Por muito tempo, a Antártida parecia protegida da turistificação que transformou praias, cidades históricas e paraísos naturais em destinos superlotados. O frio extremo, a distância e a logística complicada mantiveram o continente branco como um dos poucos lugares do planeta relativamente isolados do turismo de massa.
Isso está mudando rapidamente.
Dados recentes mostram que o fluxo de visitantes explodiu nas últimas décadas, impulsionado principalmente pelo crescimento dos cruzeiros polares que partem de Ushuaia, no extremo sul da Argentina. E agora um novo estudo alerta que, se nada mudar, o continente pode receber quase meio milhão de turistas por ano já na próxima década.
O turismo na Antártida cresceu mais de 1.100% em 30 anos

A transformação é impressionante.
Segundo números da IAATO, a Associação Internacional de Operadores Turísticos da Antártida, o continente recebeu mais de 122 mil visitantes durante a temporada 2023-2024.
Trinta anos atrás, esse número mal chegava a 10 mil pessoas.
Na temporada 1993-1994, pouco mais de 8 mil passageiros desembarcaram na região. Em 2013-2014, o número já ultrapassava 27 mil. Agora, o fluxo turístico bate recordes históricos.
Além dos visitantes que efetivamente pisam no continente, existe também o turismo de observação em cruzeiros, no qual passageiros permanecem embarcados sem desembarcar.
Esse grupo também cresceu rapidamente.
Na última temporada, mais de 43 mil pessoas visitaram a região apenas a bordo de navios turísticos.
Ushuaia virou a principal porta de entrada para o continente branco
Quase toda essa movimentação turística passa por um mesmo lugar: Ushuaia, na Argentina.
A cidade, conhecida como “a mais austral do mundo”, se consolidou como principal ponto de partida dos cruzeiros rumo à Península Antártica.
Segundo a IAATO, cerca de 98% das viagens turísticas se concentram nessa região do continente durante o verão austral.
As atividades oferecidas aos turistas incluem:
- passeios em botes infláveis;
- desembarques controlados;
- travessias de caiaque;
- caminhadas sobre o gelo;
- escaladas;
- pernoites em acampamentos polares.
Os turistas norte-americanos lideram esse mercado, representando quase 45% dos visitantes na temporada 2023-2024. Australianos e chineses aparecem logo atrás.
Cientistas temem um salto para quase 500 mil turistas

O dado que mais preocupa os pesquisadores está ligado ao futuro.
Um estudo publicado na revista Journal of Sustainable Tourism, liderado pela pesquisadora Valeria Senigaglia, alerta que o atual crescimento pode se tornar explosivo.
Os autores calcularam a média de crescimento anual registrada entre 1992 e 2024: cerca de 14% ao ano.
Se essa tendência continuar, o número de visitantes poderá praticamente quadruplicar até 2033, alcançando cerca de 452 mil turistas por temporada.
E existe um agravante importante: a maior parte dos desembarques ocorre sempre nos mesmos locais da Península Antártica.
Isso concentra pressão ambiental em áreas extremamente frágeis.
O problema não é apenas o turismo — é o impacto acumulado
A Antártida não sofre apenas com visitantes.
Ela já enfrenta mudanças provocadas pelo aquecimento global, alteração das correntes oceânicas, derretimento do gelo e mudanças nos ciclos ecológicos.
O turismo se soma a tudo isso.
Pesquisadores alertam que visitantes podem transportar involuntariamente espécies invasoras, sementes, fungos ou microrganismos presos em roupas, equipamentos e bagagens.
Um dos exemplos mais preocupantes já registrados envolve uma espécie invasora de grama que conseguiu se estabelecer nas Ilhas Shetland do Sul.
A gripe aviária também chegou recentemente a ilhas subantárticas, afetando populações de focas e aves marinhas.
Além disso, existe o impacto indireto provocado pelos próprios cruzeiros: emissões de carbono, poluição marítima e perturbação da fauna local.
Segundo especialistas em ecologia polar, o risco não está apenas em eventos isolados, mas no efeito acumulativo dessas mudanças ao longo do tempo.
A Antártida já possui regras rígidas — mas talvez não sejam suficientes
Diferentemente de outros destinos turísticos, a Antártida possui regulamentações ambientais específicas há décadas.
Desde 1991, o Protocolo de Proteção Ambiental do Tratado Antártico classifica o continente como uma “reserva natural dedicada à paz e à ciência”.
A IAATO também estabelece limites para desembarques, horários de visitação e número máximo de pessoas em determinadas áreas.
O problema é que muitos cientistas acreditam que essas medidas talvez não sejam mais suficientes diante da nova escala do turismo polar.
Para Valeria Senigaglia, o desafio agora é criar um modelo turístico que não apenas controle visitantes, mas preserve o valor ecológico da Antártida para as próximas gerações.
Porque, no fim, o continente mais remoto da Terra talvez esteja descobrindo tarde demais que nem mesmo o gelo consegue frear a expansão do turismo global.
[ Fonte: Xataka ]