O fascínio pelos golfinhos atravessa milênios, desde mitos da Grécia Antiga até a ciência moderna. Mas só nas últimas décadas começamos a entender como esses animais realmente se comunicam. Agora, um estudo de longo prazo nos Estados Unidos traz novas evidências de que a comunicação dos golfinhos é muito mais complexa — e mais próxima da humana — do que se imaginava.
Os “nomes” dos golfinhos

Desde os anos 1960, cientistas já suspeitavam que golfinhos utilizavam sons específicos para se identificar. Pesquisadores como Melba e David Caldwell demonstraram que cada indivíduo emite um assobio único, chamado de “assobio assinatura”.
Hoje sabemos que esses assobios funcionam de maneira semelhante aos nomes humanos. Em ambientes aquáticos onde a visibilidade é limitada, os golfinhos usam esses sons para indicar sua presença — como se dissessem “estou aqui”.
Um dos estudos mais longos da história
Grande parte das descobertas recentes vem do Projeto de Pesquisa de Golfinhos de Sarasota, na Flórida, iniciado em 1970 e liderado por Randall Wells, do Zoológico Brookfield de Chicago.
Este é o estudo contínuo mais longo do mundo sobre cetáceos selvagens. Os pesquisadores acompanham cerca de 170 golfinhos-nariz-de-garrafa, conhecendo detalhes como idade, sexo e relações familiares de quase todos os indivíduos.
Esse nível de conhecimento permite algo raro: estudar comunicação em animais selvagens com precisão quase individual.
Como os cientistas escutam os golfinhos
Durante avaliações de saúde — feitas com captura e soltura rápida — os pesquisadores utilizam hidrofones acoplados diretamente na cabeça dos golfinhos para registrar seus sons.
Essas gravações são organizadas em um grande banco de dados, que já reúne quase 1.000 sessões envolvendo mais de 300 golfinhos.
Com isso, os cientistas conseguem identificar padrões específicos, analisando gráficos chamados espectrogramas, que mostram como a frequência do som varia ao longo do tempo.
Uma “linguagem materna” surpreendente
Uma das descobertas mais curiosas envolve a relação entre mães e filhotes.
As fêmeas modificam seus assobios ao se comunicar com os bebês, aumentando o tom — algo muito parecido com o “manhês” usado por humanos ao falar com crianças.
Além disso, algumas crias desenvolvem assobios semelhantes aos das mães, embora isso não aconteça sempre. Esse detalhe levanta novas questões sobre aprendizado e desenvolvimento vocal nos golfinhos.
Imitar para se comunicar

Outra habilidade impressionante é a capacidade de imitação.
Golfinhos frequentemente reproduzem o assobio assinatura de outro indivíduo para chamar sua atenção — equivalente a usar o nome de alguém.
Os pesquisadores agora investigam algo ainda mais intrigante: se os golfinhos conseguem “mencionar” outros indivíduos que não estão presentes, o que seria um passo importante em direção a uma forma mais abstrata de comunicação.
Assobios compartilhados: um novo capítulo
Recentemente, os cientistas identificaram um novo tipo de vocalização: os chamados “assobios não assinatura”.
Diferente dos “nomes”, esses sons são compartilhados entre vários golfinhos. Inicialmente considerados aleatórios, agora se sabe que podem ter funções específicas.
Em experimentos com sons reproduzidos debaixo d’água, alguns desses assobios foram emitidos por diferentes indivíduos em resposta aos mesmos estímulos.
Isso sugere que eles podem funcionar como sinais com significado coletivo.
Sinais de alerta, surpresa e mais
Com o uso de drones e novos experimentos, os pesquisadores começaram a entender melhor o papel desses assobios compartilhados.
Alguns parecem estar ligados a comportamentos de alerta, como evitar objetos desconhecidos. Outros podem indicar surpresa diante de estímulos inesperados.
Até agora, já foram identificados pelo menos 20 tipos diferentes desses sons — e o número continua crescendo.
Um sistema de comunicação mais complexo do que se pensava
A principal conclusão do estudo é clara: a comunicação dos golfinhos não é simples — e dificilmente será reduzida a um único “dicionário”.
Assim como os humanos, esses animais vivem em sociedades complexas, onde contexto, relações sociais e experiências influenciam a forma como se comunicam.
Isso significa que entender sua “linguagem” exige algo além de decodificar sons — é preciso compreender toda a dinâmica social por trás deles.
No fim das contas, quanto mais a ciência avança, mais fica evidente que os golfinhos não apenas se comunicam — eles o fazem de maneira rica, adaptativa e surpreendentemente sofisticada.
[ Fonte: The Conversation ]