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Ciência

A poluição está mudando o cheiro das flores — e dificultando a vida das abelhas

Uma revisão de 22 estudos mostra como gases presentes no ar alteram os aromas que orientam os polinizadores. A interferência dificulta a busca por alimento e pode comprometer a relação entre insetos, plantas e produção agrícola.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Uma flor pode continuar no mesmo lugar, com suas cores e seu néctar, mas ficar mais difícil de encontrar. Isso acontece quando a poluição modifica os compostos aromáticos que ajudam os insetos a localizá-la. Uma pesquisa liderada pela Universidade de Reading, no Reino Unido, reuniu evidências desse problema e mostrou que a composição do ar interfere na comunicação química entre plantas e polinizadores.

O perfume funciona como um caminho até o alimento

Abelha
© Dmitry Grigoriev -Unsplash

Para muitos insetos, o aroma de uma flor oferece pistas sobre onde encontrar alimento. As plantas liberam misturas de compostos voláteis, que se espalham pelo ar e ajudam os animais a reconhecer suas fontes de néctar e pólen.

Entretanto, essas moléculas podem sofrer reações químicas durante o percurso. O ozônio próximo ao solo e os óxidos de nitrogênio, conhecidos pela sigla NOx, participam de processos que modificam ou degradam os sinais.

Assim, a flor continua emitindo seu perfume, mas a mensagem que chega ao inseto pode ter outra composição. Isso dificulta reconhecer e seguir o rastro até sua origem.

A revisão publicada na Frontiers in Ecology and the Environment, em 8 de outubro, analisou 22 estudos experimentais sobre esses efeitos. Os autores avaliaram medidas como eficiência de busca, alimentação e abundância de polinizadores.

O que significa a redução de 68%

Segundo a Universidade de Reading, níveis elevados de ozônio reduziram o desempenho dos polinizadores em uma média de 42%. Para os óxidos de nitrogênio, a queda média foi de 46%.

Nos experimentos com os dois tipos de poluentes, a redução chegou a 68%. Esse número reúne os indicadores avaliados pelos estudos; não significa que 68% dos insetos morreram ou que a produção agrícola caiu nessa proporção.

Também há uma limitação importante: poucos trabalhos testaram os contaminantes simultaneamente. Além disso, as reações entre eles tornam o efeito combinado mais complexo do que uma simples soma dos danos individuais. Os próprios pesquisadores destacam essa diferença ao interpretar os resultados.

Um problema que também aparece à noite

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© Pexels

Experimentos anteriores ajudam a visualizar como essa interferência acontece. Em um trabalho publicado na Science em 2024, pesquisadores investigaram a relação entre mariposas e a flor Oenothera pallida.

A equipe identificou componentes do perfume que atraíam os insetos e observou como reagiam aos radicais nitrato, substâncias especialmente relevantes na química atmosférica noturna.

Nos testes em campo, flores artificiais que liberavam um aroma previamente alterado por esses radicais receberam até 70% menos visitas. O resultado mostrou que modificar o sinal químico pode dificultar o encontro mesmo quando a fonte do odor permanece disponível.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que proteger apenas os insetos ativos durante o dia deixa parte do problema de fora.

Algumas espécies têm menos alternativas

A vulnerabilidade varia conforme a dependência de determinados aromas. Polinizadores especializados, que utilizam pistas químicas específicas para encontrar poucas espécies de plantas, podem enfrentar dificuldades maiores.

Generalistas, como muitas abelhas, dispõem de uma variedade mais ampla de fontes de alimento e sinais. Essa flexibilidade pode oferecer alternativas, embora também sofram os efeitos da poluição.

Há ainda uma lacuna geográfica: 19 dos 22 estudos da revisão vieram da Europa. Portanto, os resultados não permitem atribuir a mesma intensidade de impacto a todos os ecossistemas, especialmente em regiões pouco estudadas.

A recuperação depende da qualidade do ar

Os autores também analisam como a transição energética pode mudar essa exposição. No cenário intermediário de emissões considerado pelo trabalho, as concentrações de ozônio próximo ao solo aumentariam até meados do século e cairiam depois, conforme diminuíssem as emissões de seus precursores.

Essa trajetória depende das políticas adotadas e da evolução das emissões. Por isso, o estudo defende reduções mais rápidas dos poluentes para encurtar o período de pressão sobre os insetos.

A consequência envolve os dois lados dessa relação: os animais precisam localizar alimento, enquanto as plantas dependem de suas visitas para transportar pólen. Preservar essa troca exige considerar também o ar pelo qual os aromas viajam.

 

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