No coração gelado da Ilha de Ross, na Antártida, existe um vulcão diferente de praticamente qualquer outro conhecido. O Monte Erebus, com 3.794 metros de altitude, é o vulcão ativo mais ao sul da Terra e abriga um raro lago de lava permanente. Mas existe outra característica ainda mais surpreendente: todos os dias, ele lança pequenas quantidades de ouro na atmosfera.
Um vulcão que literalmente libera ouro

Pesquisadores já descobriram que os gases emitidos pelo Monte Erebus transportam partículas microscópicas de ouro cristalino. Estimativas baseadas em estudos das emissões do vulcão indicam que aproximadamente 80 gramas do metal precioso podem ser liberados diariamente.
O fenômeno ocorre junto às enormes colunas de gases e vapor produzidas pelo vulcão, além das frequentes explosões estrombolianas registradas em sua cratera.
Embora 80 gramas pareçam pouco, o valor acumulado chama atenção. Dependendo da cotação internacional do ouro, essa quantidade pode representar vários milhares de dólares por dia. Em um ano inteiro, teoricamente, o valor do metal dispersado poderia chegar a milhões.
Isso não significa, porém, que exista uma fortuna esperando para ser recolhida na superfície da Antártida.
O ouro é menor que a espessura de um cabelo
As partículas expelidas pelo Erebus não aparecem como pepitas ou pequenos pedaços facilmente identificáveis. Na realidade, são minúsculos cristais de ouro elemental.
Grande parte deles possui entre 20 e 60 micrômetros de diâmetro. Portanto, são menores que a espessura média de um cabelo humano.
Essa característica torna praticamente impossível recolher o material de maneira economicamente viável. Além disso, as partículas não permanecem concentradas ao redor da cratera.
Os fortes ventos da atmosfera antártica conseguem transportar esse material por enormes distâncias. Cientistas encontraram evidências de partículas provenientes do vulcão em amostras coletadas a mais de mil quilômetros do Monte Erebus.
Por que o Monte Erebus produz ouro?
A explicação está na composição química do magma existente sob o vulcão.
O Erebus possui um sistema magmático particularmente rico em elementos alcalinos e diferentes metais. À medida que os gases extremamente quentes atravessam o lago de lava e chegam à superfície, eles carregam pequenas quantidades desses elementos.
Quando entram em contato com o ambiente extremamente frio da Antártida, alguns materiais presentes nos gases podem se condensar e formar partículas sólidas.
Entre os elementos identificados estão ouro, prata e cobre. No caso do ouro, determinadas condições permitem a formação de pequenos cristais que acabam lançados na atmosfera.
Depois disso, os ventos fazem o restante do trabalho, espalhando essas partículas microscópicas sobre grandes regiões do continente.
Um laboratório natural no lugar mais frio do planeta

Até hoje, o Monte Erebus é considerado um caso excepcional pela capacidade de liberar continuamente partículas de ouro cristalino na atmosfera. No entanto, o metal precioso representa apenas uma pequena parte da importância científica desse vulcão.
Seu lago de lava permanente oferece aos pesquisadores uma oportunidade rara de acompanhar processos relacionados à circulação do magma, à liberação de gases e ao comportamento de um sistema vulcânico ativo.
Por isso, o Erebus é estudado há décadas.
As condições locais também permitem investigar o que acontece quando materiais provenientes das profundezas da Terra chegam à superfície e encontram uma atmosfera extremamente fria e seca.
Apesar da quantidade de ouro envolvida, ninguém deve esperar uma nova corrida pelo metal precioso. Além da dificuldade praticamente insuperável de recuperar partículas tão pequenas e dispersas, a exploração mineral na região é proibida pelas regras internacionais de proteção da Antártida.
Assim, o Monte Erebus continua ativo em meio ao gelo, espalhando silenciosamente pequenas partículas de ouro sobre um dos ambientes mais extremos do planeta.
[ Fonte: La Vanguardia ]