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Ciência

O núcleo da Terra não é tão rígido quanto imaginávamos — e cientistas descobriram que ele pode mudar de forma

Novos estudos sísmicos indicam que o núcleo interno da Terra é mais dinâmico do que parecia. Além de alterar sua velocidade de rotação em relação ao planeta, algumas de suas regiões podem sofrer deformações.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A cerca de 6.400 quilômetros abaixo dos nossos pés existe um lugar que jamais conseguiremos observar diretamente. Para descobrir o que acontece no centro da Terra, cientistas dependem principalmente de terremotos. Suas ondas atravessam diferentes camadas do planeta e carregam informações sobre materiais, movimentos e estruturas escondidas nas profundezas.

Agora, essas pistas estão ajudando a responder dois grandes mistérios: como o núcleo interno gira e por que algumas de suas regiões parecem mudar com o tempo.

O núcleo interno não gira exatamente como o resto da Terra

Nucleo Terra Rotacion
© Resource Database – Unsplash

O núcleo terrestre possui duas grandes regiões. A camada externa é líquida e formada principalmente por ferro e outros elementos. No centro está o núcleo interno, uma esfera sólida submetida a pressões e temperaturas extremas.

Apesar de sólido, ele não está necessariamente sincronizado com o restante do planeta.

Há décadas, pesquisadores encontram evidências da chamada rotação diferencial. Isso significa que o núcleo interno pode girar em uma velocidade ligeiramente diferente daquela observada no manto e na superfície.

Um estudo publicado na Nature Geoscience em 2025 analisou 121 pares de terremotos semelhantes registrados entre 1991 e 2023 nas Ilhas Sandwich do Sul.

Os pesquisadores compararam as ondas que atravessaram o núcleo e chegaram a estações sísmicas no norte da América do Norte. Dessa maneira, conseguiram acompanhar pequenas mudanças ao longo de décadas.

Foi então que surgiu uma surpresa: a rotação não explicava tudo.

O núcleo da Terra também pode mudar de forma

Algumas ondas apresentavam diferenças mesmo quando o núcleo interno estava em posições semelhantes em relação à superfície.

A explicação proposta pelos pesquisadores é que a região externa do núcleo interno pode sofrer deformações viscosas.

Isso não significa que a esfera inteira esteja mudando radicalmente de formato. As alterações seriam locais e lentas, provocadas pelas condições extremas existentes no interior terrestre.

A descoberta muda a imagem simplificada de uma enorme bola sólida apenas girando no centro do planeta.

Os dados sugerem que dois fenômenos podem acontecer simultaneamente: mudanças na velocidade de rotação e deformações próximas à fronteira entre os núcleos interno e externo.

Mas o que poderia deformar algo tão profundo?

Uma possível explicação está justamente no núcleo externo.

Essa camada é composta por metal líquido em constante movimento. Sua dinâmica é fundamental para o dínamo terrestre, mecanismo responsável pela geração do campo magnético que protege nosso planeta.

Esses movimentos podem exercer forças sobre a superfície do núcleo interno.

Irregularidades na fronteira entre as duas regiões também poderiam contribuir para as deformações. Portanto, embora esteja separado do manto por uma gigantesca camada líquida, o núcleo interno não funciona de maneira completamente isolada.

Outro mistério do núcleo pode estar mais perto de uma explicação

Nucleo Tierra
© Freepik

Existe ainda uma característica intrigante descoberta pela sismologia: as ondas não atravessam o núcleo interno com a mesma velocidade em todas as direções.

Em determinadas orientações, especialmente próximas ao eixo de rotação terrestre, elas viajam mais rapidamente. O fenômeno recebe o nome de anisotropia sísmica.

Um estudo publicado na Nature Geoscience em março de 2026 apresentou uma possível explicação.

Os pesquisadores analisaram como os cristais de ferro presentes no núcleo interno transportam calor. O modelo indica que essa transferência pode variar dependendo da orientação dos cristais.

As diferenças poderiam produzir variações de temperatura, estimular movimentos internos e contribuir para a organização das propriedades elásticas do núcleo.

Isso ajudaria a explicar por que as ondas sísmicas encontram condições diferentes dependendo da direção em que atravessam essa região.

Terremotos funcionam como um raio-X do planeta

Nenhuma tecnologia atual permite chegar fisicamente ao núcleo da Terra. Mesmo as perfurações humanas mais profundas alcançaram apenas uma pequena fração da distância necessária.

Por isso, cada terremoto funciona como um experimento natural.

Ao comparar ondas produzidas por tremores semelhantes separados por anos ou décadas, cientistas conseguem identificar mudanças extremamente pequenas no interior terrestre.

Essas informações também ajudam a reconstruir a evolução do planeta.

O núcleo interno continua crescendo lentamente à medida que o núcleo externo perde calor e parte do ferro líquido se solidifica. Ao mesmo tempo, os movimentos do material metálico líquido estão diretamente relacionados à manutenção do campo magnético terrestre.

Compreender como o núcleo interno gira, cresce e se deforma pode, portanto, revelar pistas sobre bilhões de anos da história da Terra.

O que emerge das pesquisas recentes é um centro planetário muito menos estático do que imaginávamos: uma enorme esfera sólida que gira, troca calor e pode até sofrer pequenas deformações.

E tudo o que sabemos sobre esse mundo escondido vem de sinais que chegam até nós depois de atravessar milhares de quilômetros pelo coração do planeta.

 

[ Fonte: El Litoral ]

 

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