Pular para o conteúdo
Ciência

Bebês podem ter consciência desde os primeiros dias de vida, sugerem estudos sobre o cérebro

Pesquisas revelam que recém-nascidos identificam mudanças em sons e apresentam conexões cerebrais associadas à consciência, levantando novas questões sobre quando começamos a perceber o mundo.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

O que um bebê percebe durante suas primeiras horas de vida? Embora ainda não consiga falar ou compreender o mundo como um adulto, seu cérebro pode ser mais consciente do ambiente do que imaginávamos. Pesquisas recentes identificaram respostas a estímulos inesperados e redes neurais relacionadas à atenção, sugerindo que formas elementares de consciência podem existir desde os primeiros dias após o nascimento.

A consciência pode surgir muito antes do que imaginávamos

Bebês podem ter consciência desde os primeiros dias de vida, sugerem estudos sobre o cérebrBebês podem ter consciência desde os primeiros dias de vida, sugerem estudos sobre o cérebro)
© Pexels

Durante décadas, cientistas tentaram responder a uma pergunta aparentemente simples: em que momento da vida humana surge a consciência?

Uma revisão científica publicada na revista Neuron reuniu evidências que apontam para a possibilidade de experiências conscientes já nas primeiras semanas de vida.

O trabalho, conduzido por Claudia Passos-Ferreira, pesquisadora do Centro de Bioética da Universidade de Nova York (NYU), analisou estudos sobre atividade cerebral, atenção e respostas sensoriais de recém-nascidos.

A principal hipótese é que bebês possam experimentar sensações e perceber determinados acontecimentos ao redor, mesmo sem possuir linguagem ou pensamentos elaborados.

Isso não significa que tenham consciência semelhante à de adultos. A experiência de um recém-nascido provavelmente é muito mais elementar, relacionada a estímulos como sons, luzes e sensações corporais.

A dificuldade está em demonstrar cientificamente essa experiência. Como os bebês não conseguem explicar o que sentem, os pesquisadores precisam interpretar sinais indiretos do funcionamento cerebral.

Um experimento com sons revelou pistas surpreendentes

Bebês podem ter consciência desde os primeiros dias de vida, sugerem estudos sobre o cérebro
© Pexels

Uma das descobertas mais interessantes envolve a maneira como recém-nascidos reagem a sequências de sons.

Nos experimentos analisados, pesquisadores apresentam uma série de tons organizados em determinado padrão. Depois, introduzem uma alteração inesperada e observam a atividade cerebral dos bebês.

Os resultados indicam que recém-nascidos com apenas alguns dias de vida conseguem apresentar respostas neurais a essas mudanças.

Em adultos, determinadas respostas a alterações complexas em sequências auditivas estão associadas à percepção consciente.

Essa semelhança sugere que os bebês podem possuir mecanismos iniciais de percepção consciente.

Entretanto, existe uma ressalva importante: detectar uma mudança não significa necessariamente percebê-la de maneira consciente.

O cérebro humano consegue processar diversos estímulos automaticamente, sem que eles cheguem à experiência subjetiva.

Por isso, pesquisadores consideram esses resultados promissores, mas insuficientes para estabelecer uma conclusão definitiva.

O cérebro dos recém-nascidos já possui redes relacionadas à atenção

Outra linha de investigação examina as conexões entre diferentes regiões cerebrais.

Um estudo de Hao Hu, Richard Cusack e Lorina Naci, publicado na revista científica Brain Communications, analisou a organização dessas redes em bebês nascidos a termo e prematuros avaliados em idade equivalente.

Os cientistas identificaram estruturas de conectividade associadas à atenção e à atividade cerebral em repouso.

Nos adultos, essas redes participam de processos relacionados à percepção do ambiente e aos estados internos.

A descoberta indica que parte dessa organização já está presente no nascimento ou pouco depois dele.

No entanto, as conexões ainda não apresentam a mesma maturidade observada em adultos.

Isso sugere que a arquitetura cerebral relacionada à consciência começa a se desenvolver precocemente e continua passando por transformações importantes durante a infância.

A presença dessas redes, isoladamente, não comprova que o bebê tenha experiências conscientes.

Como os cientistas tentam descobrir se um bebê é consciente?

Para investigar a consciência infantil, pesquisadores precisam combinar diferentes métodos.

Uma revisão publicada na revista Acta Paediatrica, assinada por Joel Frohlich e Tim Bayne, defende a utilização de múltiplos indicadores cerebrais e comportamentais.

Essa abordagem evita que uma única reação seja interpretada como prova definitiva de consciência.

Os pesquisadores consideram sinais relacionados à atenção, integração sensorial, conectividade cerebral e detecção de acontecimentos inesperados.

A análise sugere que a consciência provavelmente está presente aos cinco meses de idade, possivelmente muito antes.

Em uma pesquisa publicada em 2026 na revista Neuroscience of Consciousness, cientistas também consultaram especialistas sobre o início da experiência consciente.

A maioria dos participantes considerou provável que recém-nascidos já possuam alguma forma de consciência. Entretanto, as opiniões divergiram sobre o momento exato em que ela surge.

O que essa descoberta pode mudar na medicina?

Compreender quando começa a consciência humana pode ter consequências importantes para os cuidados neonatais.

Uma das questões envolve a avaliação da dor e do desconforto em bebês que ainda não conseguem se comunicar verbalmente.

O conhecimento sobre o desenvolvimento cerebral também pode contribuir para pesquisas sobre anestesia, atenção e experiências sensoriais nos primeiros meses.

No entanto, os resultados não representam uma nova ferramenta clínica capaz de determinar se um recém-nascido está consciente.

A ciência ainda precisa estabelecer quais indicadores são confiáveis nessa fase da vida.

A conclusão mais importante é que o cérebro de um bebê não deve ser entendido como uma estrutura passiva à espera de amadurecimento. Desde os primeiros dias, ele apresenta atividades complexas que podem estar relacionadas às formas mais básicas da experiência humana.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados