Apesar de prometer repatriar mais de 240 venezuelanos, os Estados Unidos enviaram apenas 71 pessoas em um voo para Caracas. A redução drástica no número de deportados e a denúncia de que uma criança foi separada dos pais reacenderam tensões entre os governos de Joe Biden e Nicolás Maduro. O episódio tem forte repercussão humanitária e já virou tema central da campanha política na Venezuela.
Repatriação incompleta e sem explicações claras
Na noite de quarta-feira, pousou no aeroporto de Maiquetía um avião da Conviasa, estatal venezuelana, vindo dos Estados Unidos com escala em Honduras. Esperava-se o retorno de 244 migrantes deportados, mas apenas 71 pessoas desembarcaram: 62 homens e 9 mulheres, sem crianças a bordo.
O ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, classificou o episódio como uma demonstração do “caos administrativo” norte-americano. Segundo ele, as autoridades venezuelanas prepararam um avião de grande porte para receber todos os repatriados confirmados, mas o número foi reduzido sucessivamente sem justificativa.
Redução no número e acusações de desorganização
Cabello afirmou que os Estados Unidos comunicaram inicialmente o envio de 244 pessoas, depois baixaram o número para 170, mais tarde 140, até chegar aos 71 que de fato chegaram à Venezuela. “Não respeitam os protocolos de repatriação”, criticou o ministro em seu programa de TV Con el mazo dando.
Desde o retorno de Donald Trump à presidência, mais de 3.000 venezuelanos já foram deportados, segundo números divulgados pelo governo de Maduro, em voos da Conviasa ou fretados por autoridades americanas.

O caso Maikelys: uma separação que revolta
A situação se agravou com a denúncia de que Maikelys Espinoza, uma menina venezuelana de dois anos, foi separada dos pais durante a deportação. Cabello acusou o governo americano de manter a criança sob custódia alegando que seus pais seriam “criminosos”.
O governo venezuelano considera a retenção da menor como “sequestro” e transformou o caso em bandeira de campanha. Diversos candidatos ligados ao chavismo prometeram atuar para garantir a reunificação familiar e denunciar a política migratória dos EUA.
Repercussão política e apelo humanitário
A crise migratória venezuelana já é um dos maiores desafios humanitários do continente. O episódio recente reacende o debate sobre os direitos dos migrantes, a eficácia dos acordos de deportação e o tratamento dado a famílias inteiras durante o processo.
Para a Venezuela, trata-se de mais uma frente de confronto diplomático. Para os eleitores, especialmente aqueles com familiares no exterior, a questão assume contornos emocionais que podem influenciar os rumos das eleições regionais marcadas para 25 de maio.