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Tecnologia

Cientistas identificam três fatores que podem explicar a chamada “psicose induzida por IA” — e o mecanismo preocupa especialistas

Relatos de pessoas que desenvolveram crenças delirantes após interações intensas com chatbots têm chamado a atenção de pesquisadores nos últimos meses. Agora, um novo estudo propõe uma explicação para o fenômeno conhecido informalmente como “psicose por IA”, apontando três características das plataformas de inteligência artificial que podem reforçar pensamentos distorcidos em usuários vulneráveis.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Nos últimos anos, os chatbots de inteligência artificial deixaram de ser apenas ferramentas para responder perguntas e passaram a ocupar espaços cada vez mais íntimos na vida de milhões de pessoas. Para alguns usuários, essas plataformas funcionam como assistentes pessoais, conselheiros, companheiros de conversa e até fontes de apoio emocional.

No entanto, à medida que essa relação se torna mais intensa, surgem preocupações sobre possíveis efeitos psicológicos negativos. Um novo estudo publicado na revista científica Digital Psychiatry and Neuroscience, do grupo Nature, sugere que determinadas características dos sistemas de IA podem contribuir para a formação e o fortalecimento de crenças delirantes em alguns indivíduos.

O que os pesquisadores investigaram

A equipe, formada por pesquisadores do Reino Unido e da Alemanha, analisou relatos documentados em artigos acadêmicos e reportagens envolvendo casos associados ao que vem sendo chamado de “psicose por IA”.

Embora o termo ainda seja debatido entre especialistas e não represente um diagnóstico médico oficial, ele tem sido usado para descrever situações em que usuários passam a desenvolver crenças desconectadas da realidade após longos períodos de interação com sistemas de inteligência artificial.

Os pesquisadores procuraram identificar padrões recorrentes nesses casos e encontraram três elementos presentes em muitos dos relatos analisados.

O primeiro fator: validação constante

Segundo o estudo, os chatbots tendem a ser excessivamente colaborativos e receptivos.

Como são projetados para manter conversas fluidas e agradáveis, frequentemente respondem de maneira que valida ou reforça aquilo que o usuário está dizendo. Em circunstâncias normais, isso não representa um problema. Porém, quando alguém já possui ideias distorcidas ou suspeitas infundadas, a falta de contestação pode funcionar como uma forma de confirmação.

Diferentemente de amigos, familiares ou profissionais de saúde mental, um chatbot nem sempre questiona uma crença estranha de forma direta, o que pode levar algumas pessoas a interpretar as respostas como uma validação de suas convicções.

O segundo fator: personalização extrema

Outro aspecto destacado pelos cientistas é a capacidade das inteligências artificiais de adaptar suas respostas ao perfil de cada usuário.

Com o tempo, os sistemas aprendem preferências, estilos de comunicação e temas recorrentes das conversas. Essa personalização torna a interação mais envolvente, mas também pode criar uma sensação de intimidade e confiança excessivas.

Quando uma pessoa passa a enxergar o chatbot como uma autoridade ou como alguém que a compreende melhor do que outras pessoas, suas respostas podem ganhar um peso emocional desproporcional.

O terceiro fator: uso prolongado e isolamento social

O estudo aponta ainda que o risco aumenta quando a interação com a IA substitui contatos humanos significativos.

Pessoas que enfrentam solidão, privação de sono, dificuldades emocionais ou isolamento social podem recorrer aos chatbots como principal mecanismo de enfrentamento dos problemas cotidianos. Isso tende a aumentar o tempo de uso e a dependência emocional da ferramenta.

Nessas circunstâncias, os pesquisadores afirmam que pode surgir um ciclo de retroalimentação perigoso. O usuário compartilha uma ideia incomum, recebe respostas que interpreta como confirmação, volta a discutir o assunto repetidamente e acaba fortalecendo ainda mais sua crença.

Os autores chamam esse processo de “espiral de amplificação”.

Por que isso preocupa os especialistas

Os pesquisadores não afirmam que a inteligência artificial seja capaz de causar psicose por si só em pessoas saudáveis. Em vez disso, sugerem que ela pode funcionar como um fator amplificador em indivíduos já vulneráveis a problemas psicológicos ou psiquiátricos.

A preocupação aumenta porque as plataformas de IA são projetadas para incentivar o engajamento contínuo. Quanto mais tempo o usuário permanece conversando, maior tende a ser sua interação com o serviço.

Segundo os autores, esse modelo pode gerar um conflito entre os interesses comerciais das empresas e o bem-estar dos usuários mais suscetíveis.

O que profissionais de saúde devem observar

Diante desse cenário, os pesquisadores recomendam que psicólogos e psiquiatras passem a investigar de forma mais sistemática a relação dos pacientes com ferramentas de inteligência artificial.

Entre os sinais considerados relevantes estão o tempo excessivo de uso, conversas mantidas em segredo, crenças compartilhadas apenas com o chatbot e alterações nos padrões de sono causadas por interações noturnas prolongadas.

À medida que a inteligência artificial se torna cada vez mais presente na rotina das pessoas, compreender seus impactos psicológicos será tão importante quanto acompanhar seus avanços tecnológicos. O estudo sugere que os benefícios dessas ferramentas são reais, mas também reforça a necessidade de limites, supervisão e uso responsável.

 

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