A relação entre China e Irã voltou ao centro da disputa geopolítica mundial. Segundo reportagens e análises divulgadas nos últimos dias, Pequim estaria intensificando seu apoio militar a Teerã em meio ao conflito envolvendo Estados Unidos e Israel. O fortalecimento dessa parceria preocupa Washington e seus aliados, que veem o avanço da cooperação sino-iraniana como um fator capaz de ampliar a instabilidade regional e influenciar o equilíbrio estratégico no Indo-Pacífico.
Relatos apontam envio de sistemas de defesa antiaérea ao Irã

De acordo com uma reportagem da Reuters baseada em fontes familiarizadas com as negociações, o Irã deverá receber nas próximas semanas entre 300 e 400 sistemas portáteis chineses de defesa antiaérea. O acordo, estimado entre 60 e 70 milhões de dólares, inclui mísseis dos modelos QW-12 e FN-16, projetados para atingir aeronaves, helicópteros e drones em baixa altitude.
Segundo a agência, a operação foi intermediada pela empresa Zhongqing Baoshang International Investment, sediada em Hong Kong, e representa um dos maiores esforços conhecidos de Teerã para reconstruir sua defesa aérea desde o início da guerra contra Estados Unidos e Israel.
Caso seja concluída, a entrega poderá reforçar a capacidade iraniana de proteger instalações militares, infraestrutura energética e outros alvos considerados estratégicos.
A reportagem também afirma que autoridades chinesas negaram envolvimento oficial na operação, enquanto o governo iraniano não comentou o assunto.
Cooperação vai além das armas e inclui tecnologia espacial
Além do possível fornecimento de armamentos, análises recentes apontam que a cooperação entre China e Irã também envolve recursos tecnológicos.
Um estudo publicado pelo Hudson Institute afirma que empresas chinesas teriam fornecido imagens de satélite e dados geoespaciais que ajudaram o Irã a aprimorar a precisão de ataques contra instalações e ativos militares dos Estados Unidos durante a chamada Operação Epic Fury. O relatório sustenta que esse apoio permitiu selecionar alvos de maior valor estratégico, como radares, sistemas de comunicação e aeronaves de apoio.
Com base nessas alegações, o governo dos Estados Unidos anunciou, em maio, sanções contra diversas empresas chinesas acusadas de colaborar com as operações militares iranianas por meio do fornecimento de imagens de satélite. Entre elas estão Earth Eye, MizarVision e Chang Guang Satellite Technology. A China rejeitou as acusações e classificou as sanções como unilaterais e ilegais.
Movimento pode influenciar estratégia dos Estados Unidos e de Taiwan
Analistas avaliam que o aprofundamento da parceria militar entre Pequim e Teerã pode afetar também a estratégia americana na Ásia.
Nos últimos meses, Washington aprovou um amplo pacote de armamentos destinado a Taiwan, incluindo sistemas HIMARS, mísseis antitanque, drones e outros equipamentos militares, embora parte das entregas ainda dependa de decisões do governo americano. O fortalecimento das capacidades militares iranianas pode aumentar a pressão para acelerar esse processo e reforçar a defesa da ilha diante da crescente rivalidade entre Estados Unidos e China.
Especialistas também observam que uma atenção prolongada de Washington ao Oriente Médio pode reduzir, ao menos temporariamente, a disponibilidade de recursos diplomáticos e militares voltados para o Indo-Pacífico, região considerada prioridade estratégica pelos Estados Unidos.
Escalada preocupa aliados dos EUA e amplia riscos para a região
O fortalecimento dos laços entre China e Irã também desperta preocupação entre países árabes do Golfo, que mantêm relações econômicas relevantes com Pequim, mas convivem com frequentes ataques de grupos alinhados a Teerã contra instalações de energia, aeroportos e outras infraestruturas estratégicas.
Ao mesmo tempo, a continuidade das tensões no Estreito de Ormuz mantém os mercados internacionais atentos ao risco de interrupções no transporte de petróleo, fator que pode provocar impactos nos preços globais da energia caso o conflito se intensifique.
Embora ainda existam divergências sobre o alcance efetivo da cooperação entre China e Irã, os relatos mais recentes indicam que a aproximação entre os dois países continua sendo acompanhada de perto por governos e analistas, diante do potencial de alterar o equilíbrio militar e político em uma das regiões mais sensíveis do planeta.
[Fonte: El día]