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Ciência

Um filhote com 894 pedaços de plástico expõe uma crise crescente nos oceanos

Monitoramento na Austrália revela aumento da contaminação em aves marinhas e mostra como pesquisas curtas podem esconder a gravidade do problema.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante anos, cientistas tentaram entender se o acúmulo de resíduos nos oceanos continuava avançando ou começava a se estabilizar. As oscilações de um ano para outro dificultavam a resposta. Agora, um acompanhamento de quinze temporadas reprodutivas na Austrália revelou um aumento acentuado na quantidade de plástico encontrada em filhotes de aves marinhas.

O cenário fica na ilha de Lord Howe, uma área protegida. A distância de atividades industriais, porém, não impede a chegada da poluição. Os adultos de uma espécie de pardela que faz ninhos em tocas percorrem centenas de quilômetros em busca de alimento no oceano aberto.

Durante essas viagens, as aves confundem lixo com comida. Ao retornar aos ninhos, transferem os resíduos aos filhotes por regurgitação. Assim, o plástico ameaça a sobrevivência das crias antes mesmo do primeiro voo.

Uma equipe liderada pela cientista marinha Jennifer Lavers investigou a dimensão desse problema. O trabalho, publicado na revista Earth’s Future, reuniu registros entre 2010 e 2026 para acompanhar a quantidade e a massa de plástico nos filhotes.

A proporção de aves contaminadas permaneceu relativamente estável, entre 75% e 85%. Entretanto, a carga de resíduos nos indivíduos mais afetados cresceu rapidamente a partir de 2022.

Quase 900 fragmentos em um único filhote

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© Naja Bertolt Jensen – Unsplash

Em 2011, os pesquisadores encontraram 276 pedaços de plástico, com massa total de 64 gramas, em um filhote de noventa dias. Na época, o registro já parecia representar um limite extremo para o organismo de uma ave tão jovem.

Os anos seguintes trouxeram números ainda mais preocupantes. Em 2023, a equipe encontrou 403 fragmentos em uma ave prestes a deixar o ninho. Em 2024, foram 407. Já em 2025, um único filhote acumulava 894 resíduos plásticos.

Esses objetos pesavam 64,2 gramas, mais de 15% da massa corporal do animal. Em termos proporcionais, seria como uma pessoa de 80 quilos carregar aproximadamente 12 quilos de plástico dentro do corpo.

Entre os materiais encontrados estavam tampinhas de garrafas e pequenos grânulos de resina industrial, usados como matéria-prima na fabricação de embalagens e outros produtos plásticos.

As necropsias de aves que morreram antes de conseguir voar revelaram danos importantes no aparelho digestivo. Além de ocupar espaço, os resíduos estavam associados à formação extensa de cicatrizes no estômago e a lesões nos tecidos próximos, comprometendo a absorção de nutrientes essenciais.

Pesquisas curtas podem esconder a tendência

O estudo também chama a atenção para uma dificuldade na avaliação da poluição: períodos curtos de acompanhamento podem produzir conclusões enganosas.

Segundo o grupo científico Adrift Lab, se a pesquisa tivesse durado apenas três anos, o resultado dependeria muito do intervalo escolhido. Alguns períodos indicariam aumento na ingestão de plástico. Outros sugeririam estabilidade ou até redução.

Isso acontece porque a contaminação não avança de maneira uniforme. Ela apresenta saltos repentinos, que as oscilações anuais podem esconder.

Para avaliar esse efeito, os pesquisadores simularam quais conclusões surgiriam se o monitoramento no mar da Tasmânia tivesse ocorrido em projetos separados, com duração de três a cinco anos.

Os resultados foram contraditórios. Somente a análise da série completa permitiu identificar com clareza a aceleração recente. A constatação reforça a importância de pesquisas prolongadas, especialmente quando seus resultados orientam políticas ambientais.

Menos alimento, mais vulnerabilidade

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© Pexels

O avanço da contaminação acompanha uma piora na condição física dos filhotes. Na última década, eles perderam cerca de 25% da massa corporal, com uma redução anual de aproximadamente 16,1 gramas.

O quadro sugere dificuldades dos adultos para encontrar peixes e lulas. Ao mesmo tempo, materiais sem valor nutricional chegam aos ninhos e se acumulam no proventrículo, a primeira parte glandular do estômago das aves, onde começa a digestão.

A combinação de águas mais quentes, dificuldade de alimentação e resíduos persistentes amplia os riscos para essas populações.

O trabalho aponta medidas capazes de reduzir parte da contaminação. Entre elas estão o uso de tampas presas às garrafas, como exige a União Europeia, e controles industriais para impedir o vazamento de grânulos plásticos.

Diante do impasse nas negociações de um tratado global vinculante sobre plásticos, os pesquisadores defendem uma resposta à altura da velocidade do problema. Para os filhotes que recebem lixo no lugar de alimento, a proteção da ilha onde nasceram já não basta.

 

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