O aquecimento global pode estar afetando a saúde de milhões de mulheres grávidas de uma maneira ainda pouco conhecida. Uma investigação internacional da Reuters revelou que a exposição a ondas de calor durante as últimas semanas da gestação está associada a um aumento de até 18% na taxa de nascimentos prematuros. Os riscos não se limitam aos países mais quentes e podem atingir gestantes em regiões de clima temperado.
Calor extremo pode aumentar o risco de parto prematuro

Uma investigação publicada pela Reuters em 30 de outubro de 2026 identificou uma relação preocupante entre o aumento das temperaturas e complicações durante a gravidez.
A agência analisou aproximadamente 8,3 milhões de registros de nascimento no México, entre 2008 e 2025, combinando informações sobre partos com dados meteorológicos.
Os resultados mostraram que, entre mulheres que não enfrentaram ondas de calor nas quatro semanas anteriores ao parto, a taxa de prematuridade foi de 7,2%.
Já entre aquelas submetidas aos níveis mais extremos de exposição, o percentual chegou a 8,5%.
A diferença representa um aumento relativo de aproximadamente 18% na taxa de nascimentos prematuros.
O levantamento também identificou uma tendência progressiva: quanto maior a exposição ao calor, maior a frequência de partos antes das 37 semanas de gestação.
Entretanto, os pesquisadores ressaltam que os resultados demonstram uma associação estatística, não uma relação definitiva de causa e efeito. Outros fatores, como condições de saúde e desigualdades sociais, também podem influenciar os resultados.
O que são as tempestades de calor?

Para compreender a dimensão do fenômeno, a Reuters desenvolveu uma classificação chamada heat storms, ou tempestades de calor.
O termo descreve ondas de calor gigantescas que, em seu momento de maior extensão, cobrem pelo menos 1% da superfície do planeta.
A definição foi elaborada pela agência em colaboração com cientistas climáticos e não representa uma classificação meteorológica universalmente adotada.
Segundo a investigação, esses eventos estão se tornando mais frequentes e abrangentes.
Na década de 1960, foram identificadas aproximadamente 50 tempestades de calor. Já na década de 2020, até outubro de 2026, o número ultrapassou 665.
O maior episódio analisado alcançou, ao longo de sua duração, áreas equivalentes a quase 85% do planeta.
Essas mudanças indicam que o calor extremo deixou de ser um fenômeno restrito a determinadas regiões e passou a representar um desafio global de saúde pública.
Por que temperaturas elevadas podem prejudicar a gravidez?
Os mecanismos biológicos ainda estão sendo investigados, mas existem algumas hipóteses.
Uma delas sugere que, durante períodos de calor intenso, o organismo materno direciona mais sangue para a pele, tentando reduzir a temperatura corporal.
Essa resposta poderia alterar a circulação sanguínea destinada à placenta, responsável pelo fornecimento de oxigênio e nutrientes ao feto.
Outra possibilidade envolve o aumento da sobrecarga cardiovascular materna e fetal.
Pesquisas também associam temperaturas elevadas a maior ocorrência de hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia, abortos espontâneos e natimortos.
Uma revisão de quase 200 estudos, publicada na revista científica Nature Medicine, reforçou as evidências de que o calor pode representar um fator adicional de risco durante a gravidez.
Os especialistas destacam, porém, que ainda são necessários estudos para compreender melhor os mecanismos envolvidos e identificar as estratégias preventivas mais eficazes.
Pesquisadora enfrentou complicações durante uma onda de calor
A investigação apresenta a história de Darshnika Lakhoo, pesquisadora sul-africana que estudava os efeitos das temperaturas elevadas sobre a gestação.
Em novembro de 2024, enquanto estava grávida de gêmeos, Lakhoo enfrentou uma onda de calor em Joanesburgo, com temperaturas superiores a 30 °C.
Durante a gravidez, desenvolveu três complicações graves e acabou entrando em trabalho de parto seis semanas antes do previsto.
O episódio ocorreu poucos dias depois da publicação de um estudo científico do qual participou.
Embora não seja possível determinar quanto o calor contribuiu para suas complicações, o caso ilustra uma preocupação crescente entre especialistas.
Gravidezes múltiplas, doenças preexistentes e outras condições de risco podem aumentar a vulnerabilidade materna diante de temperaturas elevadas.
O perigo também existe em regiões de clima ameno
Um dos resultados mais importantes da investigação é que o risco não depende exclusivamente de temperaturas extremamente altas.
Pesquisadores identificaram associações entre calor e complicações gestacionais em países com condições climáticas muito diferentes, incluindo Austrália, China, África do Sul e Estados Unidos.
Isso acontece porque temperaturas acima do padrão habitual de uma região também podem representar estresse térmico significativo.
Assim, uma onda de calor em uma cidade normalmente amena pode apresentar riscos, mesmo sem atingir os valores registrados em regiões desérticas.
Para o Brasil, onde diferentes regiões enfrentam ondas de calor cada vez mais intensas, os resultados reforçam a necessidade de considerar a saúde materna nas políticas de adaptação climática.
Como gestantes podem se proteger durante ondas de calor?
Embora ainda não exista uma estratégia capaz de eliminar todos os riscos, medidas preventivas podem reduzir a exposição ao calor.
Entre as recomendações estão manter hidratação adequada, permanecer em ambientes frescos, evitar atividades físicas intensas nos horários mais quentes e acompanhar os alertas meteorológicos.
Gestantes também devem procurar orientação médica diante de sintomas como tontura persistente, fraqueza intensa, sinais de desidratação ou contrações.
A investigação destaca que a proteção não depende apenas de decisões individuais. O acesso à climatização, moradias adequadas e serviços de saúde também influencia a vulnerabilidade das mulheres.
O avanço das tempestades de calor evidencia que as consequências das mudanças climáticas vão além do desconforto térmico e podem atingir etapas especialmente delicadas da vida humana.