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Ciência

Ficar sem sexo faz mal à saúde? O que a ciência já sabe

A frequência sexual varia muito ao longo da vida. Ela muda com a idade, com o corpo, com o relacionamento e com o momento emocional. Ainda assim, uma dúvida insiste em aparecer em consultórios médicos e conversas do dia a dia: ficar muito tempo sem sexo faz mal à saúde? A resposta da ciência é menos dramática do que muita gente imagina — e bem mais interessante.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A abstinência sexual causa danos físicos?

Do ponto de vista médico, a resposta curta é: não. Não existe evidência científica sólida de que a abstinência sexual, por si só, provoque prejuízos físicos diretos ao organismo.

“Em uma pessoa saudável, não há comprovação de que ficar meses ou até anos sem sexo cause danos ao corpo”, explica a uroginecologista Rebeka Cavalcanti, da Sociedade Brasileira de Urologia. Segundo ela, o que muitos estudos mostram é uma correlação — não uma relação de causa e efeito.

Ou seja: pessoas que estão bem física e emocionalmente tendem a ter mais desejo e mais atividade sexual. Isso não significa que o sexo seja o fator responsável direto pela boa saúde.

O ginecologista Juan Félix, da Rede Total Care, reforça o ponto: a falta de sexo não é considerada um fator de risco independente para doenças. Desde que outros aspectos da saúde estejam preservados, o corpo costuma lidar bem com períodos prolongados sem atividade sexual.

Sexo faz bem à saúde ou isso é mito?

Ficar sem sexo faz mal à saúde? O que a ciência já sabe
© Pexels

A ideia de que sexo “faz bem” vem de estudos que associam vida sexual ativa a menor estresse, melhores indicadores cardiovasculares e até perfis hormonais mais favoráveis. Pesquisas publicadas em revistas científicas importantes encontraram essas relações ao longo dos anos.

Mas os próprios autores fazem a ressalva: associação não é causa.

“Pode ser que pessoas que dormem melhor, se exercitam e têm menos estresse também façam mais sexo — e isso puxe os resultados”, explica Rebeka. Até hoje, a ciência não conseguiu provar que o sexo, isoladamente, previne infarto ou outras doenças.

O que está bem documentado são efeitos de curto prazo. Durante a excitação e o orgasmo, há liberação de dopamina, oxitocina e endorfina, substâncias ligadas ao prazer e ao relaxamento. O efeito existe, mas é transitório.

Ficar sem sexo afeta a saúde íntima?

Entre mulheres em idade reprodutiva, os especialistas são claros: ficar sem sexo não altera o pH vaginal, não reduz a lubrificação basal nem aumenta o risco de infecções. Esses fatores dependem muito mais do equilíbrio hormonal, da microbiota vaginal, do estresse e do sono.

Isso não significa que a atividade sexual seja irrelevante. A relação regular pode ajudar a manter a elasticidade e a vascularização da mucosa vaginal, graças ao estímulo mecânico e ao aumento do fluxo sanguíneo local.

Na menopausa, o cenário muda — mas não por causa da falta de sexo. O ressecamento e a dor estão ligados principalmente à queda do estrogênio, na chamada síndrome geniturinária da menopausa. Mesmo mulheres sexualmente ativas podem ter sintomas se não tratam a causa hormonal.

Masturbação entra nessa conta?

Sim. Parte dos efeitos fisiológicos atribuídos ao sexo também acontece com a masturbação. O orgasmo, com ou sem parceiro, aumenta o fluxo sanguíneo genital, favorece a lubrificação e promove relaxamento.

“Do ponto de vista do corpo, os benefícios da excitação não dependem necessariamente de outra pessoa”, explica Rebeka. O que não se replica são os aspectos relacionais, como vínculo, intimidade e troca afetiva.

Quando a falta de sexo vira um problema emocional

Se fisicamente o corpo costuma lidar bem com a abstinência, o impacto emocional varia bastante. Para a psicóloga Vivianne Beserra, o sofrimento não está na falta de sexo em si, mas no significado que ela assume.

“Quando há acordo e bem-estar, a falta de sexo pode ser neutra. O problema surge quando um deseja e o outro não”, explica. Nesse caso, entra em cena a sensação de rejeição — que costuma doer mais do que a ausência de sexo.

Ela também diferencia abstinência voluntária da involuntária. Quando o desejo existe, mas não é atendido, o sofrimento tende a ser maior e pode afetar autoestima e identidade.

Não existe frequência sexual “normal”

Esse é um dos maiores consensos entre especialistas. Não existe número mágico, tabela ou padrão ideal. A frequência sexual muda ao longo da vida e varia de pessoa para pessoa — e até dentro do mesmo relacionamento.

“O problema não é ficar sem sexo”, resume Rebeka Cavalcanti. “O problema é o que essa ausência revela.” Entender o contexto, o desejo e o bem-estar emocional costuma ser muito mais importante do que contar quantas vezes isso acontece.

[Fonte: G1 – Globo]

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