A corrida pelos chips de inteligência artificial envolve muito mais do que fabricar o processador mais potente. Na China, empresas procuram aumentar o desempenho do conjunto, conectando chips, memória e servidores em estruturas gigantescas. Huawei e Alibaba estão no centro dessa aposta. Seus projetos sugerem que o país consegue ampliar sua infraestrutura de IA mesmo diante das restrições americanas ao acesso a tecnologias avançadas.
A força está na conexão entre os chips

Reunir muitos processadores só funciona quando eles conseguem trocar informações rapidamente. Caso contrário, parte da capacidade fica ociosa, esperando dados de outras unidades. Por isso, a Huawei concentra seus esforços tanto nos chips Ascend quanto nas redes e no software que coordenam o trabalho.
Um exemplo aparece no estudo técnico sobre o CloudMatrix384, publicado no arXiv. O sistema reúne 384 aceleradores Ascend e 192 processadores Kunpeng, ligados por uma rede de alta capacidade. A arquitetura permite comunicação direta entre unidades e compartilhamento de recursos.
Os autores avaliaram a plataforma com o modelo DeepSeek-R1 e relataram ganhos ao combinar ajustes de software e distribuição das tarefas. O trabalho demonstra o funcionamento desse modelo em hardware da Huawei. Isso, porém, não equivale a provar que todos os modelos da DeepSeek foram treinados exclusivamente com chips chineses.
A distinção ajuda a entender a disputa. Treinar uma IA significa ajustar o modelo com grandes volumes de dados. Já a inferência corresponde ao uso do modelo pronto para produzir respostas. Um sistema pode apresentar bons resultados em uma dessas etapas sem liderar automaticamente a outra.
Huawei amplia a escala dos sistemas
Em setembro, a empresa apresentou o Atlas 960E SuperPoD, projetado para conectar até 4.096 aceleradores. Segundo a Huawei, a plataforma combina comunicação óptica, memória com endereçamento unificado e refrigeração líquida para atender modelos de grande porte.
A fabricante também afirma que sua tecnologia de conexão reduz o consumo elétrico em comparação com uma configuração convencional de módulos ópticos. Essa comparação diz respeito à infraestrutura descrita pela empresa: ela não estabelece, por si só, uma vantagem energética sobre qualquer sistema concorrente.
A proposta revela uma mudança de foco. Além de melhorar cada processador, a Huawei tenta reduzir os obstáculos que aparecem quando milhares deles trabalham juntos.
Alibaba aposta em uma cadeia própria de IA

A Alibaba segue um caminho semelhante. Em sua apresentação na conferência Apsara de 2026, o presidente executivo Eddie Wu anunciou o Zhenwu V900. Segundo ele, o chip oferece três vezes o desempenho do antecessor M890, e uma plataforma baseada nele pode chegar a 500 mil placas.
A companhia pretende integrar processadores, servidores, redes, modelos e serviços de nuvem. O objetivo é aumentar a produção de respostas de IA e melhorar o custo de operação do conjunto.
Wu também reconheceu que limitações na cadeia global de fornecimento dos centros de dados dificultam a expansão. Portanto, desenvolver um chip é apenas uma parte do desafio.
Os projetos indicam uma capacidade crescente de construir alternativas nacionais. Ainda assim, escala anunciada, desempenho medido e disponibilidade comercial representam etapas diferentes. A disputa passa agora pela capacidade de transformar essas plataformas em serviços confiáveis, competitivos e disponíveis para os clientes.