O que um bebê percebe durante suas primeiras horas de vida? Embora ainda não consiga falar ou compreender o mundo como um adulto, seu cérebro pode ser mais consciente do ambiente do que imaginávamos. Pesquisas recentes identificaram respostas a estímulos inesperados e redes neurais relacionadas à atenção, sugerindo que formas elementares de consciência podem existir desde os primeiros dias após o nascimento.
A consciência pode surgir muito antes do que imaginávamos

Durante décadas, cientistas tentaram responder a uma pergunta aparentemente simples: em que momento da vida humana surge a consciência?
Uma revisão científica publicada na revista Neuron reuniu evidências que apontam para a possibilidade de experiências conscientes já nas primeiras semanas de vida.
O trabalho, conduzido por Claudia Passos-Ferreira, pesquisadora do Centro de Bioética da Universidade de Nova York (NYU), analisou estudos sobre atividade cerebral, atenção e respostas sensoriais de recém-nascidos.
A principal hipótese é que bebês possam experimentar sensações e perceber determinados acontecimentos ao redor, mesmo sem possuir linguagem ou pensamentos elaborados.
Isso não significa que tenham consciência semelhante à de adultos. A experiência de um recém-nascido provavelmente é muito mais elementar, relacionada a estímulos como sons, luzes e sensações corporais.
A dificuldade está em demonstrar cientificamente essa experiência. Como os bebês não conseguem explicar o que sentem, os pesquisadores precisam interpretar sinais indiretos do funcionamento cerebral.
Um experimento com sons revelou pistas surpreendentes

Uma das descobertas mais interessantes envolve a maneira como recém-nascidos reagem a sequências de sons.
Nos experimentos analisados, pesquisadores apresentam uma série de tons organizados em determinado padrão. Depois, introduzem uma alteração inesperada e observam a atividade cerebral dos bebês.
Os resultados indicam que recém-nascidos com apenas alguns dias de vida conseguem apresentar respostas neurais a essas mudanças.
Em adultos, determinadas respostas a alterações complexas em sequências auditivas estão associadas à percepção consciente.
Essa semelhança sugere que os bebês podem possuir mecanismos iniciais de percepção consciente.
Entretanto, existe uma ressalva importante: detectar uma mudança não significa necessariamente percebê-la de maneira consciente.
O cérebro humano consegue processar diversos estímulos automaticamente, sem que eles cheguem à experiência subjetiva.
Por isso, pesquisadores consideram esses resultados promissores, mas insuficientes para estabelecer uma conclusão definitiva.
O cérebro dos recém-nascidos já possui redes relacionadas à atenção
Outra linha de investigação examina as conexões entre diferentes regiões cerebrais.
Um estudo de Hao Hu, Richard Cusack e Lorina Naci, publicado na revista científica Brain Communications, analisou a organização dessas redes em bebês nascidos a termo e prematuros avaliados em idade equivalente.
Os cientistas identificaram estruturas de conectividade associadas à atenção e à atividade cerebral em repouso.
Nos adultos, essas redes participam de processos relacionados à percepção do ambiente e aos estados internos.
A descoberta indica que parte dessa organização já está presente no nascimento ou pouco depois dele.
No entanto, as conexões ainda não apresentam a mesma maturidade observada em adultos.
Isso sugere que a arquitetura cerebral relacionada à consciência começa a se desenvolver precocemente e continua passando por transformações importantes durante a infância.
A presença dessas redes, isoladamente, não comprova que o bebê tenha experiências conscientes.
Como os cientistas tentam descobrir se um bebê é consciente?
Para investigar a consciência infantil, pesquisadores precisam combinar diferentes métodos.
Uma revisão publicada na revista Acta Paediatrica, assinada por Joel Frohlich e Tim Bayne, defende a utilização de múltiplos indicadores cerebrais e comportamentais.
Essa abordagem evita que uma única reação seja interpretada como prova definitiva de consciência.
Os pesquisadores consideram sinais relacionados à atenção, integração sensorial, conectividade cerebral e detecção de acontecimentos inesperados.
A análise sugere que a consciência provavelmente está presente aos cinco meses de idade, possivelmente muito antes.
Em uma pesquisa publicada em 2026 na revista Neuroscience of Consciousness, cientistas também consultaram especialistas sobre o início da experiência consciente.
A maioria dos participantes considerou provável que recém-nascidos já possuam alguma forma de consciência. Entretanto, as opiniões divergiram sobre o momento exato em que ela surge.
O que essa descoberta pode mudar na medicina?
Compreender quando começa a consciência humana pode ter consequências importantes para os cuidados neonatais.
Uma das questões envolve a avaliação da dor e do desconforto em bebês que ainda não conseguem se comunicar verbalmente.
O conhecimento sobre o desenvolvimento cerebral também pode contribuir para pesquisas sobre anestesia, atenção e experiências sensoriais nos primeiros meses.
No entanto, os resultados não representam uma nova ferramenta clínica capaz de determinar se um recém-nascido está consciente.
A ciência ainda precisa estabelecer quais indicadores são confiáveis nessa fase da vida.
A conclusão mais importante é que o cérebro de um bebê não deve ser entendido como uma estrutura passiva à espera de amadurecimento. Desde os primeiros dias, ele apresenta atividades complexas que podem estar relacionadas às formas mais básicas da experiência humana.