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Ciência

Alguns adultos ainda vivem segundo regras emocionais que aprenderam quando eram crianças

Alguns comportamentos que parecem traços de personalidade podem ter começado muito antes, quando afeto, segurança e aprovação pareciam depender de condições que a criança não conseguia controlar.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Há adultos que pedem desculpas mesmo quando não fizeram nada errado, desconfiam quando alguém demonstra carinho ou sentem que precisam fazer cada vez mais para serem valorizados. Para quem observa de fora, tudo isso pode parecer apenas insegurança ou timidez. Mas certos padrões de relacionamento podem ter começado muito antes de a pessoa conseguir compreendê-los — em uma época em que ainda estava aprendendo o que significava ser amado.

Quando uma criança começa a acreditar que há algo errado com ela

Uma criança ainda não possui recursos emocionais para compreender por que seus pais ou cuidadores são distantes, imprevisíveis ou pouco disponíveis emocionalmente.

Em vez de concluir que os adultos têm suas próprias limitações, ela pode encontrar uma explicação muito mais simples — e dolorosa: talvez o problema esteja nela.

Essa percepção pode acompanhar a pessoa durante anos. Na vida adulta, pode aparecer como uma sensação persistente de nunca ser boa o suficiente, mesmo quando existem conquistas, reconhecimento profissional ou relacionamentos estáveis.

A pessoa pode minimizar aquilo que consegue fazer, concentrar-se muito mais nos próprios erros e manter uma voz interna extremamente crítica.

Até elogios podem provocar desconforto. Quando alguém reconhece uma qualidade, surge a necessidade de encontrar outra explicação: talvez estejam exagerando, sejam apenas educados ou ainda não tenham percebido quem ela realmente é.

Nesse cenário, a autoestima passa a depender fortemente da aprovação dos outros. O problema é que nenhuma quantidade de reconhecimento parece suficiente para eliminar completamente a dúvida.

A confiança nos relacionamentos também pode ser afetada. Quando segurança e afeto foram inconsistentes durante a infância, a proximidade emocional pode parecer menos uma proteção e mais um risco.

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© Francisco Gonzalez – Unsplash

O carinho pode parecer estranho quando a pessoa nunca soube se ele duraria

Receber afeto deveria ser uma experiência tranquila. Para alguém que cresceu sem demonstrações consistentes de carinho, porém, a aproximação de outra pessoa pode despertar perguntas desconfortáveis.

“Por que essa pessoa gosta de mim?”
“Quando isso vai mudar?”
“E se ela descobrir como eu realmente sou?”

A partir daí, podem surgir reações aparentemente opostas.

Algumas pessoas procuram confirmação constante, ficam muito sensíveis a mudanças de comportamento e interpretam qualquer distância como sinal de abandono. Outras fazem exatamente o contrário: constroem uma independência rígida e começam a se afastar quando uma relação se torna emocionalmente importante.

Apesar da diferença, as duas respostas podem estar relacionadas ao mesmo medo: precisar de alguém e acabar sendo abandonado.

A dificuldade também pode aparecer na hora de estabelecer limites. Se demonstrar raiva, tristeza ou discordância costumava provocar rejeição, a criança pode aprender que preservar um vínculo significa ficar em silêncio.

Na vida adulta, isso pode transformar o ato de dizer “não” em uma fonte de culpa. A pessoa aceita situações que a incomodam, coloca constantemente as necessidades dos outros em primeiro lugar e tenta ser indispensável para garantir que não será deixada de lado.

A necessidade de agradar, nesse contexto, não precisa ser simplesmente uma característica de personalidade. Pode ter funcionado, durante muito tempo, como uma estratégia para preservar segurança emocional.

Entender o passado não significa ficar preso a ele

Esses comportamentos não devem ser tratados automaticamente como sinais de um transtorno ou como prova de que alguém teve determinada experiência na infância.

Pessoas respondem de maneiras diferentes às mesmas circunstâncias. Até irmãos que cresceram na mesma casa podem interpretar e processar experiências familiares de formas muito diferentes.

Por isso, compreender a possível origem de um padrão é mais útil do que transformá-lo em um rótulo.

Uma pessoa pode começar a perceber, por exemplo, que sua necessidade constante de aprovação não surgiu do nada. Ou que o desconforto diante de um elogio talvez tenha menos relação com modéstia e mais com a dificuldade de acreditar que alguém possa valorizá-la genuinamente.

Essa percepção abre espaço para outras perguntas: o que eu realmente preciso? Por que determinada situação desperta uma reação tão intensa? Por que dizer não parece tão perigoso?

Com o tempo, também é possível aprender novas formas de relacionamento: aceitar carinho sem imediatamente procurar uma ameaça, estabelecer limites sem sentir que isso significa perder alguém e substituir uma voz interna excessivamente crítica por uma postura mais realista e compassiva.

Quando esses padrões provocam sofrimento significativo ou prejudicam repetidamente os relacionamentos, a psicoterapia e outras formas de acompanhamento profissional podem ajudar a compreendê-los e modificá-los.

A infância deixa marcas importantes, mas não determina automaticamente quem alguém será.

O adulto não precisa continuar vivendo segundo uma regra aprendida quando ainda era criança: a de que o amor pode desaparecer a qualquer momento e, por isso, é preciso fazer qualquer coisa para impedir que isso aconteça.

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