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Ciência

A fonte de energia que quase ninguém comenta pode revolucionar o setor elétrico

Enquanto o mundo aposta em painéis solares e turbinas eólicas, uma tecnologia que aproveita o calor escondido nas profundezas da Terra começa a revelar um potencial surpreendente para transformar o setor elétrico.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A corrida por uma matriz energética mais limpa acelerou nos últimos anos, impulsionada principalmente pela energia solar e eólica. No entanto, essas fontes compartilham uma limitação conhecida: dependem das condições climáticas e da alternância entre dia e noite. Agora, pesquisadores apontam que uma tecnologia muito menos comentada pode preencher justamente essa lacuna, oferecendo eletricidade contínua e reduzindo a necessidade de grandes sistemas de armazenamento.

Uma tecnologia capaz de gerar energia sem depender do clima

Durante muito tempo, a energia geotérmica foi vista como uma alternativa restrita a regiões vulcânicas ou com intensa atividade sísmica. Isso limitava seu uso a poucos países e fazia dela uma solução de nicho dentro da transição energética.

Esse cenário, porém, começou a mudar com o avanço da chamada geotermia aprimorada (Enhanced Geothermal Systems, ou EGS). Em vez de depender de reservatórios naturais de água quente, essa tecnologia utiliza perfurações profundas, normalmente entre três e oito quilômetros abaixo da superfície, para acessar o calor armazenado nas rochas.

Após atingir essas camadas, fluidos são injetados e circulam pelo subsolo, absorvendo calor antes de retornarem à superfície. Esse calor é então convertido em eletricidade de forma contínua, independentemente do horário, da estação do ano ou das condições meteorológicas.

Segundo um estudo da Universidade de Stanford, publicado na revista Cell Reports Sustainability, essa característica pode transformar completamente a forma como os sistemas elétricos são planejados. Ao contrário da energia solar, que deixa de produzir durante a noite, ou da eólica, que depende da intensidade dos ventos, a geotermia fornece energia estável 24 horas por dia.

Outro ponto importante é que a tecnologia aproveita muitos conhecimentos desenvolvidos pela indústria de petróleo e gás, especialmente em técnicas de perfuração profunda. Isso amplia significativamente as possibilidades de implantação, permitindo que diversos países utilizem essa fonte de energia, mesmo sem possuir áreas vulcânicas ativas.

Para regiões densamente povoadas e com pouco espaço disponível para grandes parques solares ou eólicos, essa alternativa pode representar uma solução estratégica para ampliar a geração de energia limpa sem ocupar grandes extensões de terra.

Setor Elétrico1
© Quaise

O impacto pode ir muito além da produção de eletricidade

Os pesquisadores utilizaram modelos computacionais para simular diferentes cenários de transição energética. Os resultados mostram que a inclusão de apenas cerca de 10% de geração proveniente da geotermia aprimorada já produziria mudanças significativas em toda a infraestrutura elétrica.

Nesse cenário, a necessidade de instalar novos parques eólicos poderia cair aproximadamente 15%, enquanto a expansão da energia solar seria reduzida em torno de 12%. O impacto mais expressivo, porém, aparece no armazenamento de energia: a demanda por baterias poderia diminuir até 28%.

Essa redução acontece porque uma fonte constante de eletricidade diminui a necessidade de armazenar grandes volumes de energia para compensar períodos sem vento ou sem luz solar.

Além disso, os pesquisadores estimam que a área ocupada por instalações energéticas também seria menor, passando de aproximadamente 0,57% para 0,48% da superfície dos países analisados. Embora pareça uma diferença pequena em termos percentuais, ela representa milhares de hectares preservados quando aplicada em escala nacional.

Outro benefício importante está relacionado aos custos. Segundo o estudo, um sistema energético que combine fontes renováveis com geotermia aprimorada pode reduzir os custos totais da geração de eletricidade em até 60% quando comparado aos sistemas baseados em combustíveis fósseis. Ao considerar também os impactos econômicos causados pela poluição e pelas mudanças climáticas, essa economia pode chegar a 90%.

Ainda existem desafios, mas a tecnologia já saiu do papel

Apesar dos resultados promissores, os próprios pesquisadores destacam que a geotermia aprimorada ainda enfrenta desafios importantes. Perfurações profundas exigem investimentos elevados, planejamento técnico complexo e regulamentações específicas para garantir a segurança das operações.

Mesmo assim, a tecnologia já começou a dar seus primeiros passos fora dos laboratórios. Um dos exemplos mais conhecidos é um grande projeto aprovado no estado de Utah, nos Estados Unidos, com previsão de gerar cerca de 2 gigawatts de potência quando estiver plenamente operacional.

Especialistas acreditam que esse tipo de iniciativa ajudará a reduzir custos e acelerar o desenvolvimento da tecnologia, da mesma forma que ocorreu com a energia solar nas últimas décadas.

A principal conclusão do estudo é que a geotermia aprimorada não pretende substituir a energia solar ou eólica. Em vez disso, ela pode atuar como uma fonte complementar capaz de fornecer eletricidade constante, tornando toda a matriz energética mais estável, eficiente e econômica.

Se as projeções forem confirmadas pelos próximos projetos comerciais, o calor armazenado sob nossos pés poderá desempenhar um papel muito maior do que se imaginava na construção de um futuro energético mais limpo e confiável.

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