Pular para o conteúdo
Mundo

Brasileiros estão deixando Portugal: alta no custo de vida muda planos de quem buscava estabilidade

O sonho europeu de muitos brasileiros em Portugal está começando a mudar de tom. Aluguéis cada vez mais altos, inflação persistente, salários estagnados e até a xenofobia em crescimento têm levado parte da comunidade a fazer as malas — seja para voltar ao Brasil, seja para tentar a sorte em outros países europeus. Entenda por que esse movimento está se intensificando e quais fatores estão por trás dessa reviravolta.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

“Temos mais qualidade de vida em Florianópolis do que em Portugal.” A frase é de Lara Sheffer, 30 anos, tradutora que viveu dois anos em Oeiras, região metropolitana de Lisboa. Ela e o namorado voltaram ao Brasil em agosto de 2025, depois de perceberem que o custo de vida subiu tanto que a conta não fechava mais.

Segundo Lara, o casal passou a gastar entre 300 e 500 euros a mais por mês, mesmo mantendo o mesmo estilo de vida. O valor do aluguel em Portugal foi um dos principais vilões: um apartamento de um quarto que custava 935 euros dois anos atrás passou para 1.250 euros. “Era um valor absurdo para um T1”, conta.

A inflação também pesou. Dados oficiais mostram que os preços subiram 2,8% no acumulado de 12 meses até agosto de 2025 — com destaque para alimentos, que aumentaram 4%, a maior alta desde 2023. Na prática, o aumento afetou desde idas ao mercado até refeições fora de casa, corroendo o poder de compra de famílias brasileiras.

Europa mais cara e burocrática

Brasileiros estão deixando Portugal: alta no custo de vida muda planos de quem buscava estabilidade
© Pexels

Além da pressão financeira, Lara enfrentou outro obstáculo: a demora para renovar a autorização de residência. “Eu provavelmente ficaria quase um ano presa dentro de Portugal, sem poder viajar — um dos principais motivos de termos ido para lá”, explica.

Com renda em euro e dólar graças ao trabalho remoto, ela percebeu que viver no Brasil significava uma vida mais confortável, sem aluguéis exorbitantes e com mais liberdade para investir em imóvel próprio.

Salários estagnados, aluguéis disparando

Especialistas explicam que o custo de vida em Portugal faz parte de um fenômeno mais amplo na Europa. A combinação de crise energética, guerra na Ucrânia, inflação de serviços e juros altos encareceu moradia e reduziu a oferta de imóveis.

Na União Europeia, os preços dos aluguéis subiram 28% entre 2010 e 2025, enquanto o valor das casas aumentou mais de 55%. Em Lisboa e Porto, esse movimento foi acelerado por dois fatores: o boom do turismo e a chegada de estrangeiros com salários mais altos, como nômades digitais.

O resultado? Um “duplo estrangulamento”: a demanda sobe por causa de turistas e expatriados, enquanto a construção de novas moradias fica travada. Segundo João Alfredo Lopes Nyegray, da PUC-PR, “os preços de referência do mercado imobiliário estão cada vez mais distantes da realidade salarial da população portuguesa e de parte significativa dos imigrantes brasileiros”.

Alternativas: Espanha e Bélgica no radar

Com os preços de aluguel em Portugal nas alturas, alguns brasileiros estão migrando para outros países europeus. O bibliotecário Lucas Carrera, 37 anos, deixou Lisboa após sete anos e escolheu Barcelona. Apesar do aluguel mais caro, ele dobrou o salário ao trabalhar em hotelaria e percebeu que lazer, alimentação e transporte são mais baratos na Espanha.

Já Glauco Brandão, 42, mudou-se com o marido para Ghent, na Bélgica. Lá, o casal conseguiu empregos com remuneração três vezes maior e encontrou um mercado de aluguel mais acessível. “O transporte público funciona perfeitamente. Tudo que eu passava nervoso em Portugal, aqui não passo”, compara.

Gentrificação acelerada transforma Lisboa

Lisboa e Porto enfrentam um processo intenso de gentrificação — ou “turbo-gentrificação”, como define o geógrafo Luís Filipe Gonçalves Mendes. Em 15 anos, os preços da habitação subiram até 300%, e 20% da população dos centros históricos saiu entre 2011 e 2021.

Plataformas como Airbnb reduziram a oferta de aluguel de longo prazo, fundos imobiliários estrangeiros tratam imóveis como ativos financeiros, e políticas públicas insuficientes de habitação social agravaram a crise. Enquanto isso, o salário mínimo em Portugal é de 870 euros, cerca de R$ 5,4 mil — muito abaixo do necessário para bancar os custos nas grandes cidades.

Políticas migratórias não acompanham a realidade

Portugal ainda mantém uma política relativamente aberta para brasileiros, com residência facilitada e regularização rápida. Mas, como explica Nyegray, “a facilidade de entrada não garante condições de permanência sustentável”.

Enquanto muitos conseguem legalizar a estadia, o custo de vida e o preço do aluguel em Portugal tornam inviável transformar essa residência em um projeto de longo prazo. Por isso, cresce o número de brasileiros que deixam o país, seja por retorno voluntário, mudança para cidades médias ou para outros destinos europeus.

Um futuro incerto para a comunidade brasileira

Com mais de 513 mil brasileiros legalmente residentes em 2023, a comunidade tem peso cultural e econômico significativo em Portugal. A saída de parte dessa população empobrece os centros urbanos, enfraquece mercados locais e transforma bairros históricos em áreas exclusivamente turísticas.

Como alerta Mendes, “uma cidade sem imigrantes não é mais uma cidade. Fica higienizada, sem diversidade, e perde seu caráter cosmopolita”.

A história de brasileiros deixando Portugal é, em parte, um retrato de transformações maiores que atravessam a Europa: inflação persistente, mercado imobiliário inflado e tensões sociais em alta. Para muitos, o que antes era sonho virou uma equação financeira insustentável — e a decisão de mudar de rumo tornou-se inevitável.

[Fonte: BBC]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados