A introdução da vacina contra o HPV (papilomavírus humano) transformou profundamente a prevenção do câncer de colo do útero e de outras doenças associadas ao vírus. A avaliação foi feita durante o programa CNN Sinais Vitais, em entrevista ao médico Roberto Kalil Filho, quando especialistas destacaram o impacto da imunização precoce na saúde pública brasileira.
Segundo o pediatra infectologista Renato Kfouri, mestre pela Unifesp, o Brasil ainda registra cerca de 17 mil novos casos de câncer de colo do útero por ano, com aproximadamente 6 mil mortes anuais. Para ele, trata-se de uma tragédia evitável que começou a mudar com a ampliação do uso da vacina contra o HPV. “É um divisor de águas. Pela primeira vez, conseguimos atuar de forma realmente preventiva”, afirmou.
Da prevenção secundária à prevenção primária
Antes da chegada da vacina, a principal estratégia de combate ao câncer de colo do útero era a chamada prevenção secundária. Isso significava identificar lesões pré-malignas por meio de exames, como o Papanicolau, e tratá-las antes que evoluíssem para câncer. Embora eficaz, essa abordagem atua quando o problema já começou.
Com a vacinação, o cenário muda radicalmente. A imunização permite a prevenção primária, ou seja, impede a infecção pelo vírus antes mesmo de qualquer lesão surgir. “Ao evitar a aquisição do HPV, você evita também toda a cadeia de eventos que pode levar ao câncer”, explicou Kfouri. O impacto vai além do colo do útero, alcançando também verrugas genitais e outros tipos de câncer associados ao vírus.
A importância da vacinação precoce

Os especialistas reforçam que o momento da vacinação é decisivo para garantir maior eficácia. A recomendação é que a vacina seja aplicada, preferencialmente, a partir dos 9 anos de idade. De acordo com Kfouri, crianças e adolescentes mais jovens produzem uma resposta imunológica mais robusta do que adolescentes mais velhos ou adultos.
“O organismo responde melhor quanto mais cedo a vacina é aplicada. A produção de anticorpos aos 9 anos é superior à observada aos 14, 20 ou 25 anos”, explicou o médico. Essa resposta mais intensa permite um esquema vacinal simplificado: entre 9 e 14 anos, apenas uma dose é suficiente para garantir proteção eficaz. Já em pessoas acima dos 20 anos, são necessárias três doses.
Resultados já observados e metas globais
Os efeitos dessa estratégia já são visíveis em diversos países. Reduções expressivas nos casos de verrugas genitais e de lesões pré-malignas foram registradas poucos anos após o início da vacinação em massa. Em nações com alta cobertura vacinal, autoridades de saúde já projetam a eliminação do câncer de colo do útero como problema de saúde pública nas próximas décadas.
Essa meta está alinhada à estratégia internacional conhecida como “90-70-90”: vacinar 90% das meninas, realizar o rastreamento de 70% das mulheres e tratar 90% daquelas que apresentarem alterações. O cumprimento desses três pilares é considerado essencial para eliminar o câncer de colo do útero em uma geração.
Situação no Brasil e desafios

No Brasil, a vacina contra o HPV está disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde para meninos e meninas de 9 a 14 anos. Em 2025, o Ministério da Saúde também lançou uma campanha voltada a jovens com menos de 20 anos que não haviam sido vacinados na idade recomendada.
Apesar da disponibilidade, especialistas alertam que a cobertura vacinal ainda precisa melhorar. Para que os benefícios observados em outros países se repitam no Brasil, é fundamental ampliar a adesão das famílias e fortalecer políticas públicas de informação, vacinação e rastreamento. Como resumiu Kfouri, “temos a ferramenta para mudar essa história — agora, o desafio é usá-la em todo o seu potencial”.
[ Fonte: CNN Brasil ]