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A Antártida era um dos últimos lugares do planeta imunes ao turismo em massa — agora cientistas alertam para um cenário de quase meio milhão de visitantes por ano

O continente mais isolado da Terra vive uma explosão turística silenciosa. Em apenas três décadas, o número de visitantes aumentou mais de 1.100%, e pesquisadores alertam que a Antártida pode enfrentar impactos ambientais severos caso o atual modelo de exploração continue avançando.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Por muito tempo, a Antártida parecia protegida da turistificação que transformou praias, cidades históricas e paraísos naturais em destinos superlotados. O frio extremo, a distância e a logística complicada mantiveram o continente branco como um dos poucos lugares do planeta relativamente isolados do turismo de massa.

Isso está mudando rapidamente.

Dados recentes mostram que o fluxo de visitantes explodiu nas últimas décadas, impulsionado principalmente pelo crescimento dos cruzeiros polares que partem de Ushuaia, no extremo sul da Argentina. E agora um novo estudo alerta que, se nada mudar, o continente pode receber quase meio milhão de turistas por ano já na próxima década.

O turismo na Antártida cresceu mais de 1.100% em 30 anos

Turismo Na Antártida
© Grafissimo – Getty Images

A transformação é impressionante.

Segundo números da IAATO, a Associação Internacional de Operadores Turísticos da Antártida, o continente recebeu mais de 122 mil visitantes durante a temporada 2023-2024.

Trinta anos atrás, esse número mal chegava a 10 mil pessoas.

Na temporada 1993-1994, pouco mais de 8 mil passageiros desembarcaram na região. Em 2013-2014, o número já ultrapassava 27 mil. Agora, o fluxo turístico bate recordes históricos.

Além dos visitantes que efetivamente pisam no continente, existe também o turismo de observação em cruzeiros, no qual passageiros permanecem embarcados sem desembarcar.

Esse grupo também cresceu rapidamente.

Na última temporada, mais de 43 mil pessoas visitaram a região apenas a bordo de navios turísticos.

Ushuaia virou a principal porta de entrada para o continente branco

Quase toda essa movimentação turística passa por um mesmo lugar: Ushuaia, na Argentina.

A cidade, conhecida como “a mais austral do mundo”, se consolidou como principal ponto de partida dos cruzeiros rumo à Península Antártica.

Segundo a IAATO, cerca de 98% das viagens turísticas se concentram nessa região do continente durante o verão austral.

As atividades oferecidas aos turistas incluem:

  • passeios em botes infláveis;
  • desembarques controlados;
  • travessias de caiaque;
  • caminhadas sobre o gelo;
  • escaladas;
  • pernoites em acampamentos polares.

Os turistas norte-americanos lideram esse mercado, representando quase 45% dos visitantes na temporada 2023-2024. Australianos e chineses aparecem logo atrás.

Cientistas temem um salto para quase 500 mil turistas

Europa Perfura O Gelo Da Antártida
© X – @ecoticiasRED

O dado que mais preocupa os pesquisadores está ligado ao futuro.

Um estudo publicado na revista Journal of Sustainable Tourism, liderado pela pesquisadora Valeria Senigaglia, alerta que o atual crescimento pode se tornar explosivo.

Os autores calcularam a média de crescimento anual registrada entre 1992 e 2024: cerca de 14% ao ano.

Se essa tendência continuar, o número de visitantes poderá praticamente quadruplicar até 2033, alcançando cerca de 452 mil turistas por temporada.

E existe um agravante importante: a maior parte dos desembarques ocorre sempre nos mesmos locais da Península Antártica.

Isso concentra pressão ambiental em áreas extremamente frágeis.

O problema não é apenas o turismo — é o impacto acumulado

A Antártida não sofre apenas com visitantes.

Ela já enfrenta mudanças provocadas pelo aquecimento global, alteração das correntes oceânicas, derretimento do gelo e mudanças nos ciclos ecológicos.

O turismo se soma a tudo isso.

Pesquisadores alertam que visitantes podem transportar involuntariamente espécies invasoras, sementes, fungos ou microrganismos presos em roupas, equipamentos e bagagens.

Um dos exemplos mais preocupantes já registrados envolve uma espécie invasora de grama que conseguiu se estabelecer nas Ilhas Shetland do Sul.

A gripe aviária também chegou recentemente a ilhas subantárticas, afetando populações de focas e aves marinhas.

Além disso, existe o impacto indireto provocado pelos próprios cruzeiros: emissões de carbono, poluição marítima e perturbação da fauna local.

Segundo especialistas em ecologia polar, o risco não está apenas em eventos isolados, mas no efeito acumulativo dessas mudanças ao longo do tempo.

A Antártida já possui regras rígidas — mas talvez não sejam suficientes

Diferentemente de outros destinos turísticos, a Antártida possui regulamentações ambientais específicas há décadas.

Desde 1991, o Protocolo de Proteção Ambiental do Tratado Antártico classifica o continente como uma “reserva natural dedicada à paz e à ciência”.

A IAATO também estabelece limites para desembarques, horários de visitação e número máximo de pessoas em determinadas áreas.

O problema é que muitos cientistas acreditam que essas medidas talvez não sejam mais suficientes diante da nova escala do turismo polar.

Para Valeria Senigaglia, o desafio agora é criar um modelo turístico que não apenas controle visitantes, mas preserve o valor ecológico da Antártida para as próximas gerações.

Porque, no fim, o continente mais remoto da Terra talvez esteja descobrindo tarde demais que nem mesmo o gelo consegue frear a expansão do turismo global.

 

[ Fonte: Xataka ]

 

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