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Ciência

Uma camada crucial do oceano está ficando mais salgada na Antártida — e os efeitos podem chegar longe

A perda de gelo marinho está alterando uma massa de água que transporta calor, carbono e nutrientes. Segundo pesquisadores, uma transformação comparável ocorreu há cerca de 130 mil anos, mas em um ritmo muito mais lento.
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A redução acelerada do gelo marinho da Antártida está modificando uma engrenagem importante do clima terrestre. Uma nova pesquisa indica que a Água Intermediária Antártica, conhecida pela sigla AAIW, está ficando mais salgada, mais densa e mais profunda. Essa massa de água conecta o Oceano Austral a outras regiões do planeta, e suas mudanças podem afetar o armazenamento de calor, a absorção de carbono e os padrões climáticos nas próximas décadas.

O que está mudando sob o oceano

A AAIW é uma massa de água relativamente pouco salgada e rica em oxigênio, encontrada aproximadamente entre 700 e 1.200 metros de profundidade. Ela forma uma faixa de transição entre as águas superiores mais quentes e o interior frio do oceano.

Ao se espalhar em direção ao norte pelos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, transporta calor, carbono, oxigênio e nutrientes. Por isso, suas características influenciam processos que vão muito além das águas próximas à Antártida.

O estudo, publicado na Nature Climate Change, aponta uma alteração nessa estrutura: o aumento da salinidade torna a água mais densa e contribui para que seu núcleo ocupe profundidades maiores.

Segundo o autor principal, Bishakhdatta Gayen, pesquisador da Universidade de Melbourne e do Centro de Ciências Atmosféricas e Oceânicas em Bengaluru, na Índia, uma transformação comparável ocorreu no fim do último período interglacial, há aproximadamente 130 mil anos.

A diferença está na velocidade. Na comparação apresentada pelo pesquisador, aquela transição levou milhares de anos, enquanto as mudanças atuais se desenrolam em poucas décadas.

Menos gelo significa menos água doce no verão

O derretimento sazonal do gelo marinho ajuda a manter a baixa salinidade dessa massa de água. Durante o verão do Hemisfério Sul, o gelo libera água doce no oceano e dilui a água salgada ao redor.

Esse abastecimento começou a mudar com a forte redução do gelo antártico a partir de 2016. Apenas dois anos antes, em 2014, sua extensão no inverno havia alcançado um recorde.

Com menos gelo disponível para derreter no verão, diminui uma das fontes de água doce que alimentam a AAIW. O resultado é uma alteração gradual em sua composição.

Isso também ajuda a compreender uma distinção importante: a formação e o derretimento do gelo marinho fazem parte de um ciclo sazonal. A redução persistente desse gelo modifica a quantidade de água doce que retorna ao oceano a cada verão.

Robôs identificaram o aumento da salinidade

Para investigar a transformação, os cientistas utilizaram dados do programa Argo, uma rede global de quase 4 mil flutuadores robóticos que medem temperatura e salinidade até cerca de 2 mil metros de profundidade. A equipe também analisou informações de satélites e conjuntos de dados atmosféricos.

Os resultados indicam que a salinidade no núcleo da AAIW cresce aproximadamente 0,005 grama de sal por quilograma de água a cada década.

O valor parece pequeno quando observado isoladamente. Entretanto, mudanças discretas de salinidade podem alterar a densidade da água e, com isso, sua posição e circulação no oceano.

Como essa massa de água ocupa uma região extensa e participa do transporte entre diferentes bacias oceânicas, o efeito acumulado merece atenção.

As consequências podem ultrapassar a Antártida

Os oceanos absorvem parte do excesso de calor e do carbono presentes na atmosfera. A circulação entre a superfície e as camadas profundas ajuda a determinar quanto desse material permanece armazenado e por quanto tempo.

Se a transformação da AAIW modificar esse transporte, poderá afetar a capacidade do oceano de reter carbono. Gayen ressalta, porém, que a dimensão e o momento desses efeitos ainda são incertos.

Mudanças na distribuição do calor também podem influenciar o nível regional do mar, a circulação atmosférica, as trajetórias das tempestades e os padrões de chuva.

Existe ainda a possibilidade de um ciclo de retroalimentação: alterações no armazenamento de calor podem favorecer novas perdas de gelo marinho, reduzindo novamente o aporte sazonal de água doce.

Um sinal que se soma a outras mudanças

O resultado acompanha outras evidências de transformação no Oceano Austral. Uma análise publicada em 2025 identificou aumento da salinidade superficial desde 2015.

Outro estudo sobre o mínimo de gelo de 2023 relacionou aquela condição excepcional a uma maior perda de calor do oceano e à intensificação da atividade de tempestades.

Essas pesquisas observam partes diferentes de um sistema conectado. A nova análise acrescenta uma mudança em profundidade, mostrando que a perda de gelo também pode reorganizar as propriedades das águas abaixo da superfície.

Acompanhar essa evolução será importante para melhorar as projeções climáticas. O estudo aponta um processo em andamento, mas seus efeitos futuros dependerão de como o gelo, a atmosfera e a circulação oceânica responderão uns aos outros.

 

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