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Uma vida de fé, futebol e longevidade: o legado da freira gaúcha que conquistou o mundo aos 116 anos

Ela atravessou guerras, viu papas e presidentes passarem, e permaneceu firme em seus votos, no amor pelo Internacional e no bom humor. A história de Inah Canabarro Lucas é um testemunho raro de espiritualidade, vitalidade e paixão pelo que se ama.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A religiosa mais velha do mundo, freira, colorada fanática e abençoada pelo papa: Inah Canabarro Lucas faleceu aos 116 anos, deixando um legado que inspira gerações. Nascida no interior do Rio Grande do Sul, Inah não só viveu um século de transformações, como soube manter firme sua rotina, sua fé e seu espírito leve. Sua vida — marcada pela religiosidade, pelo amor ao churrasco e ao futebol — virou símbolo de vitalidade e dedicação.

De São Francisco de Assis ao mundo

Inah Morreu
© X/@394Histoires

Inah nasceu em 1908 na cidade de São Francisco de Assis, na região central do Rio Grande do Sul. Sua jornada religiosa começou cedo: aos 16 anos, ingressou no internato Santa Tereza de Jesus, em Santana do Livramento. Em 1928, já em Montevidéu, no Uruguai, fez seus votos como freira e, dois anos depois, voltou ao Brasil para lecionar português e matemática no Rio de Janeiro.

Ao longo das décadas, dedicou-se ao ensino e à missão religiosa com disciplina e afeto. Morava na casa da Congregação das Irmãs Teresianas do Brasil, em Porto Alegre, onde seguia uma rotina rígida de horários e orações — e sempre com muito bom humor.

A fé e a bênção papal

Inah era profundamente devota. Sua espiritualidade foi reconhecida em 2018, quando recebeu uma bênção apostólica do papa Francisco, um gesto raro que emocionou a congregação. O certificado da bênção ganhou destaque em seu quarto, e foi motivo de orgulho para todos que a conheciam.

Sua trajetória dentro da Igreja foi marcada por humildade, caridade e firmeza. Mesmo com limitações físicas nos últimos anos, Inah mantinha a disciplina e uma espiritualidade ativa, como destacou a coordenadora da congregação, irmã Rita Fernandes Barbosa.

Uma paixão vermelha

Inah também era torcedora fervorosa do Sport Club Internacional. Nasceu antes mesmo da fundação do clube, mas carregava o vermelho no coração e na rotina. Camisas, casacos, almofadas e até bolos de aniversário com o formato do estádio Beira-Rio faziam parte de sua vida colorada.

O clube, ao saber de seu falecimento, publicou uma nota de pesar nas redes sociais, exaltando os 116 anos de vida dedicados “à bondade, à fé e ao amor pelo Clube do Povo”. Um reconhecimento justo à torcedora mais longeva da história do Inter.

Churrasco, pintura e leveza

Gaúcha raiz, Inah também era apaixonada por churrasco. Em aniversários, fazia pedidos especiais, como um leitão inteiro assado, sempre com bom humor. Curiosamente, só passou por uma cirurgia em toda a vida — uma operação de catarata aos 106 anos, que lhe permitiu continuar pintando tecidos e cartões, uma de suas paixões, até os 112 anos.

Mesmo com a audição e a visão comprometidas, gostava de manter sua rotina: horários fixos para acordar, comer, rezar e dormir. Segundo os que conviviam com ela, esse hábito era parte de seu segredo de longevidade.

Uma história rara, uma vida validada

Inah teve sua idade reconhecida pela organização LongeviQuest, referência internacional em validação de supercentenários. Com o apoio de pesquisadores brasileiros e internacionais, a instituição avalia documentos de diferentes fases da vida de candidatos com mais de 108 anos para confirmar a longevidade.

No caso de Inah, o cartório registrou sua data de nascimento como 8 de junho de 1908, embora familiares digam que ela nasceu em 27 de maio — o registro, à época, foi feito dias depois do nascimento real.

Uma despedida com afeto e admiração

Inah Canabarro Lucas faleceu de forma serena, segundo seus familiares. Seu corpo começou a dar sinais de cansaço e os órgãos pararam gradualmente, sem doenças específicas. O velório foi marcado para o dia seguinte no Cemitério São Miguel e Almas, em Porto Alegre.

Seu sobrinho, Cleber Lucas, resumiu bem o espírito da freira: “bom humor, otimismo, bondade e espiritualidade”. Palavras que sintetizam uma vida incomum, vivida com intensidade e amor — a Deus, ao próximo, ao futebol e ao churrasco.

 

Fonte: G1.Globo

 

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