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Vinho, cerveja ou destilados? Um estudo com 340 mil pessoas encontrou uma diferença que chamou a atenção dos cientistas

Uma pesquisa acompanhou centenas de milhares de adultos por mais de uma década e encontrou associações diferentes entre bebidas alcoólicas, longevidade e saúde cardiovascular, mas há ressalvas importantes.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando o assunto é álcool, a quantidade consumida costuma dominar as recomendações de saúde. Uma gigantesca pesquisa britânica, porém, acrescentou outra variável à discussão: o tipo de bebida. Depois de acompanhar mais de 340 mil adultos durante anos, pesquisadores observaram diferenças entre vinho, cerveja, sidra e destilados. Os resultados são intrigantes, especialmente em níveis menores de consumo, mas estão longe de significar que beber álcool faça bem à saúde.

Mais de 340 mil pessoas foram acompanhadas durante 13 anos

O estudo, apresentado na Sessão Científica Anual do American College of Cardiology (ACC.26), analisou informações de mais de 340 mil adultos no Reino Unido.

Em média, os participantes foram acompanhados durante mais de 13 anos. Os pesquisadores compararam seus hábitos de consumo de álcool com diferentes desfechos de saúde, incluindo mortalidade geral e mortes relacionadas a doenças cardiovasculares e câncer.

Para realizar as comparações, o consumo foi dividido em diferentes níveis.

Uma lata de cerveja de aproximadamente 355 ml, uma taça de vinho de cerca de 150 ml ou uma dose de aproximadamente 45 ml de destilado contêm, como referência, perto de 14 gramas de álcool puro.

Quem consumia menos de 20 gramas por semana foi classificado entre aqueles que nunca bebiam ou consumiam álcool apenas ocasionalmente.

Os limites utilizados para definir consumo baixo, moderado e elevado variaram entre homens e mulheres. Entre os homens, por exemplo, mais de 40 gramas diárias foram classificados como consumo elevado. Entre as mulheres, o limite considerado alto foi superior a 20 gramas por dia.

Foi justamente nesse grupo de maior consumo que apareceu o resultado menos surpreendente.

O consumo elevado apresentou um padrão bastante claro

Vinho, cerveja ou destilados? Um estudo com 340 mil pessoas encontrou uma diferença que chamou a atenção dos cientistas
© Unsplash

Independentemente da bebida escolhida, consumir grandes quantidades de álcool esteve associado a piores resultados.

Em comparação com pessoas que nunca bebiam ou faziam isso apenas ocasionalmente, participantes classificados no grupo de consumo elevado apresentaram risco 24% maior de morte por qualquer causa durante o período analisado.

O risco de morrer por câncer foi 36% maior, enquanto a mortalidade por doenças cardíacas apresentou aumento de 14%.

A situação ficou mais interessante quando os pesquisadores analisaram separadamente pessoas com consumo baixo ou moderado.

Nesse caso, vinho e outras bebidas não apresentaram o mesmo padrão estatístico.

O consumo de destilados, cerveja e sidra apareceu associado a um risco significativamente maior de mortalidade. Para quantidades semelhantes de vinho, entretanto, os pesquisadores observaram uma associação com risco menor.

A diferença também apareceu especificamente na saúde cardiovascular.

Pessoas classificadas como consumidoras moderadas de vinho apresentaram risco 21% menor de morte por doenças cardiovasculares em comparação com quem nunca bebia ou consumia álcool ocasionalmente.

Já níveis considerados baixos de cerveja, sidra ou destilados estiveram associados a um risco 9% maior de morte cardiovascular.

Mas existe um detalhe fundamental antes de interpretar esses números como uma recomendação para abrir uma garrafa de vinho.

O vinho pode não ser o verdadeiro responsável pela diferença

Vinho, cerveja ou destilados? Um estudo com 340 mil pessoas encontrou uma diferença que chamou a atenção dos cientistas
© Pexels

Uma hipótese envolve componentes presentes principalmente no vinho tinto, como polifenóis e antioxidantes, substâncias estudadas por seus possíveis efeitos cardiovasculares.

Mas existe outra explicação capaz de mudar significativamente a interpretação do resultado: talvez não seja apenas o conteúdo da taça que esteja fazendo diferença.

Pessoas que bebem vinho podem ter hábitos bastante diferentes daquelas que preferem cerveja ou destilados.

Segundo os pesquisadores, o vinho costuma ser consumido com maior frequência durante as refeições e apareceu associado a dietas de melhor qualidade e outros comportamentos considerados mais saudáveis.

Cerveja, sidra e destilados, por outro lado, são consumidos com maior frequência fora das refeições e, dentro da população estudada, estiveram relacionados a alguns fatores de estilo de vida menos favoráveis.

Isso cria um problema clássico dos estudos nutricionais.

Se uma pessoa bebe vinho, mantém alimentação equilibrada, pratica exercícios e possui melhores condições socioeconômicas, separar estatisticamente o possível efeito da bebida de todo o restante é extremamente difícil.

Os pesquisadores fizeram ajustes para vários desses fatores, mas isso não elimina completamente a incerteza.

O resultado não significa que vinho seja um tratamento para o coração

Essa é provavelmente a ressalva mais importante do estudo.

A pesquisa é observacional. Portanto, consegue identificar associações, mas não demonstrar que determinada bebida causou diretamente aumento ou redução do risco de morte.

Não é possível concluir, por exemplo, que começar a beber vinho reduzirá em 21% o risco cardiovascular de uma pessoa.

Além disso, o consumo de álcool foi informado pelos próprios participantes no início do acompanhamento. Mudanças nos hábitos ao longo dos mais de 13 anos seguintes não foram totalmente incorporadas à análise.

Existe ainda uma particularidade da amostra. Os participantes do UK Biobank tendem a apresentar condições gerais de saúde melhores do que a população britânica como um todo, o que pode limitar a aplicação dos resultados a outros grupos.

Ensaios clínicos randomizados poderiam esclarecer algumas dessas dúvidas, embora pesquisas desse tipo envolvendo álcool apresentem dificuldades práticas e éticas.

A quantidade continua sendo a parte mais importante da história

O tamanho da amostra e o longo acompanhamento tornam os resultados relevantes para investigar por que estudos anteriores chegaram a conclusões tão diferentes sobre consumo moderado de álcool.

A nova análise sugere que colocar vinho, cerveja, sidra e destilados simplesmente na mesma categoria pode esconder diferenças importantes relacionadas não apenas à composição das bebidas, mas também à maneira como são consumidas e ao estilo de vida de quem as escolhe.

Ainda assim, uma conclusão permanece consistente: quanto maior o consumo de álcool, maiores tendem a ser os riscos.

O estudo não transforma vinho em uma bebida saudável nem estabelece uma quantidade de álcool necessária para proteger o coração. Em vez disso, acrescenta uma nova peça a uma questão que a ciência investiga há décadas: quando duas pessoas consomem quantidades semelhantes de álcool, aquilo que está dentro do copo pode ser apenas uma parte de uma história muito mais complexa.

[Fonte: SD]

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