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Big Tech destruiu as livrarias. Agora quer cobrar para você fingir que trabalha em uma

Uma livraria na Escócia oferece uma experiência inusitada pelo Airbnb: turistas pagam para passar alguns dias administrando o estabelecimento como se fossem verdadeiros livreiros.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Era uma vez um mundo em que pessoas trabalhavam em livrarias, vendiam livros e recebiam dinheiro por isso. Então chegaram gigantes como a Amazon, o comércio eletrônico transformou o mercado e muitas lojas físicas desapareceram.

Décadas depois, a tecnologia encontrou uma maneira curiosa de trazer essa experiência de volta: agora você pode pagar para fingir que trabalha em uma livraria.

É exatamente essa a proposta de The Open Book, uma pequena loja localizada em Wigtown, na Escócia. Por meio do Airbnb, visitantes podem reservar uma temporada no local e experimentar como seria administrar uma livraria independente.

Sim, você paga para trabalhar — embora, oficialmente, não seja exatamente trabalho.

Uma espécie de férias como livreiro

O anúncio apresenta a experiência como a primeira combinação entre férias e residência em uma livraria.

Os visitantes ficam hospedados em Wigtown, conhecida como a “Cidade Nacional do Livro da Escócia”, e assumem temporariamente a rotina da The Open Book.

Mas existe uma distinção importante.

A descrição deixa claro que não se trata de uma oportunidade de trabalho voluntário e que os hóspedes não recebem dinheiro para administrar o estabelecimento.

A atividade é classificada como turismo cultural. Em outras palavras, o visitante paga pela hospedagem e pela oportunidade de experimentar a vida de um livreiro durante alguns dias.

Uma pequena cidade com cerca de 20 livrarias

Wigtown existe há muito antes dessa experiência turística.

A cidade precisou se reinventar economicamente durante a década de 1990, depois do desaparecimento de atividades tradicionais importantes para a região, incluindo uma destilaria e uma indústria de laticínios.

A solução foi apostar nos livros.

Wigtown se transformou na Cidade Nacional do Livro da Escócia e atualmente reúne cerca de 20 livrarias para uma população inferior a mil habitantes.

O resultado é um destino que mistura uma cidade tradicional com uma espécie de parque temático para apaixonados por literatura.

E justamente esse cenário ajuda a explicar por que turistas estão dispostos a pagar para passar alguns dias atrás do balcão.

A ironia de pagar para experimentar um trabalho

Existe algo curioso nessa proposta.

Administrar uma livraria independente de verdade dificilmente é uma atividade relaxante. Margens pequenas, custos operacionais e a competição com grandes plataformas digitais transformaram o negócio em um desafio econômico.

O mesmo aconteceu com diversas profissões relacionadas aos livros, incluindo a própria atividade de escrever profissionalmente.

Ainda assim, aquilo que perdeu espaço como emprego tradicional reaparece como experiência turística.

É uma inversão quase perfeita: atividades que antes pagavam salários passam a ser vendidas como experiências pelas quais o consumidor desembolsa dinheiro.

E uma plataforma de tecnologia ainda fica com sua parcela da transação.

Mas talvez a ideia não seja tão ruim

Apesar da ironia, existe outro lado dessa história.

A The Open Book afirma que seu objetivo é celebrar os livros e apoiar livrarias independentes. Para uma pequena cidade que construiu parte de sua economia em torno da literatura, atrair visitantes interessados nesse universo pode ajudar a manter os negócios locais funcionando.

Também existe algo genuinamente atraente na experiência.

Para alguém acostumado a passar o dia trabalhando diante de uma tela, organizar livros, conversar com leitores e administrar uma pequena loja em uma cidade escocesa pode parecer exatamente o tipo de férias que gostaria de ter.

Talvez essa seja uma prévia de um futuro estranho.

À medida que automação e inteligência artificial transformam profissões, experiências turísticas poderão recriar trabalhos que um dia foram comuns.

Hoje é possível passar as férias fingindo ser livreiro. Amanhã talvez alguém venda uma semana como músico de uma banda de rock, jornalista de redação ou qualquer outra profissão transformada pela tecnologia.

No fim, a ironia permanece difícil de ignorar: depois de ajudar a transformar profundamente o comércio tradicional, a Big Tech descobriu que a nostalgia pelo mundo anterior também pode virar um produto.

 

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