Durante boa parte da terça-feira (27), aliados de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e interlocutores ligados ao governo americano apresentaram uma viagem praticamente concluída: o senador teria deixado o Brasil, seguido para os Estados Unidos e, segundo algumas versões, encontrado o irmão Eduardo na Flórida.
O registro divulgado pela Argentina estabeleceu uma sequência diferente. A entrada de Flávio no país vizinho ocorreu às 22h50, horas depois de fontes já o situarem em território americano. A divergência passou a ocupar o centro da cobertura sobre a saída do parlamentar.
Segundo a reportagem da CNN Brasil, informações falsas sobre seu paradeiro foram transmitidas por pessoas próximas à família Bolsonaro e por fontes vinculadas ao governo de Donald Trump. A emissora reconheceu que publicou relatos posteriormente contrariados pelos dados migratórios.
Os horários que mudaram a história da viagem
Saída do Brasil – O senador Flávio Bolsonaro (PL) e sua família estão viajando para os Estados Unidos na manhã desta quarta-feira. Seu voo partiu da Argentina, teve breve escala no Equador e seguiu com destino a Miami.
O voo de Flávio e sua família decolou às 6h22, no horário de… pic.twitter.com/95ZzOWaHt6
— g1 (@g1) October 28, 2026
Às 17h39 de terça-feira, fontes ligadas ao governo americano afirmaram à CNN que Flávio já havia chegado aos Estados Unidos com a mulher e as filhas. Pouco antes das 22h, aliados disseram que ele havia encontrado Eduardo Bolsonaro na Flórida e preparava uma entrevista.
O horário registrado na fronteira argentina contradiz essas versões. Quando o encontro nos Estados Unidos era apresentado como realizado, a passagem documentada pelo país vizinho ainda não havia acontecido.
A CNN classificou a sequência como uma estratégia de desinformação de aliados. O elemento demonstrado pela cronologia é a incompatibilidade entre os relatos de chegada aos EUA e o registro posterior de entrada na Argentina.
A passagem pela Argentina e o destino declarado no Equador

A Direção Nacional de Migrações argentina informou que Flávio atravessou a Ponte Internacional Tancredo Neves com a mulher, Fernanda, e as duas filhas. A ponte conecta Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazú, na província de Misiones.
Segundo o comunicado reproduzido pela Agência Brasil, os quatro apresentaram documentação aceita pelas autoridades locais. O órgão declarou que não havia impedimento para a entrada no território argentino e que a passagem ocorreu sem incidentes.
Às 23h30, a família embarcou em uma aeronave privada operada pela Baires Fly. O destino indicado no plano de voo era Guayaquil, no Equador. A informação oficial estabeleceu, assim, dois marcos verificáveis para reconstruir o deslocamento: o ingresso terrestre e o embarque posterior.
O comunicado, porém, não identificou qual documento o senador apresentou. A CNN observou que cidadãos do Mercosul podem entrar na Argentina com carteira de identidade. A autorização de ingresso concedida pelas autoridades argentinas também não esclarece, por si só, a situação do cumprimento das determinações judiciais brasileiras.
A ordem judicial que antecedeu a saída
Antes da viagem, Flávio havia sido intimado pela Polícia Federal a entregar seus passaportes comum e diplomático em até 24 horas, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
De acordo com a reportagem do UOL sobre a intimação, a decisão também proibiu o contato entre o senador e o advogado Willer Tomaz. Ambos são investigados por suspeita de lavagem de dinheiro e negam as acusações.
Na segunda-feira (26), Flávio publicou um vídeo relatando que havia sido abordado por agentes ao sair de uma visita ao pai, Jair Bolsonaro. Na gravação, afirmou que entregaria os documentos, contestou a medida e declarou que não pretendia deixar o Brasil.
Esse posicionamento público acrescentou outra contradição à sequência dos acontecimentos: a promessa de permanecer no país foi seguida pela passagem da família pela fronteira argentina na noite seguinte. A investigação citada nas reportagens permanece distinta de uma eventual condenação.
Uma saída que também surpreendeu aliados
A repercussão não se limitou ao campo judicial. Integrantes do entorno político de Flávio demonstraram surpresa e insatisfação diante das notícias sobre a viagem.
Segundo outra apuração da CNN, aliados temiam que sua ausência prejudicasse a reorganização da oposição após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva. O senador havia anunciado que pretendia liderar o grupo e reunir parlamentares para coordenar a atuação no Congresso.
A preocupação relatada era concreta: a saída ocorria justamente quando deputados e senadores esperavam uma articulação política para as semanas seguintes. Um dos interlocutores ouvidos pela emissora classificou a possibilidade de fuga como inaceitável.
As reações mostram que os relatos sobre a viagem também expuseram incerteza dentro do próprio campo político do senador. Enquanto algumas fontes anunciavam seu destino e seus próximos passos, outros aliados questionavam o impacto da ausência sobre a oposição.
O voo posterior não confirma as versões da véspera
Na manhã desta quarta-feira (28), a CNN informou que a aeronave associada à viagem havia pousado em Guayaquil e decolado em direção a Miami, segundo dados de rastreamento. A identificação do avião como aquele que transportava a família foi atribuída à apuração da emissora argentina TN.
O deslocamento posterior acrescentou uma nova etapa à cobertura, mas não validou os anúncios de chegada divulgados na terça-feira. A posição de uma aeronave também precisa ser distinguida da confirmação de desembarque de seus passageiros.
O ponto central continua sendo a ordem dos acontecimentos: as versões de que Flávio já estava na Flórida circularam antes da travessia registrada pela Argentina. Foi essa diferença de horas que alterou a compreensão pública sobre a saída do senador.