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Ciência

A dor nas costas pode se misturar à forma como você se vê — e o cérebro oferece uma pista

Estudo com 114 pessoas identificou uma ligação entre crises de dor lombar e uma rede cerebral associada à identidade e às experiências pessoais.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Conviver com dor nas costas durante meses pode transformar decisões cotidianas. Fazer exercício, pegar uma criança no colo ou aceitar um passeio passa a envolver uma pergunta: será que vai doer? Uma pesquisa da Universidade da Califórnia em San Diego investigou o que acontece no cérebro durante essas crises. Os resultados sugerem uma conexão entre a sensação física e os circuitos que usamos para pensar sobre nós mesmos.

O experimento que provocou crises de dor

Dor Espalda
© Imagem gerada por IA.

O estudo publicado no British Journal of Anaesthesia acompanhou 114 participantes com dor lombar crônica. Durante exames de ressonância magnética funcional, eles realizaram um teste de elevação das pernas para provocar uma piora dos sintomas.

A técnica permitiu acompanhar mudanças no fluxo sanguíneo cerebral. Os voluntários também avaliaram a intensidade da dor e o desconforto que sentiam. Em comparação com o repouso deitados, o movimento aumentou essas medidas em 23% e 26%, respectivamente.

Para comparar respostas, os pesquisadores também aplicaram um estímulo térmico doloroso, mas sem causar lesão, na panturrilha dos participantes. Assim, puderam observar a diferença entre uma dor experimental provocada pelo calor e uma crise relacionada ao problema persistente nas costas.

Uma rede ligada ao “eu” entrou em atividade

Durante a elevação das pernas, os cientistas identificaram maior fluxo sanguíneo em regiões centrais da chamada rede de modo padrão, conhecida pela sigla DMN. Também observaram atividade em áreas envolvidas no processamento da dor e do movimento.

Além disso, participantes com dor crônica mais intensa apresentaram maior conectividade, em repouso, entre essa rede e a região do córtex somatossensorial que representa as costas.

A DMN participa de processos como refletir sobre sentimentos, recordar experiências pessoais e pensar na própria identidade. No teste com calor, sua atividade diminuiu. Já nas crises lombares desencadeadas pelo movimento, ela aumentou, segundo a explicação divulgada pela universidade. today.ucsd.edu

O que isso permite concluir?

Os resultados apontam uma associação entre o processamento da dor e circuitos ligados à autorreferência. Entretanto, o estudo é observacional: ele não demonstra que esses circuitos causam a dor nem que o sintoma se torna, literalmente, um traço de personalidade.

Também não permite concluir que todas as pessoas com dor lombar crônica apresentam o mesmo padrão. O experimento examinou uma situação específica: crises provocadas por movimento em participantes que já conviviam com o problema.

A interpretação dos autores é que lembranças de episódios anteriores e expectativas sobre novas crises podem se integrar à experiência dolorosa. Essa hipótese ajuda a investigar por que o impacto da condição alcança atividades, emoções e a percepção que alguém tem das próprias capacidades.

As possibilidades de tratamento ainda exigem investigação

A equipe estuda abordagens como meditação baseada em atenção plena e psilocibina para tentar modificar a relação dos pacientes com a dor. A universidade classifica os resultados iniciais como preliminares e informa que novos ensaios clínicos estão em andamento.

O estudo de imagem cerebral, por si só, não comprova a eficácia dessas intervenções. Em especial, a investigação com psilocibina permanece experimental nesse contexto.

Enquanto essas pesquisas avançam, as diretrizes da Organização Mundial da Saúde já defendem um cuidado integrado para a dor lombar crônica primária. Essa categoria envolve sintomas persistentes que não decorrem de uma doença subjacente identificada.

A OMS recomenda adaptar o tratamento às necessidades de cada pessoa, considerando fatores físicos, psicológicos e sociais. Entre as opções estão educação para o autocuidado, programas de exercícios, algumas terapias físicas, intervenções psicológicas e medicamentos quando apropriados. A combinação depende da avaliação clínica.

A nova pesquisa acrescenta uma pista biológica a essa abordagem: compreender uma crise pode exigir observar tanto os circuitos que processam sensações quanto aqueles que relacionam essas sensações à experiência pessoal. Ainda falta descobrir como transformar essa conexão em tratamentos mais eficazes.

 

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