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Ciência

Cientistas descobrem que um evento vulcânico antigo deixou marcas profundas sob o Pacífico

Cientistas reconstruíram um evento vulcânico colossal que não apenas moldou o relevo oceânico, mas alterou profundamente a própria estrutura de uma placa tectônica — algo que só agora começa a ser compreendido.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante milhões de anos, uma região remota do oceano Pacífico guardou sinais silenciosos de um dos episódios mais extremos da história da Terra. Sem crateras visíveis ou montanhas emersas, as evidências ficaram escondidas sob quilômetros de água e rocha. Agora, uma nova análise geofísica revela que esse evento foi capaz de modificar a composição interna de uma placa oceânica inteira, desafiando o que se sabia sobre os limites do poder do vulcanismo.

A erupção que mudou mais do que a paisagem do planeta

Cientistas descobrem que um evento vulcânico antigo deixou marcas profundas sob o Pacífico
© Pexels

A chamada meseta de Ontong Java é uma das maiores formações vulcânicas do mundo, espalhada por uma vasta área do Pacífico. Ela se formou entre 110 e 120 milhões de anos atrás, quando uma sequência de erupções submarinas liberou volumes gigantescos de magma em um intervalo relativamente curto de tempo geológico.

Esse episódio é considerado o maior evento vulcânico já registrado na Terra. Além de criar uma estrutura oceânica colossal, ele alterou o equilíbrio ambiental global e é frequentemente associado a períodos de extinção em massa. Até recentemente, acreditava-se que seus efeitos mais profundos estivessem limitados à crosta recém-formada.

O novo estudo, porém, mostra que o impacto foi muito além disso. A placa oceânica situada sob a meseta não saiu ilesa. Ela foi fisicamente e quimicamente transformada, carregando cicatrizes internas que persistem até hoje.

O que as ondas sísmicas revelaram sob o oceano

A descoberta só foi possível graças à análise detalhada de dados sísmicos coletados no fundo do oceano e em ilhas próximas à meseta. Os pesquisadores estudaram ondas sísmicas de alta frequência conhecidas como Po e So, que se propagam de forma distinta dependendo da estrutura interna das placas tectônicas.

Os resultados chamaram atenção imediatamente. Enquanto as ondas Po se comportavam de maneira esperada, as ondas So apresentavam uma atenuação incomum ao atravessar a região sob a meseta. Esse padrão indicava que algo havia alterado profundamente as propriedades da placa oceânica.

A partir desses sinais, os cientistas criaram modelos tridimensionais da litosfera local. O que encontraram foi uma arquitetura interna complexa, formada por camadas horizontais cortadas por inúmeros diques intrusivos — canais solidificados por onde o magma ascendeu no passado.

A pluma do manto que reescreveu a química da placa

No centro desse processo está um fenômeno conhecido como pluma termoquímica do manto. Trata-se de uma coluna de material extremamente quente que sobe das profundezas do manto terrestre, carregando uma composição química diferente da rocha ao redor.

Segundo a equipe liderada por Azusa Shito, da Universidade de Ciências de Okayama, essa pluma foi a responsável por alimentar as erupções que formaram a meseta. O magma gerado não apenas se espalhou pela superfície do fundo oceânico, como também penetrou profundamente na placa subjacente.

Esse processo provocou o que os cientistas chamam de “refertilização” da placa. Em termos simples, o magma reintroduziu elementos químicos em uma rocha que já havia sido empobrecida por eventos anteriores, alterando sua composição original.

Uma placa mais lenta e diferente por dentro

Outro indício dessa transformação veio da análise das velocidades das ondas sísmicas. Sob a meseta de Ontong Java, essas velocidades são significativamente mais baixas do que em outras regiões oceânicas comparáveis.

Essa desaceleração é interpretada como um sinal direto de modificação física e química da litosfera. A presença de materiais fundidos solidificados, mudanças minerais e reorganização estrutural tornam a placa diferente do “padrão” esperado para crostas oceânicas antigas.

O estudo, conduzido em colaboração com Akira Ishikawa, do Instituto de Ciência de Tóquio, e Masako Yoshikawa, da Universidade de Hiroshima, foi publicado na revista científica Geophysical Research Letters.

Um novo olhar sobre como nascem e evoluem as placas

Mais do que explicar um caso específico, os pesquisadores acreditam que o modelo desenvolvido pode ajudar a reinterpretar a formação de outras placas oceânicas ao redor do mundo. A ideia de que grandes eventos vulcânicos são capazes de modificar o “esqueleto” interno das placas amplia significativamente o entendimento da dinâmica terrestre.

Tradicionalmente, a litosfera oceânica era vista como relativamente estável após sua formação inicial. O novo trabalho mostra que episódios extremos podem reabrir esse sistema, alterando suas propriedades milhões de anos depois.

Essa perspectiva tem implicações importantes para o estudo da evolução do planeta, da circulação do manto e até da relação entre vulcanismo e mudanças ambientais globais.

Um passado escondido que ainda influencia o presente

Embora o evento que moldou a meseta de Ontong Java tenha ocorrido há mais de 100 milhões de anos, suas consequências continuam registradas nas profundezas do oceano. O estudo reforça a ideia de que a Terra guarda, em suas camadas mais profundas, pistas fundamentais para compreender sua história e seu funcionamento atual.

Ao revelar como um único episódio vulcânico foi capaz de alterar uma placa inteira, a pesquisa abre caminho para novas perguntas — e mostra que o passado geológico do planeta ainda tem muito a ensinar.

[Fonte: Infobae]

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