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“Universidades ainda são brancas”, diz secretária ao defender cotas em SC

A fala reacendeu o debate sobre ações afirmativas no ensino superior catarinense. Em meio à discussão sobre o fim das cotas raciais, dados mostram avanços importantes — e também limites — na inclusão de estudantes negros e indígenas nas universidades públicas do estado.
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Tempo de leitura: 3 minutos

As políticas de cotas raciais voltaram ao centro do debate em Santa Catarina após declarações da secretária estadual de Educação, Luciane Bisognin Ceretta, que defendeu publicamente as ações afirmativas. Em entrevista a uma rádio local, ela foi direta: “nossas universidades são brancas”. A afirmação, segundo Ceretta, reflete uma dívida histórica com populações negras e indígenas e a necessidade de garantir representatividade no ensino superior.

A fala ocorre em um momento delicado, em meio à discussão sobre mudanças nas regras de ingresso nas universidades públicas estaduais, que podem reduzir ou até encerrar as cotas raciais em Santa Catarina.

“Precisamos dessas pessoas dentro da universidade”

“Universidades ainda são brancas”, diz secretária ao defender cotas em SC
© Pexels

Ao comentar o tema, Ceretta destacou que o debate sobre cotas exige profundidade e responsabilidade. Para ela, não se trata apenas de acesso econômico, mas também de corrigir desigualdades históricas que afastaram determinados grupos do ensino superior.

Segundo a secretária, ampliar a presença de negros e indígenas nas universidades não é apenas uma questão estatística, mas também de pluralidade acadêmica. A diversidade, argumenta, impacta diretamente a produção de conhecimento, o ambiente universitário e a formação de profissionais mais conectados à realidade social do estado.

O que mostram os dados sobre cotas raciais em SC

Os números ajudam a dimensionar o impacto das ações afirmativas. Desde a adoção das cotas raciais, em 2011, a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) quase triplicou o número de estudantes negros matriculados.

Antes da implementação da política, em 2010, alunos negros representavam apenas 6,4% das matrículas. Em 2024, esse percentual chegou a 17,6%, segundo dados do Censo da Educação Superior do Inep. Em termos absolutos, o número de estudantes negros passou de 667 para 1.712 em 14 anos.

O avanço é considerado expressivo, mas ainda insuficiente. De acordo com o IBGE, pessoas negras representam 23,2% da população de Santa Catarina, o que indica que a presença desse grupo nas universidades segue abaixo da proporção populacional.

Mudança na lei reacende polêmica

O debate ganhou força após a aprovação, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), de uma proposta que altera as regras de reserva de vagas. O texto limita as cotas a pessoas com deficiência, critérios socioeconômicos e estudantes oriundos de escolas públicas estaduais, excluindo recortes raciais.

Críticos da mudança alertam que o modelo ignora desigualdades estruturais que vão além da renda. Defensores das cotas raciais em Santa Catarina argumentam que pobreza e raça não são fatores equivalentes e que políticas apenas socioeconômicas tendem a reduzir a presença de negros e indígenas no ensino superior.

Representatividade e futuro do ensino superior

Para especialistas em educação, o debate não é apenas sobre números, mas sobre projeto de sociedade. A presença de diferentes grupos sociais na universidade influencia desde o conteúdo das pesquisas até as políticas públicas formadas a partir desse conhecimento.

A declaração de que “as universidades ainda são brancas” expõe um incômodo que vai além de Santa Catarina e se repete em outros estados brasileiros. Entender esse cenário é essencial para avaliar se o ensino superior público cumpre, de fato, seu papel de inclusão.

Com a possível revisão das políticas de cotas, o estado entra em uma encruzilhada: manter avanços conquistados ao longo de mais de uma década ou apostar em um modelo que pode redefinir quem, de fato, consegue chegar à universidade. O debate está longe de terminar — e promete seguir intenso dentro e fora das salas de aula.

[Fonte: ND+]

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