A molécula foi identificada em uma nuvem molecular conhecida como G+0.693–0.027, localizada a cerca de 27 mil anos-luz da Terra, próxima ao centro da nossa galáxia. Nuvens moleculares são regiões frias e densas que funcionam como verdadeiros berçários estelares: sob ação da gravidade, parte desse material colapsa e dá origem a novas estrelas e, mais tarde, a sistemas planetários.

Como explica Valerio Lattanzi, coautor do estudo, os ingredientes químicos presentes nessas nuvens acabam sendo incorporados aos planetas que se formam depois. É por isso que mapear essas moléculas é tão importante: elas representam os possíveis precursores da química da vida.

A hipótese dos pesquisadores é que compostos complexos — incluindo os que contêm enxofre — podem ter chegado à Terra primitiva por meio de impactos de cometas e meteoritos, ajudando a estabelecer as bases bioquímicas do nosso planeta.

Uma história de detetive cósmico

O telescópio James Webb revela um destino inquietante que pode aguardar a Terra
© Pexels – Yihan Wang.

Para Kate Freeman, da Universidade Estadual da Pensilvânia, o trabalho é uma “história de detetive empolgante”, possível graças a radiotelescópios potentes e a uma estratégia de busca muito bem planejada. Ela destaca que meteoritos já carregam compostos grandes e ricos em enxofre — mas, até agora, não estava claro como essas moléculas se formavam.

Na mesma linha, Sara Russell, do Museu de História Natural de Londres, observa que a presença dessas moléculas perto do centro da Via Láctea indica que materiais biologicamente relevantes podem estar distribuídos por toda a galáxia.

Já Ryan Fortenberry, da Universidade do Mississippi, lembra que o enxofre ocupa um lugar especial na tabela periódica, permitindo reações químicas que não seriam possíveis apenas com carbono, oxigênio e nitrogênio. Para ele, cada nova molécula detectada ajuda a refinar os cenários de onde e como a vida pode ter começado.

Há meio século, encontrar qualquer molécula no espaço já parecia um milagre. Hoje, estamos identificando estruturas com dezenas de átomos. A química cósmica se mostra muito mais rica do que imaginávamos — e, se depender desse ritmo de descobertas, os próximos “elos perdidos” podem estar apenas esperando o telescópio certo apontar para eles.

 

[ Fonte: CNN Brasil ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados