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Ciência

Por que nem a inteligência artificial consegue prever quando acontecerá um grande terremoto

Sensores, estudos geológicos e até inteligência artificial ajudam a compreender terremotos. Ainda assim, antecipar exatamente quando a Terra vai tremer continua sendo um dos maiores desafios científicos.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Furacões podem ser acompanhados durante dias e alguns vulcões apresentam sinais antes de uma erupção. Com terremotos, a situação é muito diferente. Mesmo cercada por sensores, satélites, computadores e modelos avançados, a ciência ainda não consegue determinar com segurança quando um grande tremor acontecerá. O terremoto que atingiu a Colômbia voltou a expor essa limitação e também um problema recorrente: previsões falsas que rapidamente se espalham pelas redes sociais.

Saber onde pode acontecer não significa saber quando

Depois do terremoto que atingiu a Colômbia na manhã de segunda-feira, 10 de agosto, começaram a circular nas redes sociais publicações afirmando que novas réplicas aconteceriam nas horas seguintes, algumas supostamente com magnitude semelhante à do evento principal.

Esse tipo de previsão não possui respaldo científico.

O Departamento Administrativo de Gestão do Risco de Desastres (DAGRD), de Medellín, alertou que terremotos não podem ser previstos dessa maneira e recomendou evitar a divulgação de informações sem fundamento, especialmente porque elas podem aumentar o medo da população.

Julio Fierro Morales, diretor do Serviço Geológico Colombiano (SGC), também reforçou essa impossibilidade após o tremor que provocou impactos em cidades como Quibdó, Cali, Armenia, Manizales e Pereira.

A ciência consegue identificar regiões com maior risco sísmico, estudar falhas geológicas e estimar quais áreas podem produzir terremotos de determinada magnitude.

O problema está em outra palavra: quando.

Segundo Miguel Ángel Rodríguez Pascua, geólogo e pesquisador do Instituto Geológico e Mineiro da Espanha (IGME), estudos adequados podem indicar onde terremotos importantes são possíveis e qual tamanho eles podem alcançar. Determinar o momento exato, entretanto, permanece fora do alcance atual.

Os terremotos mais importantes escondem um problema para os cientistas

Uma das maiores dificuldades está justamente na escala de tempo da geologia.

Grandes terremotos podem levar centenas ou milhares de anos para voltar a ocorrer em uma determinada região. Para a ciência, isso significa trabalhar com uma quantidade limitada de exemplos.

Imagine uma falha que tenha produzido um grande terremoto há 3.000 anos e apresente um intervalo semelhante entre eventos de grandes proporções. A região poderia estar se aproximando de outro episódio, mas registros instrumentais modernos cobrem apenas uma pequena fração desse período.

O desafio fica ainda maior quando se tenta encontrar um sinal universal que apareça antes dos terremotos.

Pesquisadores já investigaram diferentes fenômenos. Um deles é a alteração da concentração de radônio em fontes de água. Pequenas fraturas subterrâneas produzidas antes de determinados terremotos poderiam facilitar a liberação desse gás.

Comportamentos incomuns de animais também são frequentemente mencionados como possíveis sinais.

Até agora, porém, nenhum desses fenômenos demonstrou confiabilidade suficiente. Alterações semelhantes podem acontecer sem terremotos, enquanto grandes sismos também podem ocorrer sem que qualquer um desses sinais seja detectado.

Para uma previsão funcionar, seria necessário indicar com precisão razoável onde, quando e com qual magnitude o terremoto ocorrerá. É justamente essa combinação que ninguém conseguiu alcançar.

Nem a inteligência artificial resolveu o mistério

Por que nem a inteligência artificial consegue prever quando acontecerá um grande terremoto
© Carlos Luis M C da Cruz – Domínio público, Commons wikimedia

A tecnologia ampliou enormemente a quantidade de informações disponíveis para os sismólogos.

Sismômetros registram vibrações extremamente pequenas, sistemas de posicionamento conseguem medir deformações da superfície e modelos matemáticos ajudam a reconstruir o comportamento das placas tectônicas.

Mais recentemente, o aprendizado de máquina entrou nessa busca.

Algoritmos podem analisar grandes volumes de registros sísmicos e procurar padrões que seriam difíceis de identificar manualmente. A expectativa é descobrir alterações sutis que possam anteceder determinados terremotos.

Mas existe um obstáculo fundamental: uma inteligência artificial depende dos dados utilizados em seu treinamento.

Muitos terremotos ocorridos há mais de 25 ou 30 anos não possuem registros digitais tão detalhados quanto os eventos atuais. Quando se recua centenas ou milhares de anos, esses dados instrumentais simplesmente deixam de existir.

Há ainda um desequilíbrio importante. Pequenos terremotos acontecem frequentemente, enquanto os eventos realmente gigantescos são raros.

Os modelos, portanto, possuem milhares de exemplos de tremores menores, mas relativamente poucos casos extremos para aprender como um grande terremoto começa.

E existe uma questão ainda mais básica: os cientistas não sabem se há um precursor inequívoco que sempre apareça antes de um grande sismo. Sem saber exatamente o que procurar, até algoritmos extremamente sofisticados enfrentam limitações.

Cientistas estão procurando terremotos onde não existem registros

Por que nem a inteligência artificial consegue prever quando acontecerá um grande terremoto
© Yena Kwon – Pexels

Uma das maneiras de preencher essas lacunas é literalmente escavar o passado.

A paleossismologia procura evidências geológicas de terremotos que aconteceram centenas ou milhares de anos antes da existência dos instrumentos modernos.

Por meio de escavações e análises de camadas do terreno, pesquisadores conseguem encontrar sinais deixados por antigas rupturas, estimar sua magnitude e reconstruir parcialmente a história sísmica de uma região.

Essas informações permitem calcular melhor os riscos e identificar áreas capazes de produzir novos terremotos importantes.

Ainda assim, conhecer o passado não transforma automaticamente essa informação em uma previsão com dia e horário marcados.

Por isso, enquanto a capacidade de prever terremotos permanece limitada, outra estratégia ganhou importância: preparar as cidades para quando eles acontecerem.

Talvez a maior proteção não esteja em prever o próximo terremoto

Mapas de risco sísmico permitem identificar regiões mais vulneráveis, orientar o planejamento urbano e estabelecer normas de construção compatíveis com os movimentos esperados do solo.

Edifícios projetados para suportar terremotos, sistemas de emergência eficientes e uma população preparada podem reduzir drasticamente as consequências de um evento inevitável.

Também existem sistemas de alerta sísmico capazes de detectar um terremoto que já começou e enviar avisos antes que as ondas mais destrutivas alcancem determinadas cidades. Isso pode oferecer segundos preciosos, mas não deve ser confundido com previsão.

Depois de décadas de pesquisas, a ciência avançou enormemente na compreensão de como e onde os terremotos acontecem. Sensores modernos, paleossismologia, satélites e inteligência artificial continuam ampliando esse conhecimento.

O que permanece escondido é justamente o detalhe que todos gostariam de conhecer: o momento exato em que a tensão acumulada nas profundezas ultrapassará seu limite.

E ainda não está claro se algum dia será possível transformar esse instante em uma previsão confiável.

[Fonte: Yahoo!]

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