Quando pensamos em oxigênio, quase sempre imaginamos o ar que respiramos. No entanto, existe outra reserva igualmente essencial para a vida que passa despercebida pela maioria das pessoas: o oxigênio dissolvido na água. É dele que dependem peixes, corais, moluscos e inúmeros microrganismos. Agora, cientistas descobriram que essa fonte vital está diminuindo em um ritmo preocupante, com consequências que podem ir muito além dos ecossistemas aquáticos.
O oxigênio da água está desaparecendo mais rápido do que os cientistas imaginavam
Pesquisadores de diferentes países vêm acompanhando um fenômeno conhecido como desoxigenação aquática, processo que reduz gradualmente a quantidade de oxigênio disponível em oceanos, rios e lagos. Embora essa perda não signifique que toda a água do planeta ficará sem oxigênio de uma hora para outra, os dados mostram que diversas regiões já apresentam mudanças suficientes para preocupar a comunidade científica.
Um estudo liderado por Erica Ferrer, pesquisadora formada pela Instituição Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego, concluiu que esse fenômeno pode ter alcançado níveis considerados inseguros para o equilíbrio do planeta. Publicada na revista Limnology and Oceanography, a pesquisa propõe que a desoxigenação passe a ser monitorada como um possível décimo limite planetário — um indicador utilizado para avaliar a estabilidade dos principais sistemas que sustentam a vida na Terra.
Grande parte desse problema está relacionada ao aquecimento global. Existe uma característica física simples que explica parte da situação: quanto mais quente a água, menor sua capacidade de armazenar oxigênio.
Além disso, o aumento da temperatura dificulta a circulação entre as camadas superficiais e profundas dos oceanos. Como consequência, o oxigênio absorvido na superfície deixa de alcançar regiões mais profundas, reduzindo sua disponibilidade para inúmeros organismos.
Segundo os pesquisadores, os oceanos já perderam aproximadamente 2% do oxigênio dissolvido desde a década de 1960. Embora esse percentual pareça pequeno, ele representa uma transformação significativa quando considerado o enorme volume de água do planeta. Em algumas áreas naturalmente pobres em oxigênio, as perdas chegam a variar entre 20% e 50%.
Nos ambientes continentais, outro fator agrava a situação: o excesso de nutrientes provenientes de fertilizantes agrícolas, esgoto e outros resíduos. Essas substâncias estimulam grandes florações de algas que, ao morrerem, são decompostas por bactérias. Durante esse processo, enormes quantidades de oxigênio são consumidas, criando ambientes cada vez mais hostis para a vida aquática.

O impacto vai muito além dos peixes e pode influenciar até o clima
A redução do oxigênio afeta diretamente a sobrevivência de inúmeras espécies. Quando os níveis ficam muito baixos, ocorre a chamada hipóxia, condição que dificulta a respiração dos organismos aquáticos.
Animais com maior capacidade de locomoção conseguem migrar para áreas mais oxigenadas, mas acabam concentrados em espaços menores, onde disputam alimento, ficam mais vulneráveis a predadores e também à atividade pesqueira.
Já espécies menos móveis, como moluscos, corais e organismos que vivem no fundo dos mares ou em sistemas de aquicultura, muitas vezes não conseguem escapar. Nessas situações, tornam-se mais suscetíveis a doenças, apresentam dificuldades de crescimento e reprodução e podem sofrer episódios de mortalidade em massa.
Quando a concentração de oxigênio cai a níveis extremos, surgem as chamadas zonas mortas, regiões onde a maior parte da vida animal simplesmente deixa de sobreviver.
Mesmo animais que respiram diretamente na atmosfera, como baleias e golfinhos, acabam sendo afetados. Isso acontece porque a desoxigenação altera toda a cadeia alimentar, modificando a distribuição de peixes e outros organismos dos quais esses mamíferos dependem.
Os impactos, porém, não se limitam à biodiversidade. Ambientes pobres em oxigênio favorecem processos microbianos capazes de liberar metano e óxido nitroso, dois gases de efeito estufa extremamente potentes. Assim, forma-se um ciclo preocupante: o aquecimento reduz o oxigênio da água e, em resposta, a desoxigenação pode intensificar ainda mais o aquecimento global.
Um novo limite planetário pode estar surgindo
O conceito de limites planetários funciona como um conjunto de indicadores destinados a avaliar se os sistemas naturais da Terra continuam operando dentro de condições consideradas seguras para a humanidade.
Atualmente, esse modelo analisa fatores como mudanças climáticas, biodiversidade, recursos hídricos, uso do solo, ciclos do nitrogênio e do fósforo, acidificação dos oceanos e poluição química.
A avaliação mais recente, conhecida como Planetary Health Check 2025, concluiu que a humanidade já ultrapassou sete dos nove limites atualmente reconhecidos. Agora, diversos pesquisadores defendem que a perda de oxigênio em ambientes aquáticos também passe a integrar oficialmente essa lista.
Superar um limite planetário não significa que o planeta atingiu um ponto irreversível, mas indica que entramos em uma zona de maior risco e incerteza, onde aumentam as chances de ocorrerem mudanças difíceis de controlar.
Para os autores do estudo, reconhecer oficialmente a desoxigenação como um novo indicador global permitiria ampliar o monitoramento de rios, lagos e oceanos e integrar esse problema às políticas climáticas, agrícolas e de gestão da água. Afinal, embora o ar que respiramos continue praticamente o mesmo, uma parte essencial da vida no planeta já começa a enfrentar uma silenciosa falta de oxigênio.